Distrito da Confusão (Crônicas de Odylo Costa, filho)

Em Distrito da Confusão publico crônicas (ou extratos de crônicas) de meu Pai, Odylo Costa, filho.

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bella ciao
1 de 1 bella ciao - Foto: Reprodução

Um antifascista modelo   (Folha Carioca, 7/3/1944)
Eis que não vos falarei de árvores, nem de bichos. Também não tratarei do homem de circo e de suas singulares aventuras. Dir-vos-ei apenas de Don Antonio Finamore, que a justiça dos homens acaba de condenar à cadeia na Itália.

Ora, se deu que num povoado dos Abruzos, na terra multissecular de Frisa, que ainda conserva o seu nome romano, o povo pobre tomou um dia conhecimento de que se iniciara o fascismo. Ninguém sabia direito o que isso queria dizer: lavadeiras, operários de estrada de ferro, lavradores de trigo, funcionários públicos municipais, donos de vacaria se perguntavam um ao outro em que aquela mudança se refletiria em sua vida. Estavam tão longe do mundo, gente de fala cantada e paixões ardentes, que, provavelmente, acreditavam que até as suas montanhas, sua vila pobre no pé do grande castelo, não chegariam aquelas reformas de que os jornais falavam, aquelas violências que em voz baixa uns contavam aos outros, em todo o país.

Não ser perguntaram por muito tempo. Don Antonio Finamore chegou, uma noite; e desde então ninguém mais respirou direito. Todo o mundo trabalhava para ele. Viviam vida de escravo. O homem era secretário político do Partido Fascista. E isso queria dizer (foi à própria custa que aprenderam) direito de vida e de morte sobre eles todos. E esse pesadelo durou longos ásperos anos.

Ora, se deu que chegaram soldados do outro lado do mar. Entraram terra adentro. Pararam em Frisa. Don Antonio Finamore foi para a cadeia. No primeiro momento, ainda invocou certos nomes, falou em Badoglio, julgou-se salvo. Mas continuou na prisão até o dia breve em que se anunciou seu julgamento.

Na sala estreita, as testemunhas falavam com simplicidade…

Uma mulher avançou chorando, ainda com medo. Don Antonio tinha suspenso, durante três dias, seu cartão de racionamento. Seus três filhinhos tinham passado fome. Avental riscado, lenço de camponesa na cabeça, as mãos limpavam as lágrimas lembrando aqueles três dias de sofrimento sem consolo. E o motivo era o mais simples: essa megera não cedera passagem, numa estrada, ao carro de Don Antonio Finamore. Depois um chefe de trem (um antigo chefe de trem) mostrou o braço maneta; perdera a mão num desastre, mas não tivera pensão nenhuma. Don Antonio Finamore informara às autoridades superioras do Partido que se tratava de um perigoso antifascista. Dois lavradores, pai e filho, contaram como fora provado que as terras deles não eram deles, e sim de Don Antonio Finamore; e como um juiz fascista decidira de acordo com essas provas eloquentes. Tinham se transformado em trabalhadores para Don Antonio. Um antigo mestre escola avançou, modesto em suas roupas pobres: fora aposentado por não simpatizar com o regime.

A cada uma dessas acusações, Don Antonio, guardado entre soldados aliados, ora fingia não ouvir, ora se limitava a encolher os ombros. Mas quando aquele que sofrera por suas convicções, porém não as calara nunca, quando o que tinha fome e sede de justiça começou a falar, o diálogo explodiu violento e para manter a ordem o militar que presidia o júri teve de determinar que a exposição do homem que acusava fosse feita por escrito.

Don Antonio Finamore teve, então, a palavra para defender-se. Tentou um esforço. Recompôs-se. Sorriu. E declarou que servira ao fascismo. Mas constrangido. Violentado. E como quem grita espantosamente uma verdade:

— Na alma, eu era antifascista. Eu era antifascista na alma.

O júri, porém, não fez como a loura do poema do meu querido e grande Carlos Drummond de Andrade. Não ficou espantado de ver um homem esperto. Devolveu o herói para a cadeia, até — disse o veredicto — o pronunciamento definitivo de uma Corte mais alta.

Não é isso, porém, o que espera Don Antonio Finamore. Ele sonha com o dia em que os antifascistas do seu tipo (que são milhares, no mundo inteiro) invadam por sua vez a Itália; e tomem conta, ainda que por métodos sutis, descarados e hipócritas, do domínio do mundo! Nesse dia, será libertado; e irá (mas naturalmente de automóvel) numa passeata, entre vivas e flores, e fará um discurso contando como judiaram dele, pobre coitado, sempre antifascista.  E seu nome será uma bandeira. E de novo todo o povo de Frisa trabalhará para ele… E ele escreverá longos artigos sobre o verdadeiro conceito de democracia, a paz mundial, as violências dos demagogos e o despeito dos fracassados…

 

Mas, oh meus amigos, será que deixaremos este dia chegar, apenas com um sorriso impotente?

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