Brasil e Vietnã: lições da arquitetura sustentável (Mariana Caminha)

A arquitetura do futuro não será contra o mundo natural — mas, necessariamente, em harmonia com ele.

atualizado

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A primeira vez que ouvi falar de arquitetura sustentável foi em 2005, quando conheci a arquiteta Patrícia Paixão, carioca e então estudante de mestrado na Nottingham University, na Inglaterra.

Apesar de sermos de áreas diferentes — ela, Arquitetura; eu, Jornalismo –, logo ficamos amigas, e o campus onde ela estudava, todo planejado sob princípios de sustentabilidade, chegou até a ser tema de uma das minhas reportagens para a disciplina de TV.

Eu não imaginava que, um dia, a sustentabilidade se tornaria o eixo central do meu trabalho. Hoje reconheço o quanto Patrícia já era visionária. Integrante de um projeto conjunto entre a Universidade de São Paulo, a University College London e a Architectural Association, ela dedica-se atualmente ao desenvolvimento de iniciativas de adaptação climática urbana em favelas brasileiras.

Muitos profissionais seguiram os passos da nossa carioca pioneira. Hoje, a arquitetura está muito mais alinhada às boas práticas sustentáveis, tanto na mitigação quanto na adaptação às mudanças do clima.

Minhas memórias em Nottingham junto à Pat ressurgiram ao ver uma fotografia do renomado Hiroyuki Oki. Nela, vemos uma casa às margens do rio Thu Bon, no Vietnã. As paredes de tijolos vazados do Terra Cotta Studio, em Dien Phuong — uma vila frequentemente atingida por enchentes —, permitem que a água do rio atravesse a construção sem causar danos à estrutura.

O projeto é assinado pelo escritório Tropical Space, que concebeu um estúdio à prova de enchentes para o artista Le Huc Da. Inaugurado em 2016, o Terra Cotta Studio já enfrentou diversas estações chuvosas, permanecendo intacto graças à estrutura que deixa a água circular entre os tijolos. O calor intenso do Vietnã também é amenizado pelas aberturas nas paredes.

Como não poderia deixar de ser, toda a fiação elétrica foi instalada a um metro do chão, e os equipamentos podem ser deslocados com segurança para prateleiras elevadas durante as monções — uma adaptação essencial para o sucesso da ideia.

Nguyen Hai Long, cofundador do Tropical Space, explicou em entrevista à CNN que a proposta era desenvolver uma estrutura que trabalhasse a favor da água, e não contra ela. A harmonia com a natureza era um princípio inegociável.

Essa solução confirma o que a ciência já aponta. Com mais de 3.000 quilômetros de litoral, o Vietnã está entre os países mais vulneráveis aos efeitos de um clima cada vez mais instável. Segundo o Banco Mundial, apenas em 2020 os impactos da crise climática custaram ao país mais de US$ 10 bilhões. Mais recentemente, em setembro de 2024, o tufão Yagi provocou, sozinho, prejuízos estimados em US$ 3,3 bilhões, devastando áreas agrícolas, residências e infraestruturas essenciais, de acordo com a UNDP, Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento.

Do Brasil ao Vietnã, arquitetos e cientistas seguem juntos na busca por soluções que conciliem engenhosidade, tradição e respeito à natureza. Uma lição poderosa: a arquitetura do futuro não será contra o mundo natural — mas, necessariamente, em harmonia com ele.

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