Dinheiro ganha eleição? (por Gaudêncio Torquato) 

Historicamente, campanhas mais bem financiadas tendem a largar na frente

atualizado

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Mario Tama/Getty Images
Imagem colorida de "santinhos" jogados na rua - Metrópoles
1 de 1 Imagem colorida de "santinhos" jogados na rua - Metrópoles - Foto: Mario Tama/Getty Images

O dinheiro ganha pleitos eleitorais? A pergunta, tão antiga quanto as primeiras disputas políticas organizadas, ressurge com força em tempos de campanhas milionárias, marketing digital sofisticado e estruturas eleitorais cada vez mais profissionalizadas. À primeira vista, a resposta parece óbvia: sim, o dinheiro é decisivo. Mas a realidade, como quase tudo na política, é mais complexa.

Não há dúvida de que o dinheiro exerce papel central nas eleições. Ele financia campanhas, estrutura equipes, amplia a presença midiática, impulsiona candidaturas nas redes sociais e garante capilaridade territorial. Sem recursos, candidatos tornam-se invisíveis. E, na política contemporânea, invisibilidade é sinônimo de derrota. A máxima “quem não é visto não é lembrado” tornou-se ainda mais contundente na era da comunicação em tempo real.

Historicamente, campanhas mais bem financiadas tendem a largar na frente. O acesso a recursos permite pesquisas qualitativas, definição de estratégias mais precisas, produção de conteúdo profissional e ocupação de espaços privilegiados no imaginário do eleitor. O dinheiro, nesse sentido, não apenas viabiliza campanhas — ele potencializa narrativas.

Mas há um limite para o poder do dinheiro. Ele não cria, por si só, legitimidade, carisma ou conexão com o eleitor. Pode amplificar uma mensagem, mas não substitui seu conteúdo. Pode impulsionar uma candidatura, mas não garante sua aceitação. Em muitos casos, o excesso de recursos, associado a estruturas artificiais, gera desconfiança e rejeição.

A história política brasileira e internacional está repleta de exemplos de candidaturas ricas derrotadas por campanhas mais enxutas, porém mais autênticas. Veja-se a campanha de Fernando Henrique, candidato à prefeitura municipal de São Paulo, contra Jânio Quadros, em 1985. FHC tinha um programa exuberante, dirigido por uma das melhores equipes de marketing político do país, enquanto Jânio usava apenas a presença ao vivo na sala de gravação da TV RECORD, na época localizada na avenida Miruna. Enquanto Fernando Henrique apresentava um vasto programa de serviços e obras, Jânio tinha como eixo de seu discurso o combate aos criminosos. Fazia questão de repetir as mesmas falas contra a bandidagem. No último dia da votação, FHC chegou a sentar na cadeira de prefeito para tirar uma foto, certo de que, como favorito, ia ganhar o pleito por larga margem. Perdeu a eleição. Jânio ganhou por pequena diferença.

Isso ocorre porque o eleitor não é um ente passivo. Ao contrário do que se imaginava em tempos de propaganda unidirecional, o cidadão contemporâneo filtra, compara, critica e reage. A abundância de informação — ainda que muitas vezes contaminada por desinformação — amplia sua capacidade de julgamento.

Nesse contexto, emerge uma equação mais sofisticada: dinheiro é condição necessária, mas não suficiente. Ele funciona como combustível, mas o motor continua sendo a mensagem. E essa mensagem precisa dialogar com aquilo que, em última instância, move o voto: as condições concretas de vida.

O eleitor decide com base no que sente no bolso, na mesa e no cotidiano. Se o dinheiro da campanha não consegue dialogar com essas dimensões — se não traduz expectativas reais em propostas críveis — ele se torna apenas barulho. E barulho, em excesso, pode afastar.

Além disso, há um fator muitas vezes negligenciado: o chamado imponderável da política. Episódios inesperados — uma crise, um escândalo, uma fala infeliz, um evento emocionalmente mobilizador — podem redefinir cenários em questão de dias. Nenhuma quantia é capaz de blindar completamente uma candidatura contra o imprevisível.

Outro aspecto relevante diz respeito à origem e ao uso dos recursos. Em um ambiente de crescente vigilância institucional e social, o dinheiro passou a carregar também um peso ético. Recursos mal explicados, gastos excessivos ou sinais de abuso podem transformar vantagem em vulnerabilidade. O eleitor, cada vez mais sensível ao tema da corrupção, tende a penalizar excessos.

Por fim, é preciso considerar a mudança estrutural no ecossistema da comunicação. As redes sociais democratizaram, em parte, o acesso à visibilidade. Embora também demandem investimento, permitem que mensagens orgânicas, autênticas e bem calibradas alcancem grande repercussão com custos relativamente menores. Nesse novo ambiente, criatividade, timing e conexão emocional podem, em certos casos, compensar limitações financeiras.

Portanto, o dinheiro não ganha eleições sozinho — mas sua ausência quase sempre as perde. Ele é instrumento, não destino. É meio, não fim. Sua eficácia depende da inteligência estratégica, da coerência do discurso e, sobretudo, da sintonia com o eleitor.

Em última análise, eleições continuam sendo decididas por pessoas, não por cifras. E pessoas votam não apenas no que veem, mas no que sentem, no que esperam e no que acreditam. O dinheiro pode abrir portas, mas não atravessa, por si só, o coração do eleitor.

Eis a síntese: campanhas podem ser compradas; votos, não.

 

GAUDÊNCIO TORQUATO é professor emérito da USP, escritor, jornalista e consultor político

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