Conferência do Clima: vamos falar o quê? (por Emiliano Lobo de Godoi)

Nos últimos anos, a Amazônia e o Pantanal vêm batendo recordes de registros no número de queimadas

atualizado

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DANIEL BELTRÁ/GREENPEACE/ARQUIVO
Queimadas
1 de 1 Queimadas - Foto: DANIEL BELTRÁ/GREENPEACE/ARQUIVO

No próximo mês de novembro, líderes de 196 países se reunirão em Glasgow, na Escócia, para a realização da 26ª Conferência Mundial do Clima. Serão apresentadas e discutidas ações para limitar as mudanças climáticas e seus efeitos, como o aumento do nível do mar e eventos climáticos extremos, cada vez mais recorrentes.

Essas discussões têm sua história diretamente ligada ao Brasil. Foi em nosso país que, durante a Eco – 92, realizada na cidade do Rio de Janeiro, os principais líderes globais da época começaram a tratar do tema.

Um dos resultados foi a assinatura da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas com o objetivo de estabilizar as concentrações de gases de efeito estufa na atmosfera e, se consolidou como o primeiro passo de um esforço global em prol do clima.

O protagonismo ambiental do Brasil vai além dessa questão histórica já que somos um dos maiores detentores de capital natural do planeta, composto pelas plantas, animais, ar, água, solos, minerais, sem os quais, não existiriam os outros tipos de capitais (cultural, financeiro, intelectual etc.). Toda e qualquer atividade humana necessita da preservação desses recursos.

Nossa saúde, física e mental, depende da qualidade do que comemos, bebemos e respiramos. Essa é a nossa riqueza e é o nosso principal capital.

De acordo com o trabalho The future of hyperdiverse tropical ecosystems, publicado na respeitada revista Nature, em julho de 2018, o Brasil possui quase 1/4 de todos os peixes de água doce do mundo, assim como 16% das aves do planeta, 12% dos mamíferos e 15% de todas as espécies de animais e plantas. Somos ainda detentores de 12% do total de água doce existente no planeta e possuímos a segunda maior área florestal do mundo.

A preservação dessas matas promove a regularidade das chuvas em todo o país, além de reter milhões de toneladas de carbono que deixam de ser emitidos para a atmosfera.

E é exatamente esse capital natural que estamos queimando, poluindo e degradando, como se não houvesse amanhã.

Ao longo de nossa história, eliminamos 87,6% da Mata Atlântica. Entre 2019 e 2020 o desmatamento quase dobrou nos estados do Rio de Janeiro e Mato Grosso e, em São Paulo e no Espírito Santo, o aumento foi de 400% neste período conforme o Atlas da Mata Atlântica, editado desde 1989 pela Fundação SOS Mata Atlântica, em parceria com o Inpe, Instituto de Pesquisas Espaciais.

Vimos desaparecer 46% da vegetação nativa do cerrado e apenas 20% deste bioma permanece completamente intocado. Caso o ritmo de desmatamento permaneça o mesmo, este bioma poderá perder, até 2050, 34% do que ainda resta, conforme o artigo Moment of truth for the Cerrado hotspot, publicado na revista Nature Ecology & Evolution, em 2017.

Nos últimos anos, a Amazônia e o Pantanal vêm batendo recordes de registros no número de queimadas. Além da perda de biodiversidade e das alterações dos regimes das chuvas, as queimadas liberam CO2 para a atmosfera e geram uma poluição que representa um grave risco para a saúde. Crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças pulmonares ou cardíacas são especialmente vulneráveis.

Com esse histórico, a grande pergunta que fica para a COP 26 é: vamos falar o quê?

 

Emiliano Lobo de Godoi é Diretor Geral de Extensão e coordenador do Programa Sustentável da Universidade Federal de Goiás; https://capitalpolitico.com/

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