Ceia do Natal: peru grande, geladeira vazia (Roberto Caminha Filho)
Por que Papai Noel, o Bom Velhinho, não trabalha no Tesouro Nacional?
atualizado
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Ei, dezembro chegou! é aquele mês Disney em que o brasileiro acredita em quatro coisas ao mesmo tempo: Papai Noel, promoção de fim de ano, equilíbrio fiscal e Roberto Carlos pra refrescar. É quando o governo aparece de barba branca, discurso macio e saco cheio de promessas, dizendo que “desta vez dá”. Dá ceia, dá presente, dá bônus, dá auxílio. Só ainda não deu para explicar quem vai pagar a conta em janeiro.
Comecemos pela ceia. O governo montou uma mesa farta: peru grande, farofa reforçada, rabanada dourada e até panetone importado no discurso oficial. O problema é que, quando se abre a geladeira da economia, ela faz aquele barulho constrangedor da fome . A luz acende, a esperança apaga. É a clássica cena brasileira: mesa cheia hoje, boleto robusto amanhã.
Isso acontece porque o orçamento público, que deveria funcionar como a lista de compras do Natal, virou cartinha ao Bom Velhinho, o Papai Noel. Tudo cabe no papel, nada cabe na conta. O governo promete gastar como se fosse uma família rica, mas arrecada como quem faz vaquinha no grupo do WhatsApp. Roberto Campos já avisava, com aquele humor ácido:
“O Brasil não tem crise de recursos, tem crise de responsabilidade.”
E é sempre neste sacana mês de dezembro que a responsabilidade entra de férias.
O segundo prato dessa ceia indigesta é o cartão de crédito do Estado. Quando falta dinheiro, o governo faz o que qualquer brasileiro imprudente faz: parcela. Só que, no caso do nosso governo, quem paga a fatura não é ele — somos nós. E sempre deixando uma pontinha para os netinhos pagarem, com uns jurinhos, pois não somos de ferro. A dívida pública cresce, os juros acompanham e o discurso do governo garante que “está tudo sob controle”. É como aquele nosso tio bacana, que estoura o cartão no Natal e diz, sorrindo: “Ano que vem eu vejo isso”. E o nosso Governo é tão bonzinho!
Por que Papai Noel, o Bom Velhinho, não trabalha no nosso Tesouro Nacional?
Janeiro chega, o arrombante boleto também, junto com outros.
Aqui entra a parte didática, para jovens e veteranos entenderem: dívida pública é dinheiro emprestado. Não cai do céu, não brota, nem em pé de jabuticaba, e não vem de trenó do Polo Norte. Vem do futuro. Cada gasto sem lastro hoje vira imposto, inflação ou corte amanhã. O Professor Jeferson Peres, também senador, explicava isso sem rodeios: quando o governo gasta mais do que arrecada, alguém paga — e nunca é o governo. Vamos adivinhar juntos quem pagará?
Aqui vale explicar de forma simples, para o leitor de 12 ou de 74 anos: o governo não cria dinheiro, do nada, sem consequências. Quando tenta, chama-se inflação. Quando não consegue, chama-se dívida. Quando exagera na dose, chama-se crise. O nosso Brasil, cheio de analfabetizados experts, tem criado muito dinheiro.
E assim seguimos: ceias cada vez mais ambiciosas, peru crescendo e geladeira cada vez mais vazia. O brasileiro aprende cedo que presente bom será sempre aquele que não vem acompanhado de carnê “malandreadamente” escondido. Já o nosso Estado parece não aprender nunca.
A ironia maior é que tudo isso é vendido como extrema bondade. Gastar sem limite vira “cuidado social”. Endividar-se vira “sensibilidade”. Cortar gastos vira “crueldade”. Só esquecem de avisar que a verdadeira crueldade é empurrar a conta para os filhos e netos, embrulhada em papel dourado.
O super-craque da Receita Federal, Everardo Maciel, não aguentou e mandou: “Para cada R$1,00 de bondade, temos que criar R$1,00 de imposto, porque ninguém dá dinheiro para o Governo”. Simples assim. Ao ser matriculado, durante todo o curso primário, o aluno deveria receber esta frase, em papel ofício e com letras douradas, para carregar na bolsa e nunca mais esquecer.
Encerraremos esta ceia com a lição que todo avô conhece e todo neto precisa aprender: não existe Natal sem cozinha organizada. E não existe país que sobreviva com peruzão grandão e geladeira vazia.
“Quando o Estado promete tudo, normalmente entrega a fatura.”
Um Feliz Natal, um Próspero 2026 — e comece escondendo o cartão.
Roberto Caminha Filho, economista, escondeu e perdeu o cartão de crédito e só vai procurar em janeiro de 2026.


