
Clima, crime e castigo (por Mariana Caminha)
Dois dos cinco títulos mais lidos no MEC Livros são de Dostoiévski: Noites Brancas, que, acredite, já viralizou no TikTok, e Crime e Castigo

Ontem, ao visitar a 6ª Bienal Internacional do Livro de Brasília, uma coisa me chamou a atenção. Em praticamente todos os estandes das grandes editoras nacionais, um autor ocupava lugar de destaque: Fiódor Dostoiévski.
Curiosamente, uma matéria publicada hoje pelo Estadão revela que dois dos cinco títulos mais lidos no MEC Livros são dele: Noites Brancas, que, acredite, já viralizou no TikTok, e Crime e Castigo.
Reli recentemente as primeiras páginas de Crime e Castigo e fui fisgada por um detalhe do qual não me lembrava.
Calor.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesÉ assim que começa um dos maiores romances já escritos.
Estamos em São Petersburgo, no início de julho, e Raskólnikov deixa o pequeno quarto onde vive para caminhar pela cidade.
Dostoiévski faz questão de nos dizer, logo na primeira frase, que fazia um calor excepcional naquele fim de tarde. Não é apenas uma informação meteorológica.
A cidade que encontramos nas páginas seguintes parece sufocar junto com o personagem. Há poeira, mau cheiro, gente demais, tavernas, apartamentos apertados, pobreza.
Raskólnikov está irritado, perturbado, com os nervos à flor da pele. Tudo incomoda: as pessoas, a cidade, o próprio ar.
Sabemos o que aquela caminhada anuncia.
Publicado em 1866, Crime e Castigo obviamente não é um livro sobre mudança climática. Seria absurdo tentar transformar Dostoiévski em ambientalista um século e meio depois.
Mas, ao ler aquelas páginas hoje, é difícil não enxergar algo que talvez passasse despercebido aos leitores de outras gerações: o ambiente também age sobre nós.
Cento e sessenta anos depois de Raskólnikov atravessar uma São Petersburgo sufocante, a ciência consegue medir parte daquilo que Dostoiévski observava nos seres humanos.
Pesquisadores vêm encontrando associações entre temperaturas elevadas e diferentes formas de violência.
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2024 reuniu estudos de diferentes partes do mundo sobre a relação entre aumento da temperatura, crime e violência. Outro estudo, publicado no mesmo ano, encontrou associação entre temperaturas mais altas e crimes violentos na Coreia do Sul.
O calor não inventa assassinos, evidentemente. Nem explica Raskólnikov. Mas nossos corpos não são indiferentes ao ambiente em que vivem.
O calor extremo interfere no sono, provoca estresse fisiológico, agrava condições de saúde e transforma tarefas banais em esforços maiores. E, à medida que o planeta esquenta, aquilo que durante séculos tratamos como pano de fundo – a temperatura, o ar, a água, o espaço onde vivemos – começa a ocupar o centro da história.
Há ainda outra relação com a natureza na obra de Dostoiévski.
Em Os Irmãos Karamázov, publicado poucos anos antes de sua morte, a natureza deixa de ser apenas o ambiente que oprime e aparece como algo ao qual o ser humano pertence.
O starets Zóssima ensina Aliócha a amar a criação inteira: os animais, as plantas, cada folha, cada raio de luz. Não há nada de ecologismo moderno nisso. A visão de Dostoiévski é profundamente religiosa. Mas há ali uma noção que hoje podemos reconhecer também em outra linguagem: a da interdependência.
E então vem uma das cenas mais bonitas do livro.
Depois da morte de Zóssima, abalado pela perda de seu mestre, Aliócha deixa a cela e sai para a noite. Sobre ele, há um céu cheio de estrelas. Dostoiévski descreve o horizonte de tal forma que céu e terra parecem se tocar.
Tomado por uma emoção que ele próprio não consegue explicar, Aliócha se joga no chão. Abraça a terra.
E a beija.
Chora enquanto a beija e promete amá-la para sempre.
Entre o calor sufocante de Raskólnikov e a terra abraçada por Aliócha existe algo que, aos olhos de hoje, permite uma leitura inesperadamente ambiental de Dostoiévski.
De um lado, um homem caminha por uma cidade hostil, sufocado pelo calor, pelos odores, pela pobreza e pelo próprio isolamento. Do outro, um homem atravessa uma transformação ao perceber que faz parte de algo infinitamente maior.
Dostoiévski morreu em 1881. Não conheceu o efeito estufa como o entendemos hoje, nunca ouviu falar em aquecimento global e certamente não imaginou um planeta que, quase um século e meio depois, ultrapassaria temporariamente a marca de 1,5 grau de aquecimento em relação aos níveis pré-industriais.
Mas compreendeu como poucos a relação entre aquilo que acontece fora de nós e aquilo que carregamos por dentro.
Raskólnikov caminha por uma cidade sufocante.
Aliócha, sob um céu cheio de estrelas, cai de joelhos, abraça a terra e a beija.
Um século e meio depois, descobrimos, de uma maneira muito menos poética, aquilo que une as duas cenas: nunca existiu um mundo humano separado do mundo natural.
A terra que Aliócha abraça é também aquela sobre a qual Raskólnikov caminha.
E não existe crime contra a Terra cujo castigo não chegue, de alguma forma, até nós.

