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Distrito da Confusão (Crônicas de Odylo Costa, filho)

Distrito da Confusão são crônicas de meu Pai, Odylo Costa, filho. Esta data da eleição de um golpista emérito não francês, mas brasileiro

08/10/2026 11:06
Arquivo Nacional
Distrito da Confusão (Crônicas de Odylo Costa, filho)

Napoleão, o pequeno (Diário de Notícias — 6/8/1950)
Não sei se o leitor gosta de histórias, velhas e novas, e também da História, com maiúscula, antiga e moderna. Se assim é — se quer ter uma visão total da vida e a nada do que é humano se julga alheio — talvez leia com interesse esta crônica de outra era.

***

1848, “primavera dos povos”, cai o rei Luís Felipe. Nasce a segunda República francesa.

Ora, do outro lado do Canal, em Londres, mora um homem de quarenta anos, sobrinho de Napoleão, neto de Josefina, que há dezoito meses fugiu do Castelo de Ham, onde estava prisioneiro como pretendente ao trono da França, que na França tentara desembarcar. E não está desatento: a 22 de fevereiro cai Luís Felipe, a 26 Luís Napoleão está em Paris. Mas o Governo Provisório não lhe permite ficar, embora venha “sem outra ambição que não seja a de servir meu país”. E Luís Napoleão se inclina: “Pensais que minha presença é um embaraço; me afasto, pois, momentaneamente. Vereis nesse sacrifício a pureza das minhas intenções e do meu patriotismo…”

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Mas na última semana de maio, quando a Câmara debatia se devia ou não manter no desterro os Bonaparte, Luís Napoleão exige que lhe reconheçam seus direitos de cidadão francês. Como excluir alguém do sufrágio universal? Os direitos de cidadão francês são reconhecidos a Luís Napoleão Bonaparte.

E logo em junho quatro departamentos — entre os quais Paris — o escolhem deputado. Mas seu momento ainda não chegou. Lamartine e o Governo Provisório lhe determinam a prisão. Luís Napoleão continua em Londres, e se dirige à Assembleia, ora atrevido: “Se o povo impõe deveres, saberei desempenhá-los. Meu nome é um símbolo de ordem, de nacionalidade e de glória”; ora insinuante: “Quero que os que me acusam de ambição se convençam de seu erro…” E deixa, para voltar à França, que sua presença “não possa servir de pretexto aos inimigos da República”. Renuncia à deputação, pois um motim popular sucedeu à ordem de prisão e a República convocou a Guarda Nacional: mas no dia seguinte, em vez de decretar-lhe o exílio, ratificou a eleição revestida de todas as formalidades…

A renúncia de Luís Napoleão não encerra, todavia, os acontecimentos. Depois das grandes jornadas sangrentas de junho — em que a Revolução social tentou derrubar a República liberal — se aproximam as eleições de setembro. Ora, o príncipe é bem-visto, simultaneamente, dos banqueiros e da massa. Conversa, em Londres, com Louis Blanc e, em Paris, com Proudhon. Diz-se de esquerda e é autor de um folheto sobre a extinção do pauperismo, mas os ricos veem nele a manutenção dos seus privilégios, e não financia sozinho sua rumorosa campanha. Há milionários com ele.

Cinco departamentos o levam, desta vez, à Assembleia; e ninguém contesta a sua eleição.

Vem, tarde, sentar-se numa bancada, à esquerda, justamente quando se lê o relatório que conclui pela validade de uma de suas seções, a do Yonne. Adotam-no sem discussão. Quer falar, para agradecer, do seu lugar. Intimam-no a ir à Tribuna. Fala mal. Afirma simpatia pelos colegas, garante devotamento pela República. Lá fora, seus partidários se comprimem para vê-lo; e, no recinto os republicanos exultam. Como fala mal o príncipe Bonaparte!

Sua “afetuosa simpatia” não é retribuída. No deputado a Assembleia vê o candidato à Presidência da República e o pretendente ao Império.

É preciso agir. A Assembleia tem seu candidato, o general Cavaignac. Se a eleição for indireta, Cavaignac — em quem ainda hoje uns veem um hipócrita e um tolo, outros um salvador da República — estará eleito. Se for direta, ninguém se ilude: é a vez de Napoleão. Começam então intermináveis discussões; e acaba por vencer o “medo de parecer ter medo”. Não se dirá que uma assembleia de republicanos teve medo, em 1848, de recorrer à decisão do sufrágio universal. À eleição direta, vota-se. Para combater Napoleão haverá outro meio.

Há. Jules Grevy propõe suprimir a Presidência da República e entregar o governo ao Conselho de Ministros. Impraticável. A maioria recusa.

Então um representante, Thouret, sugere uma emenda à Constituição. Excluam-se do direito de candidatar-se à Presidência da República os membros dos famílias que reinaram na Franca. A Assembleia pula, com os nervos agitados. É essa a saída. Mas há os puristas, que entendem que, se Luís Napoleão é deputado, pode ser eleito presidente da República. Luís Napoleão está presente (o que é raro: “raras vezes, diz um dos seus biógrafos, ocupava seu lugar na Câmara, e quando fazia metia um revólver no bolso”). Nesse dia 9 de outubro, Luís Napoleão vai à tribuna, e fracassa. Não consegue articular seu amor à República. “Que imbecil!”, exclama Ledru-Rollin. Uma euforia sem limites percorre a Assembleia. “Depois do que venho de ver e ouvir, minha emenda é inútil; eu a retiro”, fala o representante Thouret. Às eleições diretas! Que Luís Napoleão seja candidato. Ninguém tocará no seu direito a ser votado. É um direito sagrado. Às urnas!

Em outubro Luís Napoleão aceita a candidatura e comparece à Câmara para defendê-la com a ajuda de outros. Ele conquistou alguns nomes realmente grandes. Berryer, que amanhã encarnará a Resistência, e com ele Montalembert; e Guizot, que servira a Luís Felipe; e Thiers, que um dia salvará a França; e Victor Hugo que vai conhecer o exílio. Luís Napoleão é hábil: “O que a sociedade necessita é de um governo que pense mais em curar os males da sociedade do que em vingá-los.”

Seu adversário é o general Cavaignac, soldado que aprendeu a ser calado nas areias do Saara, sem medo e sem ambição, o taciturno de vontade vigorosa que deu o sangue defendendo a República contra a Revolução da Esquerda. “Olhava a Segunda República — escreve um historiador — com um carinho que oscilava entre a religião e o pedantismo.” Se não tinha ambição, tinha seu quê de orgulho. Teve uma vez o Poder nas mãos e o devolveu à Assembleia. Vindo do Exército para a política, não se tornou “parlapatão e irresoluto”. “Multiplicava seus inimigos com a estrita imparcialidade do homem honrado.”

Aos socialistas, porém, não parece simpático o general republicano. Consideram-no um homem de direita. E vão ter candidato próprio.

***

A 10 de dezembro de 1848, Luís Napoleão era eleito presidente da República Francesa, com 5.572.834 votos. Cavaignac tinha 1.469.156. Ledru-Rollin, socialista, 376.000. E outros menos votados.

Dez dias depois, o novo presidente prestava seu juramento: “Em presença de Deus e do povo francês, representado pela Assembleia Nacional, juro permanecer fiel à República democrática, una e indivisível, e cumprir todos os deveres que me são impostos pela Constituição.”

Três anos depois, a República deixara de existir.

***

Contando essa história, só quero acentuar isto: é que o sr. Getúlio Vargas pode ser eleito não por 5 milhões e meio num eleitorado de sete milhões, mas por pouco mais de 2 milhões e meio num eleitorado de dez milhões…

Também considero que dos republicanos franceses de 1848 se pode dizer que eram idealistas puros. Não tocaram nos direitos de Luís Napoleão e permitiram que ele destruísse a República, mas nunca feriram outros direitos, nunca se mesclaram em escândalos administrativos e deles é que nasceram algumas das grandes ideias que estão construindo um mundo novo. E dos democratas brasileiros de 1950?

Odylo Costa, filho