Chefe de orcrim dá ordens da prisão (por Pedro Costa)

É claro que o 01 é apenas um porta-voz do capo di tutti capi. Uma marionete. Cortadas suas linhas de controle, desmonta.

atualizado

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Fábio Vieira/Metrópoles
Jair Bolsonaro e o filho Flávio Bolsonaro na cidade de Eldorado em SP
1 de 1 Jair Bolsonaro e o filho Flávio Bolsonaro na cidade de Eldorado em SP - Foto: Fábio Vieira/Metrópoles

Condenado como chefe de organização criminosa armada, o poderoso chefão continua a comandar seus homens sem interferência da polícia ou da Justiça. Poderoso demais, a ele não é aplicado o artigo 52 da Lei de Execução Penal, que cria o regime disciplinar diferenciado para presos que “apresentem risco para a sociedade” (§1º, I); os que apresentem “indícios de exercer liderança em organização criminosa […] em mais de um estado da Federação […] obrigatoriamente cumprirão pena em penitenciária federal” (§3º), “independente da prática de falta grave” (§1º, III), devendo “contar com alta segurança interna e externa, principalmente no que diz respeito à necessidade de se evitar contato do preso com membros de sua organização criminosa” (§5º).

Chefe de uma organização bastante poderosa, mas menor do que a do poderoso chefão, o banqueiro-que-quer-delatar-mas-não-consegue foi submetido ao tal regime. Mas não o poderoso chefão. Afinal, ele tem o 01, o 02, o 03 e o 04, controla as duas casas do Congresso Nacional, controla um orçamento de dezenas de bilhões para eleger uma superbancada anistiante e impeachante. E sua michela — palavra dicionarizada — tem pacto com um deus que fala línguas e já troca beijinhos com o Xandão — que, tendo liberado a visita do super-cabelereiro ao seu galego, já tem tudo para se tornar um irmão em Cristo.

Se o esfacelamento do BomBolsonaro ao longo das versões desencontradas e inumeráveis do que salta aos olhos ser a prática descrita no §1º do art. 55 da nossa Santa Constituição — o tal de “recebimento de vantagens indevidas” — é impressionante e sua desfaçatez insulte a inteligência dos demais brasileiros, mais sinistro é o aviso, dado por bocas autorizadas como Boy-Valdemar e 02-Bananinha, de que “a decisão final é do Bolsonaro”. Assim fica evidente que o comando da quadrilha é seu e ninguém tasca.

O Rachadinha compartilha com o Minto ao menos um superpoder: o couro de teflon. Ele escapou da confissão do Fabrício Queiroz de que administrava sua rachadinha fluminense; de não ter revelado a preparação da tentativa de golpe de Estado — ao tomar posse o senador promete “guardar a Constituição Federal” —; de ter participado da preparação da tentativa de golpe de Estado; de ter participado da conspiração de obstrução da Justiça para evitar o julgamento do 00; de mil e uma compra e venda de sua atividade parlamentar; de ter entregue o Rio de Janeiro ao Comando Vermelho por intermédio de Castro, Bacelar, Joias & friends; de oferecer o Brasil aos Estados Unidos; de conspirar com país estrangeiro para ataque militar ao Brasil; de prometer fechar o Supremo etc e tal. Promete agora, no seu belo inglês, ir à “White House” posar ao lado do mais corrupto dos chefes de Estado da História, talvez para lustrar a cera de sua cara de pau.

Embora muitos desses atos configurem crimes que deveriam ter sido — espero que estejam sendo — investigados pela Polícia Federal, denunciados pelo Ministério Público e resultado em perda de mandato, o crime revelado nos últimos dias — obstrução da justiça para evitar a prisão e dificultar o processo de seu irmão no Supremo Tribunal Federal — pede uma ação imediata. Não é preciso que a investigação comprove que durante a viagem que os $$$ vorcarianos fizeram ao Texas para financiar um filme brasileiro rodado no Brasil tenha havido qualquer transferência de valor ao produtor-executivo Bananinha: baste ter viajado frequentemente para visitar o indigitado, dando apoio implícito ou explícito a suas ações contra o Estado brasileiro, de que há provas diárias nas redes sociais, para evidenciar sua cumplicidade.

Há uma coisa que nenhum Estado tem o direito de fazer: cometer suicídio. Para isso é preciso evitar que seus agentes contribuam para a sua morte. (O suicídio do Estado, entre nós, foi evocado desde 1990 por Gilmar Mendes, em ensaio, e desde 1993 por Sepúlveda Pertence, em voto.) Se Flávio Bolsonaro não tivesse explicitado suas intenções em relação ao Estado de Direito correríamos o risco de que fosse eleito presidente da República, o que equivaleria à rápida morte do Estado de Direito. Mas acontece que ele deixou muito clara sua intenção de matar o Estado brasileiro em 14 de junho de 2025, antes ainda da condenação do 00, em entrevista à Folha. Se não houver punição, corremos o risco de suicídio. (Embora eu esteja certo, como já disse, que o Lula será reeleito, urna, mesmo eletrônica, de vez em quando dá susto.)

Mas, como já disse, é claro que o 01 é apenas um porta-voz do capo di tutti capi. Um marionete. Cortadas suas linhas de controle, desmonta. Assim, além da necessária punição por seus crimes, é mais do que nunca urgente calar o comandante da organização criminosa, um dos maiores criminosos da História da humanidade, o famoso genocida, o golpista, o imbrochado: que a ele se aplique o que prescreve a Lei de Execução Penal, o regime disciplinar diferenciado, com todas as garantias à sua integridade física.

Desde logo um aviso: o fato de não estarmos ouvindo as palavras de ordem diretamente da boca fétida do Jair não quer dizer que ele esteja calado ou que as palavras de ordem não estejam sendo transmitidas e obedecidas pelos outros membros da orcrim — estão. Se há um bater cabeças não é por falta de comando, mas porque o Minto tem alguma deficiência cognitiva e grande deficiência elocutiva. Em outras palavras, o bicho é muito confuso — o Houaiss diria “moral ou psicologicamente embaraçado”. Ele está dando ordens adoidadas.

Nós não as ouvimos, mas o silêncio grita.

 

Pedro Costa

Arquiteto e escritor.

 

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