Deus me proteja de mim (por Tânia Fusco)

Antes que novembro acabe, os 121 mortos já estarão substituídos por outro cento de gente, devidamente rearmada

atualizado

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Tercio Teixeira/Especial Metrópoles
Megaoperação no Rio de Janeiro. Moradores empilham e fazem contagem de corpos após operação da polícia contra o CV no Rio de Janeiro.
1 de 1 Megaoperação no Rio de Janeiro. Moradores empilham e fazem contagem de corpos após operação da polícia contra o CV no Rio de Janeiro. - Foto: Tercio Teixeira/Especial Metrópoles

E da maldade de gente boa / Da bondade da pessoa ruim / Deus me governe e guarde, ilumine e zele assim

São versos de música do compositor Chico Cesar. Podem ser repetidos e repetidos, como mantra, para espantar violências que ganham aplausos de consentimento. Não de poucos, mas da maioria. Lá se vai nossa humanidade?

Só Deus na causa, protegendo a nós todos de nós muitos – da maldade de gente boa, da bondade da pessoa ruim. Se não Ele, quem sabe o Xandão, no papel de superpai bravo e legalista?

O Rio de Janeiro – cidade e estado – cercado pela violência de drogas e armas, aplaude até mesmo reis nus, como se vestidos estivessem. Aceita a maldade de gente boa. E benza Deus!

Todo mundo viu, todo mundo soube, no Rio de Janeiro, a Operação Contenção, “neutralizou” 121 pessoas – todos homens, todos favelados. A maioria pretos e jovens. Bagrinhos do crime. 120 armas foram aprendidas, 93 fuzis. Uma arma pra cada morto – dito “neutralizado” na comunicação oficial sobre o dia de guerra na terça-feira, 28 de outubro. Doca, principal alvo da ação policial, não foi preso. Bem informado, escapou antes. Quem se importa?

Mesmo sem o Doca, o mal foi contido. Ufa! O bem venceu.

Antes que novembro acabe, os 121 mortos já estarão substituídos por outro cento de gente, devidamente rearmada – com a mesma quantidade de fuzis e outros, que podem, inclusive, serem os mesmos apreendidos na Operação Contenção.

Em curto tempo, o Comando Vermelho pode ser vencido por alguma facção miliciana, que depois será vencida por outro dos comandos do tráfico de drogas, armas, jogos e os super compensadores serviços de TV, distribuição de gás, Uber, mototáxi… E, lugar comum, no Rio e outras capitais e cidades brasileiras, seguem batalhas e mortes, “neutralizando” as sardinhas de sempre, enquanto baleias e tubarões, seguem, seguras. Seguem pagando – muito bem e aos certos de sempre – pela calmaria das paisagens à beira mar.

Mas a maioria da população aprovou a chacina na ação do tabuleiro de segurança pública do Rio. Claudio Castro, o governador, tem sido aplaudido em espaços públicos. Canta vitória. A maioria de nós foi capturada pela crueldade? Ou só deseja não ter medo nas ruas, segurança no seu ir e vir diário, no corre do trabalho pra tocar a vida? Acabamos convencidos a exercer vinganças? Acreditamos que só violência “neutraliza” violência?

Melhor matar do que prender. É o que está valendo. E ameaça virar trunfo eleitoral.

Deus nos proteja de nós / E da maldade de gente boa / Da bondade da pessoa ruim / Deus nos governe e guarde, ilumine e zele assim

 

Tânia Fusco é jornalista 

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