De Gutemberg a Zuckerberg (por Fernando Flores)
A comunicação como projeto de poder
atualizado
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Por Fernando Flores
Da prensa de Johann Gutenberg, no século XV, às plataformas de Mark Zuckerberg, no século XXI, a história se repete: quem controla o meio tenta controlar a narrativa, a economia, a política e a própria percepção do que é real.
Quando Gutenberg adaptou a prensa de vinho para imprimir com tipos móveis, em 1440, ele não criou apenas um método mais rápido de reproduzir a Bíblia. Criou a primeira ruptura no monopólio da informação. Antes dele, o conhecimento vivia trancado nos mosteiros, copiado à mão por monges, em latim, a um custo que só a Igreja e a nobreza podiam pagar. Depois dele, os panfletos de Martinho Lutero circularam pela Europa em alemão e em milhares de cópias. A Reforma Protestante, a ciência moderna e até a ideia de Estado-nação devem muito àquela máquina.
O poder reagiu rápido. Vieram a censura real, o Index de livros proibidos e a exigência de licença para imprimir. Ficou claro desde então que comunicar é disputar poder. O telégrafo e o rádio, no século XIX e início do XX, levaram essa disputa para outra escala. A Reuters passou a vender notícias em tempo real porque encurtar o tempo era encurtar o lucro. O Império Britânico cabeou o mundo por uma razão estratégica: informação é logística militar.
Com o rádio, os governos descobriram que uma única voz podia entrar em milhões de casas ao mesmo tempo. Roosevelt conversava com os americanos no Fireside Chat, Getúlio Vargas criava a Hora do Brasil e Goebbels transformava o aparelho em instrumento de propaganda. Era o broadcasting clássico. Um falava, todos ouviam.
O Estado virou o grande emissor e o cidadão foi educado para ser audiência. A televisão consolidou esse modelo e acrescentou a imagem ao som. Nos anos 1960, quase todos os lares americanos tinham um aparelho ligado. No Brasil, a Rede Globo definiu não só um padrão técnico, mas um padrão narrativo para o país. A TV não precisava dizer em quem votar. Bastava definir sobre o que a família falaria no jantar. A mídia de massa entendeu que o poder mais eficaz não é o que proíbe, mas o que agenda. O consenso passou a ser fabricado diariamente, entre uma novela e um telejornal.
A internet prometeu quebrar essa lógica. No início, cumpriu em parte. Blogs, fóruns e redes sociais deram voz a quem nunca teve um microfone. Mas a promessa de horizontalidade durou pouco. Zuckerberg não inventou a rede social. Inventou um modelo de negócio que transforma atenção em mercadoria. O Facebook e, depois, toda a Meta perceberam que o poder não está mais em ter a gráfica ou a torre de transmissão. Está em ter o feed. A TV falava com milhões ao mesmo tempo. O algoritmo fala com bilhões, um por um, de forma personalizada.
As plataformas têm o histórico de cliques, a localização madrugada adentro, o tempo que o dedo leva para passar por uma postagem. A mediação agora é invisível. Na TV havia um editor com nome e rosto. No feed, o editor é uma equação que ninguém audita e que decide se o usuário verá uma guerra, a promoção de um tênis ou a briga de influenciadores. E o mais lucrativo, o algoritmo descobriu, é o conflito. Polarizar engaja mais que informar.
O poder, nesse novo arranjo, tornou-se extrativista. Extrai comportamento e vende a quem pagar mais. Gutenberg e Zuckerberg têm mais em comum do que parece. Ambos foram acusados de desestabilizar a ordem. Ambos criaram ordens novas. Ambos disseram estar apenas conectando pessoas. A prensa tirou o poder da Igreja e entregou aos reis e, depois, aos barões da imprensa. A rede tirou o poder da imprensa tradicional e entregou a um punhado de empresas no Vale do Silício. Toda revolução da comunicação começa com uma utopia de liberdade e termina capturada por um novo centro. A pergunta, portanto, nunca foi se a tecnologia é boa ou má. A pergunta é a serviço de quem ela opera.
A prensa imprimiu a Bíblia e também os libelos que derrubaram reis. O rádio unificou nações e também convocou massas para a guerra. O feed elege, cancela, derruba bolsa de valores e cria a sensação de realidade para bilhões de pessoas. O próximo capítulo dessa história não será definido por quem tiver o maior conglomerado de comunicação. Será definido por quem programar a inteligência artificial que alimenta o algoritmo.
Gutemberg imprimiu a Bíblia. Zuckerberg imprimiu o timeline. O projeto continua sendo o mesmo, divulgar a narrativa que vira realidade.
Fernando Flores é jornalista


