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De fascismo a fascismo (por Pedro Costa)

Eco nos ensinava que a internet é um instrumento do fascismo contemporâneo e que as redes sociais “dão a palavra a uma legião de imbecis”

atualizado

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Oscar Wong/Getty Images
redes sociais – Metrópoles (2)
1 de 1 redes sociais – Metrópoles (2) - Foto: Oscar Wong/Getty Images

Alguns lembrarão que houve Umberto Eco. Que falta ele faz para rirmos o bom riso! Eco explicava o fascismo eterno, que é uma combinação de certos pontos, entre eles o culto das tradições (interpretadas de uma maneira própria), a recusa da modernidade e da razão, o irracionalismo e o culto da ação pela ação, a rejeição das críticas e do espírito crítico, o medo da diversidade e o racismo, a obsessão com as conspirações, a ideia de guerra permanente, o desprezo pelos fracos, o uso de uma neolíngua (como descrevia Orwell). Se você vê pessoas e grupos com essas características, já sabe: é lícito dizer que são fascistas.

 

Eco nos ensinava também que a internet é um instrumento do fascismo contemporâneo e que as redes sociais “dão a palavra a uma legião de imbecis que falavam no bar sobre um copo de vinho e agora têm o mesmo direito de palavra dos Prêmio Nobel”. Outro italiano, Alberto Brandolini, descobriu uma lei: “A quantidade de energia necessária para refutar bullshit é de uma ordem de grandeza maior que a necessária para produzi-lo.” E Jonathan Koomey: “Um idiota pode criar mais merda do que você jamais pode ter a esperança de refutar.”

 

Nada disso é tão relevante quanto a emergência do twosidism, que faz os jornais dizerem que têm de publicar as opiniões divergentes com o mesmo rigor, mesmo se uma é de que a Terra é plana. Mas hoje o que vemos é outra coisa: é a ressurgência de um delírio que quase destruiu o Brasil, a lavajato. Disfarçada de moral e bons costumes, ela — inominada — tomou agora como foco a destruição do Supremo Tribunal Federal. Como já disse, a “operação linchamento” tem duas motivações: a primeira é o processo de Sérgio Moro, cujo relator é Dias Toffoli; a segunda é a desqualificação do julgamento de Bolsonaro. É claro que ambas fazem parte do mesmo discurso fascista, no falso adágio maquiavélico de que o fim justifica os meios.

 

Para a destruição das reputações vale tudo, inclusive, sob a proteção do sigilo das fontes (art. 5º, XIV), quebrar os sigilos pessoais (art. 5º, XII) dos ministros. Ambos são sagrados, mas divulgar informações sigilosas é crime (Código Penal, art. 154, 1 a 4 anos; art. 154A, para dispositivo informático, §3º e 4º, 2 a 5 anos, mais 2/3; art.154B, se contra a administração pública dispensa representação; art. 325, §2º, violação de sigilo com dano, 2 a 6 anos). Isto é, a pessoa não precisa revelar quem lhe deu a informação, mas comete um crime. E essas penas são acrescidas de multa, sem definição exata de valor. Se fosse na França a multa seria de 300 mil euros, doeria na parte sensível do corpo capitalista.

 

Mas, assumindo o comando as redes sociais, os caras que quebraram os sigilos passaram a ser uns heróis, coitados, estão fazendo o mesmo que tantos heróis já fizeram, como Silvério dos Reis e outros praticantes do dedodurismo anônimo. Por outro lado, os donos dos IP que divulgam o neolavajatismo certamente não se importam que quebrem os deles, que só estão exercendo a liberdade de expressão.

 

Aliás, destruído o STF, o soluçante reinstalado no Alvorada, as cadeias e os cemitérios cheios de discordantes, eleições unânimes o elegerão pelos séculos dos séculos e depois o 01, o 02 e assim por diante. Episódios como o dessa semana na França, quando um agitador de extrema-direita foi linchado por agitadores de extrema-esquerda, não acontecerão, porque os milicianos terão exclusividade nos linchamentos. Viva Deus Pátria Família!

 

Expressão por expressão, acho curioso que o Brasil, que já teve um dos cleros mais avançados do mundo — conheci D. Helder já magrelo e ainda bispo auxiliar — tenha agora um dos mais retrógrados, com D. Orani bancando um Lefebvre social: tomou o partido dos evangélicos que vestiram a carapuça, reprovou “a utilização de símbolos da fé cristã e da instituição familiar em manifestações culturais de maneira que compreendemos como ofensiva”. Enquanto isso, os bispos americanos, considerados dos mais reacionários, estão trabalhando valentemente contra a guerra miliciana que o Trump faz contra quem não é ku klux klan — o que inclui deportar ou matar os seres inferiores, como mulheres, crianças, lgbt+, não branquelos, que não falam inglês etc. É claro que eles, bispos, são influenciados pelo papa peruano e imigrante que nasceu americano, ¿que tal?

 

É verdade que a ala 22, quase fechando a escola que homenageava o Lula — sacrilégio! — tinha umas fantasias de lata de conserva e, falo por ler, que não consegui ver, umas bíblias na mão — horror, deviam estar com o livrinho vermelho de Mao ou o verde do Khomeini. Não era algo puro, como desfilar com o troço de fora, com uma estrelinha cobrindo a coisa, fantasiado de diabo e outras delicadezas que fazem parte das boas manifestações culturais.

 

Realmente a família, a boa, fascista, da agronegociata, de bíblia e bala, estava sendo atacada. Pelo menos segundo a excelsa michela — assim chamava José Bonifácio à Domitila, significando o registrado pelo Houaiss, Brasil tabu prostituta, meretriz, tadinha dela que não era nada disso, só cobrava dos clientes —, que classificou de “um escárnio”. Já que estou indo de dicionário, escárnio é 1 aquilo que é objeto de desdém, ironia ou sarcasmo | 2 o que é feito ou dito com intenção de provocar riso ou hilariedade acerca de alguém ou algo; caçoada, troça, zombaria | 3 atitude ou manifestação ostensiva de desdém, de menosprezo, por vezes indignado.

 

Ih!, acho que escarneci de umas pessoas. Será que serei excomungado? Deus me livre.

 

Pedro Costa, é arquiteto e escritor

 

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