Brasil é simbólico para Biden (por Mary Zaidan)

Maioria dos países do G20 tenta criar travas para dificultar que Trump reverta pactos ambientais 

atualizado

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Justin Sullivan/Getty Images
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1 de 1 Imagem colorida mostra o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden - Metrópoles - Foto: Justin Sullivan/Getty Images

Primeiro presidente dos Estados Unidos a pisar na Amazônia durante o mandato, agenda prevista para este domingo, Joe Biden deve usar o encontro do G20, no Rio, para fixar seu legado como o líder mundial que mais se dedicou às causas ambientais e ao enfrentamento das mudanças climáticas. No mínimo, seu sucessor Donald Trump terá muito trabalho para anular o que foi feito nos últimos anos e, assim, exercer seu negacionismo.

Além de conseguir aprovar e promulgar em 2022 o maior pacote climático da história – US$ 430 bilhões (R$ 2,4 trilhões) -, Biden assinou acordos de cooperação multilaterais e bilaterais com dezenas de países, incluindo o Brasil, para estimular o desenvolvimento sustentável. Trump terá de romper um a um.

A escolha do Brasil para a realização da cúpula dos 19 países ricos – o G20 é composto por 19 países e duas representações, União Africana e União Europeia – veio a calhar para Biden. O Brasil tem reconhecimento mundial em questões ambientais e humanitárias, com propostas que o democrata em fim de mandato pretende assinar embaixo. A começar pela adesão à Aliança Global Contra Fome, iniciativa brasileira e menina dos olhos do presidente Lula, que já conta com o apoio de 41 nações. Biden deve endossá-la ao vivo e em cores no evento oficial de abertura da 19ª reunião anual do G20, na manhã desta segunda-feira, 18.

A Aliança fixou alguns objetivos até 2030. Pretende alcançar cerca de 500 milhões de pessoas com transferência de renda e 150 milhões de crianças, oferecendo acesso à merenda escolar, além de criar iniciativas de saúde para 200 milhões de mulheres e crianças de até 6 anos.

Para os negacionistas como Javier Milei, é fácil retirar a representação da Argentina da COP-29 no Azerbaijão e se posicionar contra a tentativa do Brasil de colocar gás no imposto sobre arquibilionários, que também terá a oposição de Trump. Mas fome é outro papo. Não dá para negar a existência dela. E até para Trump, que adora demonstrar sua empatia zero, pode ser constrangedor – e impopular – retirar os Estados Unidos desta iniciativa.

Mesmo reconhecendo que a eleição de Trump foi um temporal de água gelada, o Brasil, os Estados Unidos e as delegações da maioria dos países têm trabalhado para criar travas à reversibilidade de medidas e pactos multilaterais. É bem provável que Trump desfaça o que vem sendo construído com muito esforço para tentar reduzir os efeitos do aquecimento global, os desastres climáticos e a possível escassez de alimentos e água em um futuro próximo. Mas isso não significa parar, recolher os ases. Ao contrário.

A ameaça trumpista pode fazer disparar o sentido de urgência nos países europeus e também no Brasil, que anunciou metas auspiciosas durante a COP-29 e sediará a COP-30, para a qual pretende convidar o presidente americano. No caso da China, rival declarada, a hipótese de Trump frear os esforços ambientais dos Estados Unidos pode estimular seus investimentos na área.

A segunda maior economia do mundo desenvolve um programa arrojado de energia limpa, tem investido em cidades inteligentes e menos poluidoras e se tornou a maior fabricante e consumidora mundial de carros elétricos. Em 2023, a chinesa BYD ultrapassou a Tesla de Elon Musk, apoiador e futuro auxiliar de Trump no ainda não criado Departamento de Eficiência Governamental. Mais: Xi Jinping, que também está no Rio para o G20, quer exportar essas tecnologias sustentáveis, e reforçar a hoje bombardeada globalização em contraponto ao ódio trumpista à multilateralidade.

Além disso, ainda que internamente Trump tenha tido apoio para ampliar a exploração de combustíveis fósseis, o mundo hoje é diferente daquele de 2017 em que ele anunciou, com pompa, o abandono do Acordo de Paris. Pesquisa divulgada em junho, realizada em conjunto pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), Universidade de Oxford e a empresa GeoPoll com 75 mil pessoas em 77 países, onde vivem 87% da população mundial, aponta que 80% dos habitantes do planeta desejam que seus governos atuem mais fortemente na luta contra o aquecimento global. Talvez isso explique a insistência de Trump em mentir aos americanos de que promoverá “padrões ambientais, incluindo o ar e a água mais limpos do planeta”.

O lame duck (pato manco), jargão inglês para políticos em fim de mandato, pode ter perdido a força, mas Biden sabe que um líder com causa jamais será esquecido. Não à toa, escolheu a Amazônia como cenário de pré-despedida e o G20 Brasil para os seus derradeiros atos na seara humanitária e ambiental. É simbólico (e triste): aqui, Biden reconhecido pelos feitos que Trump tentará destruir.

 

Mary Zaidan é jornalista 

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