Distrito da Confusão (Crônicas de Odylo Costa, filho)
Em Distrito da Confusão publico crônicas (ou extratos de crônicas) de meu Pai, Odylo Costa, filho.
atualizado
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Episódio do juiz enganchado
(Jornal do Brasil, 8 de setembro de 1964, Tribuna da Imprensa, 19 de dezembro de 1955)
Esta página é de dezembro de 1955, meu pai ainda era vivo. Foi então publicada depois de revista pela censura. O censor me perguntou: — Mas é fato verdadeiro o que o senhor conta? Disse-lhe que sim, era uma página de memórias. Apesar disso fez cortes, que agora não consigo recompor. Na época, pareceu atual: reinava o Marechal Lott, Nereu Ramos salvava as aparências civis da República, Tribunais e juízes sofriam dramas morais. De hoje, na minha cama de enfartado, ainda proibido de ler jornais, não sei e não falo — OCf.
Creio que já contei uma vez o episódio, mas o tempo é propício às evocações. Vamos ao passado; e, para evitar complicações, vamos a um passado mais ou menos particular, pois da extensão das restrições de hoje às coisas de ontem tenho experiência própria: não pude escrever nem todo o mal que penso de Floriano nem todo o bem que sei sobre Saldanha.
Não sei como começar. Desde eu menino o problema é este: o assunto era meio proibido na casa, a história dolorosa demais para os velhos, carregada de ódio demais para os novos. Meus Pais eram muito fiéis à memória do irmão morto, de quem eu conhecia o retrato, a fama da juventude e de quem raras vezes minha mãe me mostrava a caneta-tinteiro com incrustação de ouro, que seria minha quando eu crescesse. Mas narrar os fatos, não: não queriam nos transmitir raiva de ninguém e a eles era difícil (se bem que não impossível e a prova é que o fizeram) perdoar. Fui recompondo o passado. Um fragmento daqui, outro dacolá, até que, adolescente treinado para a bondade, soube de tudo.
Meu tio Francisco fora arrastado pelo destino (um destino a que não faltava a maldição da política provinciana) a trocar, pela honra do rosto, uma vida humana. O júri de Teresina, unânime, o absolveu, mas o governo teimou em conservá-lo preso na mesma cadeia em que adoecera da moléstia que, meses depois, o matava. Meu pai era juiz no Maranhão, mas, piauiense de nascimento, o apelo do primeiro ar aspirado no berço o atraíra de forma irresistível para as lutas políticas do seu Estado natal. Estabelecida a teimosia do governo depois da alegria popular pela absolvição do moço, meu pai pediu habeas-corpus. Conhecia cada um dos juízes do Tribunal como a palma das mãos. O Procurador-Geral do Estado fora seu colega de república no Recife, eram íntimos. Outro desembargador era cunhado da amiga mais moça da minha mãe; porém meu pai pensava., sobretudo, nas profundezas do seu saber. E assim por diante. Pediu habeas-corpus, defendeu-o oralmente com risco de vida, ao falar mais de uma vez teve de afastar, com a necessária energia para não revelar medo e a conveniente delicadeza para não parecer provocação, o revólver que o capanga, para essa tarefa escolhido (aliás com inépcia que agradecemos a Deus), esperou, no tumulto, a decisão. O Procurador-Geral, em parecer eloquente, mostrou que não cabia, de forma alguma, habeas-corpus; e o cunhado da amiga mais moça de minha mãe foi um deslumbramento de erudição no mesmo sentido. Mas, apesar disso, o Tribunal soube cumprir o dever. Concedeu a medida.
Mal o fizera, grupos armados, postos na sala para esse fim, trataram de desagravar o Poder Executivo, dissolvendo a reunião a bala. Era o protesto do povo, justamente solidário com o governante, que mantinha na prisão um homem perigoso para a paz pública, e com o Congresso, que o apoiava. (Foi essa, pelo menos, a interpretação do governador, em telegramas para o Rio, e dos oradores da maioria na Assembleia). Protesto ou não, o certo é que houve uma correria doida, gritos, ferimentos, sangue de homem, até morte de homem. Todos abandonaram precipitadamente aquele recinto, já então obsoleto, inclusive os desembargadores (ou a começar por eles), que saíram pela porta dos fundos, de beca e de cabeça descoberta, num tempo em que homem andar sem chapéu era pior do que mulher andar sem meia. Correram todos, inclusive meu pai, que ainda hoje o contesta, assegurando, quando discutimos o assunto à busca de esclarecimento definitivo, que apenas apressou o passo, embora o Procurador-Geral do Estado, que ele conhecia e admirava desde a Academia, mas que, íntimo do governo, bem conhecia as intenções do Poder Executivo apoiado no Congresso, lhe gritasse com entusiasmo: — “Corre, Odylo, se não te matam…”
O velho Odylo ainda não o era tanto que na sua dignidade pessoal estivesse incluído caminhar devagarinho enquanto rifle lambia solto atrás não de céu longe mas de corpos humanos próximos, um dos quais não seria ilógico que fosse o dele, tão interessado em, para cumprir o dever, passar · a mão na barriga da onça, afrontando com autores mortos o governante vivo e o Congresso que o apoiava, isto é, o povo. “Corre Odylo, se não te matam”, se o dizia aquela voz amiga, uma voz ainda do Recife, amizade velha, é que sabia escondido o que estava na vista de todo o mundo. Minha impressão pessoal é que ele seguiu conselho tão oportuno, e fez bem. Porque, desde logo, nunca usou arma., e contra um fuzil bem manejado só vale outro. Depois, não havia desdouro nenhum em, traduzir com as pernas, o aviso: “bala não tem letreiro”; e graças à sua fuga (que, afinal de contas, não era para tão longe, bastava correr até à farmácia de dona Lili atravessando o canto da praça em diagonal) o temos nós, filhos e netos, e até bisnetos, meia centena de pessoas que o amam e agradecem a Deus que, aos oitenta e dois anos, se já não tem a saúde dos vinte, ainda tenha a lucidez dos quarenta — quando ocorreu tudo isso. Não, não houve desdouro. Desdouro se houve foi para os atiradores (e por esta graça louvo a Nosso Senhor), que deram má prova de sua perícia: não conseguiram matá-lo. E foi para um dos desembargadores que ia fugindo de beca, a beca foi e enganchou nas grades do Fórum, o velho magistrado, homem aliás honesto, muito rico de fazendas e de joias, amigo de minha família, ficou aos gritos sem coragem de olhar para traz: — “Me larga, soldado, que eu votei e contra!… Me larga, soldado, que eu votei contra!…“ Era verdade, podia repetir quanto quisesse que ninguém o desmentia. Por isso mesmo, porque tinha votado contra, muitos — sobretudo os que eram de opinião contrária — não o avisaram. Outros nem tempo nem coragem tinham de parar: bala, como já acentuei e já era, àquele tempo, verdade indiscutível, não tem letreiro. Houve ainda quem, sendo meio moleque e parando quando os rifles permitiam, achavam oportuno gritar: — “Larga o homem, soldado!” E, ao que dizem o sinhô branco ficou ali, no sol, horas inteiras, sempre sem voltar-se, a gritar a mesma verdade, cujo efeito, entretanto, não se produzia sobre o coração endurecido do soldado, que o não o largava. Afinal a praça caiu num estranho silêncio, a beca rompeu-se, ele foi ao chão e restou vítima.
Quarenta anos depois, todas as paixões serenadas, eu me pergunto se o homem que votou contra teria mesmo traído a Justiça caso soubesse que ia ficar enganchado na grade do Fórum, pedir me-larga-soldado ou se foi pelo receio de que isso lhe acontecesse que o fez e de nada valeu. Eu me pergunto se o Tribunal zelou mais pela sua própria conservação quando deu o habeas corpus ou quando enganchou a beca. Não creio que chegassem a admitir que a bala não mata alma., mas esperavam que não houvesse bala e não matasse corpo. Mas do perigo bem sabiam, e quanto! E sinto um certo orgulho em imaginar que algum deles passou a mão pela minha cabeça quando eu era menino, e isso me dá um certo senso de reponsabilidade. e (perdoem a palavra) de honra.
Odylo Costa, filho
Escritor e jornalista.


