Distrito da Confusão (Crônicas de Odylo Costa, filho)
Em Distrito da Confusão, publico crônicas (ou extratos de crônicas) de meu Pai, Odylo Costa, filho
atualizado
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Ordenado de professora (Tribuna da Imprensa, 13 de janeiro de 1953)
O jornal não está gostando nada disso. Reclama enérgico e tudo lhe parece tão péssimo que é como se o Distrito Federal já fosse autônomo, o que ainda mais lhe magoa as convicções. Ainda o prefeito não é eleito, se queixa o matutino, e numa cidade que não tem dinheiro para água e condução, e onde o lixo se acumula, “pessoas de vinte anos de idade, limpando a boca, etc., aos moleques de seis, terão o ordenado dos professores universitários”. Com isso – exclama – o prefeito cobre de ridículo a Pátria.
Neto, por ambos os lados, de professor, serei, por isso mesmo, suspeito para falar do assunto. Aconteceu ainda que tive mestra que me ensinou a ler, e a gente fica sempre sobre a impressão da infância. Mas essa suspeição, enfim, nos aflige a todos, a menos que se trate de uma daquelas crianças que aprendem a ler sozinhas. Leio o verbete de Fernando Sabino no seu “Dicionário Brasileiro de Lugares Comuns”: “Crianças – Aprendem a ler sozinhas, dizem coisas extraordinárias, já ajudam em casa”. Receio, porém, que mesmo essas terminem indo à escola, e se afeiçoando à professora.
No meu tempo de menino, a expressão “moleque” era bastante ofensiva, e o seu uso provocava reação tanto quanto possível imediata. Às vezes, entretanto, era usada carinhosamente, até pelos próprios pais do ofendido. No caso presente, todavia, essa hipótese está afastada: o intuito foi depreciar não tanto os citados moleques, mas de preferência as moças que lhes limpam a boca etc. Nesse “etc.” há malícia, não aquela fina malícia que faz sorrir, mas um trejeito cruel de zombaria e escárnio.
Uma coisa, particularmente, me dói: os moleques de seis anos não leem jornal, mas as moças de vinte costumam fazê-lo. Aos moleques pouco me importa que dirijam um anátema tão coletivo, mesmo porque dor de menino passa logo. Mas às mestras (e tantas, mas tantas, meu Deus, já não têm vinte anos) me indigna que um grande jornal considere menos importante que água, condução, lixo, sua lida com a infância.
Não direi apenas quanto ao trabalho que dá. Esse não é pesado de hoje. Mestre Nicolau Tolentino aí por volta de 1777 ensinava na rua da Rosa, em Lisboa. Foi a Caldas da Rainha e começou a apiedar-se dos velhos de muletas ferradas e cabeças trêmulas que entravam nos banhos. Mas um lhe indagou seu ofício. “A dar escola vivo condenado”, respondeu ele. E o “convulso rabugento”:
“Maldize, ó moço louco, os teus destinos,
Que não deve chorar alheio fado
Quem tem o de ser mestre de meninos”.
Ainda naquele tempo havia palmatória e outras armas para impor a autoridade a custa da violência. Hoje é a meiguice que se gasta, e com ela o coração; e existem complicadas máquinas estatísticas para medir se a mestra foi boa ou má, como se em números se traduzisse esse imenso mistério de contato entre a mulher e a criança, no mundo das coisas que já foram antes descobertas.
Mas esse mistério – que é, a meu ver, um dos raros e indefinidos motivos por que a cólera de Deus tem poupado da destruição este mundo de injustiça, mediocridade e ingratidão, uma das raras felicidades que o homem tem a oferecer a Deus para compensá-lo do espetáculo dos campos de concentração e da criança espantada diante de Hiroshima e Nagasaki – um jornalista (porque no que escreve o jornal há sempre atrás a mão de um homem, e esse deve ter tido alguém que lhe ensinou a ler) o reduz a limpar a boca de moleques; e se indigna porque às mestras se pensa em pagar bem – ainda que menos do que aos fiscais do imposto do consumo e aos Procuradores da República.
Eu proporia que não se pagasse nada, se vivêssemos noutro mundo. Neste nosso, devíamos era desculpar-nos com as professoras de que seja apenas classe “O” o que a cidade lhes dê em troca de limpar a boca de seus filhos.
Odylo Costa, filho
Escritor e jornalista.


