Direita quer distância do thriller bolsonarista (por Mary Zaidan)
Relações espúrias estão no DNA da família e escancaram que Flávio nada mais é do que um sobrenome
atualizado
Compartilhar notícia

Poucas horas depois de vir à tona a troca de mensagens entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, nas quais eles revelam ser amigos para o que der e vier, parcela do mundo político iniciou o enterro da candidatura do filho Zero Um. Lula, safo, preferiu não comentar o escândalo, dizendo que se tratava de “coisa de polícia”. Mas apoiadores do senador rapidamente começaram a elencar eventuais substitutos – a ex-primeira dama Michelle Bolsonaro e a senadora Tereza Cristina (PP-MS) à frente -, escancarando o que Flávio realmente é: nada mais do que um sobrenome.
Substituir candidaturas majoritárias não é tarefa fácil. Nem para políticos que têm aura, história e liderança. Impedido de disputar as eleições de 2018, Lula lançou Fernando Haddad 20 dias antes do pleito. Até conseguiu que o indicado chegasse ao segundo turno, mas ele foi derrotado por Jair Bolsonaro por 55% a 44%.
Tanto àquela época quanto hoje, Lula é quem impulsiona o PT e boa parte da esquerda, e se tornou praticamente insubstituível. Quando falou, em abril, que ainda não tinha decidido ser ou não candidato, houve até quem considerasse as alternativas Haddad ou o ex-ministro da Educação Camilo Santana. Pura especulação que não chegou a ser levada a sério.
Inelegível por oito anos, Bolsonaro contrariou um número expressivo de apoiadores ao apostar todas as suas fichas na força do sobrenome. Rapidamente, seu ungido galgou pontos nas pesquisas, encostou e até chegou a ultrapassar Lula. Isso abriu caminho para o endosso dos que preferiam ver o governador de São Paulo Tarcísio de Freitas (Republicanos) como candidato, de gente do Centrão e de outros expoentes à direita que torciam o nariz para o rebento sem luz própria. Incluem-se aqui líderes evangélicos de peso, como Silas Malafaia, e a turma da Faria Lima. A lambança com o “irmão” Vorcaro pode pôr tudo a perder.
Na direita e até no bolsonarismo o clima foi – e ainda é – de barata voa.
Perplexo, o dono do PL, legenda de Flávio e do pai preso, Valdemar da Costa Neto preferiu nada falar. Nas redes sociais, bolsonaristas soltavam dardos sem direção. Influenciadores de peso, como o deputado mineiro Nikolas Ferreira (PL), com seus 38,8 milhões de seguidores, escolheram atitude protocolar.
Interessados em cooptar o eleitor anti-Lula que embarcou na canoa Flávio, os demais postulantes à direita reagiram logo que os áudios com o ex-banqueiro vazaram. Romeu Zema (Novo) disse ser “imperdoável, um tapa na cara” e Ronaldo Caiado (PSD), mais ameno, exigiu esclarecimentos e total transparência. Renan Santos (Missão), que deseja se firmar como o candidato contra tudo e todos, foi mais longe: pediu a cassação do senador.
O quadro de desconfiança se agravou com as quatro versões de Flávio, somadas às duas do seu irmão Eduardo.
Com as críticas a ele se ampliando, Flávio disse na sexta-feira que não iria mais falar sobre Vorcaro, que não devia explicações a ninguém. Talvez para ele seja melhor assim, visto que cada vez que fala ele piora tudo ao seu redor. Mas como na verdade ele deve explicações – e muitas -, a mudez em meio à crise prejudica a sua candidatura e dificulta a manutenção de aliados. Afinal, muitos prefeririam não ter tido de engoli-lo. Engoliram pelo sobrenome. Depois dos áudios, estão custando a digerir a traição – antes o senador garantia, de pés juntos, desconhecer e ter “relação zero” com Vorcaro. Quem gostou foi o senador Ciro Nogueira (PP-PI), também enrolado com o ex-banqueiro, que, graças a Flávio, saiu dos holofotes.
Da boca para fora ainda falam que manterão o apoio, mas já discutem outros nomes. Na quinta-feira, Michelle subiu ao topo. Na sexta foi a vez de Tereza Cristina, mais palatável ao centro. Mas ambas têm possibilidades quase nulas de conseguir o aval do ex. O desespero é de tal monta que houve quem sugerisse a chapa Tereza-Michelle. Gilberto Kassab, dono do PSD, passou a enxergar chances para Caiado, candidato de seu partido, iniciando conversações com próceres do Centrão.
Embora se movimentem, os oposicionistas a Lula sabem que substituir Flávio não é tarefa simples. Dificilmente o ex-presidente condenado conseguiria apontar um outro candidato. De antemão, o eleitor veria um eventual indicado como plano B e não como o favorito – e ele ainda teria de explicar a substituição. Chance zero. Talvez, na sua cabeça, seja melhor perder com o sobrenome do que ter chances de vencer com outro qualquer.
O foco agora não se limita à estratégia do bolsonarismo e da direita para alterar esse enredo, mas às relações espúrias com o dono do Master. Hoje, o que se quer é desvendar o thriller. Por que Vorcaro se comprometeu a liberar R$ 134 milhões para os Bolsonaro? Onde foram parar os R$ 61 milhões já pagos, supostamente para o filme Dark Horse (O Azarão)? Como o irmão Eduardo, deputado cassado e auto-exilado nos Estados Unidos, entra na história? Por quais motivos Flávio estabeleceu um pacto de lealdade com o ex-banqueiro – “irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente”?
No mais, o desenrolar do filme que pode tirar o Zero Um do script eleitoral já é sucesso de bilheteria. Aplaudido por lulistas e até por centristas.
Mary Zaidan é jornalista


