Da senzala ao Vaticano (por Gustavo Krause)

Com humor, o Papa Francisco indicou ao brasileiros a rota da salvação: oração e cachaça

atualizado 06/06/2021 5:38

Papa Francisco Reprodução/Instagram

A reza e a bebida unem e confraternizam

A cachaça nasceu pobre, bastarda e clandestina. Subproduto, sem nome de batismo. “O Brasil é o açúcar”, dizia Padre Vieira e a nova riqueza fundou um modo peculiar de sociedade, economia e cultura. Entre a cana e o açúcar, produtos intermediários e finais, nada se perde, tudo se transforma, inclusive em fonte renovável de energia: a borra do caldo da cana fervente servia de ração animal, consumida, também, pelos escravos. A garapa azeda, destilada em alambiques de barro, produziu uma bebida cujo nome é objeto de grande controvérsia (V. Câmara Cascudo Prelúdio da Cachaça – Ed. Itatiaia; MG, 1986).

Apesar da sinonímia, Aguardente e Cachaça, o brasileirismo consagrou cachaça como designação popular. O fato é que a bebida fez opção preferencial pela pobreza e vice-versa, embora, cada vez mais qualificada e saborosa, despertou o paladar das camadas chiques da sociedade.

É uma vencedora de preconceitos. Nasci, em Vitória de Santo Antão, terra da cachaça, nos arredores do enchimento da octogenária Pitú. Suponho que a amamentação, sob o odor inigualável da bebida, deve ter estimulado, precocemente, minha preferência etílica.

Na venda de “seu” Aurélio, observava um ritual curioso: a “lapada” de Pitú era dividida com um “santo” ecumênico, ingerida com careta na companhia de um “tira-gosto” (charque crua).

Como era possível sabor e careta? Até certa idade, me limitei à vodca (numa ocasião, um oficial indagou se era preferência ideológica. Fiz que não ouvi). A transição para a cachaça foi o destino do vitoriense com o toque populista das campanhas eleitorais. Gostei. O efeito era rápido. Com o passar do tempo, o processo produtivo foi se aperfeiçoando a tal ponto de ser considerada um dos mais puros destilados do mundo.

Hoje ganhou glamour e status gourmet. Tem de todo preço. É a bebida mais popular do Brasil. Como “abrideira”, “saideira” e “companheira” com frutas tropicais, moderadamente, é insuperável. Sem ressaca ou odor enjoado. Com açúcar e limão é um estupro gastronômico. Gringo adora!

Saiu da senzala para a Casa-Grande, daí para os Palácios (Coroação de Pedro I), reconhecida pela OMC como bebida nacional, chegou ao Vaticano. O Papa, com humor, indicou ao Brasil, sofrido e maltratado, a rota da salvação: cachaça e oração, dois caminhos de aproximação, solidariedade, afeto e união entre brasileiros.

“Cachacista” militante, aprendiz de “cachaçólogo” e devoto de São Francisco de Assis, Patrono da Ecologia e dos Animais, dividirei sempre meu primeiro gole com o ambientalista Papa Francisco.

 

Gustavo Krause foi ministro da Fazenda