Brasil: saudade do hexa ou de si próprio? (por Roberto Caminha Filho)
Eu estava em Barcelona e vi a população, dos seus apartamentos, e de lenços brancos, se despedindo e lamentado a saída dos brasileiros
atualizado
Compartilhar notícia

O brasileirinho em 1970 pintava ruas. O Brasil de 1982 parava cidades. O Brasil de 1994 suspendia reuniões. O Brasil de 2002 madrugava sem reclamar da dor e do sono. O Brasil de 2026 acorda, pega o celular e passa meia hora discutindo se o “Neymau” ainda merece vestir a camisa da Seleção.
Talvez esteja aí a diferença. E está aí o problema.
O brasileiro não está com saudade do hexa. Está com saudade de si mesmo. Está com saudade daquele país que se permitia sonhar junto.
Houve um tempo em que a Copa do Mundo chegava muito antes da bola rolar. Ela chegava pelas bandeirinhas fazendo telhado nas ruas. Pelas vitrines enfeitadas. Pelas apostas dos bolões no trabalho. Pelos álbuns de figurinhas. Pelas crianças correndo com uma bola debaixo do braço imaginando ser Pelé, Garrincha, Zico ou Ronalducho.
A Copa era mais do que um campeonato. Era uma espécie de Semana Santa da Bola. Durante alguns dias, os brasileirinhos esqueciam suas diferenças e torciam pela mesma camisa.
Hoje parece diferente. Faltando 1 semana para a Copa e o comércio ainda não mostrou uma Tabela dos Jogos, como acontecia desde 1958. Não porque o futebol piorou. Não porque faltam jogadores. Mas porque desaprendemos um pouco da celebração. Ficamos especialistas em reclamar. Em desconfiar. Em transformar qualquer assunto em uma guerra de opiniões.
“Neymau” é o último jogador brasileiro capaz de provocar discussões em qualquer esquina do país. Pelé fazia isso. Garrincha fazia isso. Zico fazia isso. Romário fazia isso. Ronaldo fazia isso. “Neymau” também faz. E ele não precisa da Seleção. É a Canarinho que precisa dele.
Enquanto isso, os argentinos seguem agradecendo por jamais terem feito campanha contra Messi.
Não se trata de idolatria. Trata-se de reconhecer a raridade dos grandes talentos. Craques aparecem de tempos em tempos. Corneteiros aparecem todos os dias.
Mas existe outro personagem que torna esta Copa diferente. Pela primeira vez, um estrangeiro assume o comando da Seleção Brasileira. Um italiano. Quem diria? Durante décadas exportamos jogadores, técnicos e talento para o mundo inteiro. Agora importamos um treinador.
Há cinquenta anos, isso pareceria tão improvável quanto um amazonense ensinar um veneziano a remar uma canoa ou um italiano ensinar uma avó paraense a fazer pato no tucupi. Mas os tempos mudam.
O futebol mudou!
E talvez a maior demonstração de inteligência seja admitir que ninguém sabe tudo. O italiano traz organização. O brasileiro traz improviso. O italiano desenha a jogada. O brasileiro inventa um drible.
Se der certo, brota uma obra de arte. Se der errado, nasce uma pizza.
E nós, brasileirinhos, temos experiência suficiente para reconhecer uma pizza quando ela aparece. Mas, sinceramente, o treinador italiano tem uma missão ainda mais difícil do que ganhar a Copa. Talvez ele precise devolver ao brasileiro a vontade de vestir a camisa da Seleção sem pedir desculpas a pontas direitas ou a canhotos.
Porque a verdade é que sentimos falta de algo que vai muito além dos títulos. Sentimos falta da alegria. Quando pesquisamos 1958, lembramos de Garrincha e Pelé. Quando estudamos 1962, sorrimos com Garricha brincando de Chaplin. Quando lembramos de 1970, não lembramos apenas de Pelé. Lembramos da família reunida.
Quando lembramos de 1982, não lembramos apenas de Zico. Lembramos da esperança. Quando lembramos de 1994, não lembramos apenas de Romário. Lembramos do alívio. Quando lembramos de 2002, não lembramos apenas de Ronaldo. Lembramos e sentimos a felicidade. Eu estava em Barcelona e vi a população, dos seus apartamentos, e de lenços brancos, se despedindo e lamentado a saída dos brasileiros.
E quando lembrarmos de 2026? O que teremos para contar aos nossos filhos e netos? Uma coleção de memes? Ou uma Copa para guardar na memória? Gostaria de acreditar na segunda opção. Gostaria de ver novamente as ruas decoradas. Os bares cheios. Os amigos reunidos. Os avós contando histórias.
Gostaria de ver o Brasil voltando a fazer aquilo que sempre fez melhor do que ninguém: transformar futebol em emoção.
Mas seria uma enorme tristeza terminar esta Copa sem recuperar algo muito mais valioso do que qualquer troféu. A capacidade de sonhar juntos. Porque títulos entram para os livros. Mas a alegria entra para a memória. E nenhuma Seleção da história foi tão bonita quanto a Seleção Brasileira quando jogava sorrindo.
No fundo, o brasileiro não está esperando apenas uma Copa. Está em busca da felicidade que a bola sempre nos deu.
Roberto Caminha Filho, economista, vai ter muito que se explicar, pois a sua camisa da sorte para o Brasil é a camisa da Argentina. E eu não abro mão.


