Brasileiras: assassinadas e condenadas (por Felipe Sampaio)
Neste mês da mulher foram assinadas mais de 120 brasileiras, cinco delas mortas no próprio Dia da Mulher
atualizado
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Não é à toa que o primeiro dia após o mês da mulher é o dia da mentira. Em nome de um mito de amor eterno, nós, homens, maridos e ex-maridos, companheiros e namorados, trucidamos as amadas com armas de fogo, facas, espancamento e outros requintes de ruindade. Existe até um movimento chamado Red Pill, com direito a rituais, carta de princípios, discursos, competições de maldade e outras canalhices letais.
Neste mês da mulher foram assinadas mais de 120 brasileiras, cinco delas mortas no próprio dia da mulher, caso esteja se repetindo o recorde histórico de 2025, demonstrado no chocante relatório do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Nós, homens, estamos matando cerca de 1.500 mulheres por ano aqui na Terra da Santa Cruz. E nós, homens, que não quisermos ser associados a esse genocídio, temos a obrigação de nos aliarmos às mulheres no enfrentamento desse retrocesso macabro.
Os caras detestam mulheres. Se acham superiores. Publicam fotos e vídeos de incentivo e aprovação a uma supremacia masculina violenta. Subjugam as mulheres desde seus lares. E vão ficando à vontade para agredirem e abusarem das mulheres em lugares públicos. São terroristas de gênero, blogueirinhos da misoginia. Um fanatismo machista sem precedentes sequer na Idade Média. Misturam todo esse desatino com uma ideologia racista, discurso de ódio típico da extrema direita, defesa da posse e porte de armas, delírios anticomunistas e outras narrativas convenientes para a desconstrução do Estado de direito e da regulação socioambiental.
A romantização do machismo está na nossa formação como povo. Moreira da Silva já nos divertia com sambas de breque como “Isso não é direito. Bater numa mulher que não é sua”. Outro samba decantava em versos a Amélia, “Aquilo sim é que era mulher de verdade”, que não fazia exigências. Lindomar Castilho, outro intérprete da música brasileira, foi mais longe e matou a esposa. Alegou legítima defesa da honra, uma tipificação criminal que visava a proteger o direito de propriedade de nós, homens, sobre ‘nossas’ mulheres.
A série televisiva Ângela Diniz Assassinada e Condenada choca pela clareza com que demonstra o cinismo da sociedade, dos homens, da justiça, da polícia, da imprensa, da igreja, ao culpabilizarem uma vítima de feminicídio, cujo crime foi ser mulher, portadora do pecado original da infidelidade a seus donos. O mesmo ocorre hoje. O movimento Red Pill conta com simpatizantes e condescendentes na sociedade como todo, principalmente entre nós, homens, mas, também, entre as mulheres de formação conservadora, muitas vezes, elas próprias oprimidas e agredidas.
Afinal, conta-se que, em versões anteriores do Antigo Testamento, um dos mandamentos trazidos por Moisés já dizia: “Não cobiçarás a mulher do próximo, seu burro e outros pertences”. Trata-se de um movimento político. Não nos iludamos. Esse machismo estrutural representa um projeto de poder, que começa pela dominação de uma minoria matemática da população (nós, homens) sobre a maioria da humanidade (as mulheres). É a construção de um talibã tropical. Se a dominação pela violência dentro de casa, no ambiente familiar, torna-se aceitável como cartilha da formação cultural da nação, qualquer outro desatino passa a ser naturalizado e banalizado pela população. Isso inclui os temas de segurança pública, desigualdade social, meio ambiente, economia, educação, entre outros. O Brasil não será um país desenvolvido enquanto nós, homens, continuarmos matando mulheres.
Felipe Sampaio: Cofundador do think tank Centro Soberania e Clima; com atuação em grandes empresas, organismos internacionais e terceiro setor; dirigiu a área de estatísticas no Ministério da Justiça; chefiou a assessoria especial do Ministro da Defesa; foi subsecretário de Segurança Urbana do Recife, é diretor de programas no Ministério do Empreendedorismo e Microempresa.


