Deus já deve estar de saco cheio (Por Madalena Sá Fernandes)
Uma memória: “Tenho 71 anos e nunca esqueci nem esquecerei dos abusos.”
atualizado
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Um mandamento: “Guardar castidade nos pensamentos e nos desejos.”
Uma notícia: “Comissão estima mínimo de 4.815 crianças abusadas pela Igreja Católica em Portugal”.
Um número: 4.815.
Um crime: Abuso sexual de menores.
Um testemunho: “Houve um dia que consegui 26 rebuçados. Quando ia ao seu quarto buscar, ele apalpava-me todo e metia a língua toda.”
Um relatório: “Dar voz ao Silêncio”.
Uma oração: “Pelos sacerdotes que servem o povo cristão, para que, através da alegria com que vivem a sua entrega, Deus chame alguns jovens ao sacerdócio, Oremos irmãos.”
Um parecer: “Sobre o sucedido não há reparação possível para as vítimas.”
Um depoimento: “O senhor padre era a voz de Deus.”
Um samba: “Tudo o que se faz na terra, se coloca Deus no meio, Deus já deve estar de saco cheio.”
Uma lei: “No plano legal, o Código Penal distingue o abuso sexual de criança do acto sexual com adolescente. O abuso sexual de criança é um crime público e prevê penas de prisão que podem chegar aos dez anos.”
Uma citação: “As frases que vão salvar a humanidade já foram todas escritas. Só falta salvar a humanidade.”
Uma estatística: “52% das vítimas de abusos de padres eram rapazes e 42% raparigas.”
Um mandamento: “Guardar castidade nos pensamentos e nos desejos.”
Uma cláusula: “Quanto aos prazos de prescrição, o crime de ato sexual com adolescente prescreve ao fim de dez anos. No crime de abuso sexual de menor, os prazos de prescrição estendem-se até 15 anos volvidos sobre a prática do crime.”
Uma estrofe: “A Crueldade tem Humano Coração / E tem a Intolerância Humano Rosto / O Terror a Divina Humana Forma / O Secretismo Humano Traje Posto.”
Uma média: 11,2 anos.
Um tweet: “Que nojo, que volta ao estômago, que vergonha.”
Uma geografia: Lisboa, Porto, Braga, Santarém, Leiria e o resto do País.
Uma ameaça: “Se contares mato-te. (…) Não digas a ninguém senão vais direitinha ao inferno.”
Um editorial: “A igreja deve confessar-se.”
Uma declaração: “A esmagadora maioria dos casos já prescreveu.”
Um sentimento: Raiva.
Um trauma: “Nos anos seguintes não conseguia entrar numa igreja, sentir o cheiro a incenso, a flores (…)”
Um facto: “É inequívoco que houve ocultação por parte da Igreja.”
Um refrão: “Mas pode ser tão difícil / De acreditar em Deus assim.”
Um comentário no Instagram: “Identificados, expostos e presos! Sem misericórdia!”
Um versículo: “Que diremos, pois, diante dessas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós?”
Uma culpa: “Sentia que o que me acontecia era por minha culpa e era errado.”
Uma proposta: “Prescrição de crimes deve ser aumentada para 30 anos da vítima, defende Comissão.”
Uma memória: “Tenho 71 anos e nunca esqueci nem esquecerei dos abusos.”
Uma urgência: Que se faça justiça.
Uma súplica: Livrai-nos do mal.
(Transcrito do PÚBLICO)


