Brasil: onde a informação estressa e deprime (por Roberto Caminha Filho)

No fundo, o Brasil continua sendo um país extraordinário administrado como um grupo de condomínio brigando por vaga de garagem

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VINÍCIUS SCHMIDT/METRÓPOLES @vinicius.foto
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1 de 1 parlamentares-bolsonaristas-comemoram-derrubada-do-veto-de-lula-ao-pl-da-dosimetria-pelo-congresso-nacional-metropoles-1 - Foto: VINÍCIUS SCHMIDT/METRÓPOLES @vinicius.foto

O meu Brasil brasileiro, de repente, ficou óbvio e muito chato. O brasileirinho, aquele ser que acorda e vai à luta para fazer o seu país dar show em padrão de vida moderna, começa a ser metralhado por centenas de canais, por informações, mostrando, didaticamente, que tudo é feio, tudo está prestes a desabar, que o Rio de Janeiro ficou horrível e que o Dr. Pitanguy nunca melhorou a Ursula Andress.

Aí você fica sorumbático e sente uma vontade louca de se jogar no fundo de uma rede, depois que atravessou toda uma espessa colcha de espuma de chopp das mais geladas, de torcer pela Argentina, dizer que o Vinny Jr é um perna-de-pau e que o Neymar, com 34 anos, é um velho caquético. Os fabricantes do “Caos” estão ganhando a briga e nós, os lutadores pelas boas maneiras, estamos levando de goleada.

Eu vou só dizer o que penso dessas encruzilhadas que estão nos submetendo, desde a hora que acordamos até a hora que voltamos para as nossas redes. É um método covarde de tratar como guerreiros vikings os alegres brasileiros que por aqui teimam em continuar vivendo.

E o pior é que o brasileiro já não sabe mais se assiste ao jornal, ao programa policial ou a uma reprise mal ensaiada do circo romano, onde todos torcem pelo leão. O sujeito liga a televisão para saber do preço do café e termina ouvindo sobre golpe, contragolpe, minuta, pizza, vazamento, delação, criptomoeda, dosimetria e até anatomia constitucional em praça pública. O cidadão queria apenas saber se a prestação da geladeira cabe no orçamento.

A famosa pizza nacional, aquela que antes era servida discretamente em fatias mornas nos fundos de Brasília, agora virou rodízio gourmet. Tem borda recheada, azeite importado e cobertura de lagosta institucional. O caso Vorcaro mostrou ao brasileiro médio uma aula prática de como funciona a culinária política: uns investigam, outros gritam, outros absolvem, outros jantam e, no final, a conta sempre chega para quem toma café sem açúcar porque o açúcar ficou caro.

E quando o povo começa a tentar entender alguma coisa, surge mais uma canetada monumental do arquipresidente Alexandre de Moraes, alterando dosimetrias como quem troca o pneu de um Fusca, num pega, no meio da Belém-Brasília. O brasileiro já não sabe se a lei é um trilho firme ou uma pista de patinação artística. Cada decisão produz vinte especialistas instantâneos, quarenta juristas de Instagram e duzentos vídeos explicando que “agora vai”. Nunca vai. O Brasil é a única nação onde o futuro não chega, nem cansado, antes do presente terminar.

Enquanto isso, o trabalhador brasileiro continua sendo o personagem mais humilhado desse grande teatro guarani. Ele acorda cinco da manhã, pega ônibus lotado, enfrenta calor de forno de pizzaria e ainda precisa ouvir que a culpa de tudo é dele porque tomou um financiamento de geladeira em 24 vezes. O Estado gasta como um príncipe árabe em liquidação de iates, mas exige do cidadão a disciplina de um Dalai.

Eles querem um povo permanentemente deprimido, assustado e obediente, como o cubano. Mas o brasileiro tem um defeito gravíssimo: teima em sobreviver sorrindo e gozando de tudo e de todos, como um brasileiro.

No fundo, o Brasil continua sendo um país extraordinário administrado emocionalmente como um grupo de condomínio brigando por vaga de garagem. Temos água, comida, energia, minério, floresta, criatividade e um povo capaz de transformar dificuldade em negócio e miséria em poesia de botequim. Uma máquina de moer esperança funcionando vinte e quatro horas por dia. A mesma máquina que cubanizou a América do Sul.

Cuba era o paraíso na terra até que uns infelizes a deflorassem e implantassem um regime onde só os palacianos pudessem viver. Os Vorcaros da época, roubavam e assaltavam barcos e bancos, para irem gastar nos belíssimos cabarés de Cuba. Aí, os deuses chegaram, destruiram até os cabarés. Cuba é o inferno. E querem ser exemplos.

E assim seguimos nós, os brasileirinhos comuns, tentando pagar boletos enquanto especialistas explicam o fim da República pela terceira vez na semana. O Brasil virou um país onde a informação já não informa: ela estressa, deprime, envelhece e adoece seu povo.

Mas cuidado. Um povo cansado também aprende. E quando o brasileiro começa a perceber que está sendo tratado como figurante no banquete dos poderosos, pode resolver sair da plateia. E aí, meu amigo, não haverá pizza requentada, canetada milagrosa ou comentarista histérico capaz de salvar o espetáculo.

Eu lembro bem dos dois discos em Long-Play do espetacular comediante do Acre, o José Vasconcelos: o primeiro foi ”Eu sou o espetáculo” e o segundo foi “O espetáculo continua”. O povo já está esperando o convite para reinterpreta-lo.

Roberto Caminha Filho, economista, já está enjoado das notícias igualmente uniformizadas por um só estilista.

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