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Debate da Band: o nocaute dos eleitores (por Hubert Alquéres)

É preciso impedir que o Brasil volte a ser nocauteado pelo radicalismo e pela intolerância política

21/10/2026 11:12
Imagens cedidas pela TV Band
Debate da Band: o nocaute dos eleitores (por Hubert Alquéres)

Debate eleitoral televisivo nunca foi um passeio. O confronto é parte da disputa democrática, mas precisa servir ao eleitor. No encontro da TV Bandeirantes, Flávio Bolsonaro e Lula fizeram o contrário. Transformaram a oportunidade de discutir o futuro do país em um espetáculo de provocações e acusações, mais próximo das marmeladas da luta livre de décadas passadas do que de um debate presidencial.

Decepcionante, vergonhoso, triste. Essas avaliações apareceram entre eleitores que participaram de pesquisas qualitativas durante o programa. Havia muita expectativa em torno do primeiro confronto de uma campanha na qual os dois principais contendores fugiram do debate de ideias e propostas como o diabo foge da cruz.

Se houve nocaute naquela noite, foi o dos eleitores, especialmente dos indecisos, que ligaram a televisão na expectativa de comparar propostas e decidir seu voto. Quem procurava uma razão para comparecer às urnas no próximo domingo encontrou um desfile de razões para rejeitar os dois.

A baixaria foi produto da estratégia adotada pelas campanhas. O marketing político transformou em dogma a ideia de que ganha a eleição quem conseguir tornar a rejeição do adversário maior do que a sua. Flávio e Lula seguiram esse figurino, principalmente na primeira parte, quando só faltaram chegar às vias de fato.

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Essa estratégia explica por que não se deve votar no adversário, mas não explica por que o próprio candidato merece vencer. Ao apostar na desconstrução do oponente, os candidatos abrem mão de construir uma adesão baseada em propostas e expectativas de mudança.

As redes sociais agravaram essa deformação. O debate televisivo passou a ser tratado como matéria-prima para vídeos curtos, destinados a circular pelos exércitos digitais das campanhas. A resposta consistente perde espaço para a provocação capaz de viralizar. A pergunta deixa de buscar esclarecimento e se transforma em armadilha.

Pablo Marçal explorou ostensivamente essa lógica na eleição municipal de 2024. Agora, como orientador de Flávio na preparação para o debate, ajudou a levar sua cartilha à disputa presidencial. O candidato do PL mostrou disposição para segui-la. Mas produzir cortes para os próprios apoiadores não equivale a conquistar eleitores indecisos.

Que imagem ficou dos dois candidatos depois daquela noite?

Flávio comprometeu a imagem que sua campanha procurou projetar: a de uma face moderada do bolsonarismo. Sua agressividade, suas provocações e suas evasivas expuseram a distância entre essa apresentação e seu comportamento diante do contraditório. Em vez de tranquilizar quem teme o radicalismo, deu motivos para desconfiar dos riscos de um segundo governo da família Bolsonaro.

Lula também não ficou bem na fita. O presidente perdeu o controle dos nervos e transmitiu uma imagem de desgaste. Ao ser questionado sobre sua votação nos presídios, respondeu que queria receber 100% daqueles votos, incluindo o de Jair Bolsonaro. Foi mais uma provocação pessoal. Ao concluir o terceiro mandato, somando doze anos à frente da Presidência da República, tinha a obrigação de preservar a dignidade do cargo. Sua postura rebaixou a própria instituição que lhe cabia representar.

Lula também tinha a obrigação de explicar o que faria de diferente nos próximos quatro anos. Não apresentou aos indecisos uma razão convincente para lhe conceder um quarto mandato.

O debate foi o corolário de uma campanha pautada pela disputa de rejeições. Até as propostas ganharam a forma de concessões de última hora, feitas sob a pressão das urnas.

Lula passou a defender a redução da maioridade penal para dezesseis anos nos casos de crimes hediondos, contrariando uma posição histórica de seu partido. Flávio, por sua vez, passou a defender a escala de trabalho de cinco dias com duas folgas, depois de resistir ao fim da escala de seis por um. O cinismo eleitoral faz milagres.

O Brasil vai às urnas no próximo domingo sem que os candidatos tenham oferecido uma perspectiva convincente de dias melhores. A polarização estreitou o debate público, alimentou hostilidades e transformou a escolha presidencial em mais um acerto de contas com o adversário.

Mário de Andrade escreveu: “Pouca saúde e muita saúva, os males do Brasil são”. Parafraseando o escritor modernista: pouca concertação e muita polarização, os males da política brasileira são.

Independentemente de quem seja eleito, os democratas brasileiros terão a missão impostergável de reconstruir consensos em torno da defesa das instituições e de uma agenda de desenvolvimento que enfrente os problemas do país. É preciso impedir que o Brasil volte a ser nocauteado pelo radicalismo e pela intolerância política.

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Hubert Alquéres é presidente da Academia Paulista de Educação.