Bolsonaro e o erro como método (por Hubert Alquéres)

A prisão, a crise na Câmara e o recuo de Trump formam o retrato mais claro do declínio político de Bolsonaro

atualizado

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Brasília (DF), 11/09/2026 - Em prisão domiciliar, o ex-presidente Jair Bolsonaro cumpre medida restritiva em sua residência, em Brasília - Metrópoles
1 de 1 Brasília (DF), 11/09/2026 - Em prisão domiciliar, o ex-presidente Jair Bolsonaro cumpre medida restritiva em sua residência, em Brasília - Metrópoles - Foto: <p>HUGO BARRETO/METRÓPOLES<br /> @hugobarretophoto</p><div class="m-banner-wrap m-banner-rectangle m-publicity-content-middle"><div id="div-gpt-ad-geral-quadrado-1"></div></div>

Se uma imagem vale mais do que mil palavras, a que expressa a profunda crise do bolsonarismo é a de Jair Bolsonaro admitindo, de maneira curta e grossa, que violou sua tornozeleira eletrônica: “meti ferro nisso aí”. A cena resume uma sucessão de erros de um líder que age por impulso, sem medir consequências. Paciência estratégica lhe falta, e por isso acumulou derrotas, dilapidando seu próprio capital político.

Tem sido assim desde a derrota nas urnas — um revés que, apesar de duro, ainda deixara Bolsonaro com quase metade dos votos e força política considerável. Não é preciso ir ao 8 de Janeiro para mostrar como seu voluntarismo e improviso minaram seu patrimônio. Foram erros crassos, em série, explorados por adversários que conhecem bem a frase atribuída a Napoleão: “Nunca interrompa o seu inimigo quando ele estiver cometendo um erro”.

Assim, tropeçando nas próprias pernas, Bolsonaro e sua família se enredaram em improvisos, reações intempestivas e inquietação permanente, impedindo qualquer construção estratégica sólida. A convocação apressada de uma vigília — associada à violação da tornozeleira — reforçou a sensação de pânico no núcleo familiar. Ao que tudo indica, perceberam que já não contam com o apoio irrestrito de Donald Trump.

Foi aí que se revelou o erro estratégico mais sério: acreditar que “afinidades ideológicas” moveriam a política externa dos EUA. Ignorou-se que grandes potências se pautam por seus próprios interesses. Com 65% dos americanos queixando-se da inflação, recuar das tarifas era impositivo. Só restou a Trump um lamento quando soube da prisão em regime fechado: “uma pena”. Vida que segue.

Com a violação da tornozeleira, Bolsonaro inviabilizou, ao menos no início, o cumprimento da pena em regime domiciliar e mergulhou seu movimento na mais profunda crise desde 2018, com risco real de fragmentação da direita e centro-direita. O setor político está em alerta: a próxima disputa presidencial já se insinua no horizonte.

Os primeiros sinais desse inferno astral estão dados. Desde a decretação da prisão, a dificuldade em mobilizar a base ficou evidente. As redes sociais, termômetro decisivo para o bolsonarismo, revelam queda nas menções diretas ao ex-presidente. Os poucos picos ocorreram apenas quando surgia alguma expectativa de reviravolta jurídica — expectativas que, como agora se sabe, eram castelos de areia.

A “vigília” convocada por Flávio Bolsonaro reuniu cerca de cem pessoas. As ruas seguem tranquilas, sem comoções com a prisão na PF — nem a favor, nem contra — e isso é positivo para um país que precisa respirar.

Uma das últimas cartas possíveis era transformar Bolsonaro em mártir — líder injustiçado, capaz de unir o conservadorismo sem recorrer à radicalização explícita. Mas a divulgação do vídeo da tornozeleira foi devastadora. A tese de que ele agiu em surto psicótico pode ajudar juridicamente, mas arrasa sua imagem política. Não combina com a figura de autoridade que tentou projetar ao longo de anos.

Outro erro grave — talvez o mais autodestrutivo — foi o motim na Câmara, que inviabilizou politicamente a bandeira da anistia. Na lógica do tudo ou nada, Bolsonaro e seus filhos desprezaram articulações moderadas que poderiam ter garantido uma dosimetria capaz de reduzir sua pena. Ao rejeitar acordos e isolar potenciais aliados, aprofundaram sua própria vulnerabilidade jurídica. Agora, dificilmente haverá clima institucional para flexibilizar as penas dos condenados pelo 8 de Janeiro — e Bolsonaro pode ter desperdiçado sua última oportunidade real de mitigação legal.

Isso não significa que a direita desaparecerá. O campo conservador continuará existindo, com várias correntes e novas lideranças. No curto prazo, presidenciáveis expressam solidariedade pública ao ex-presidente para não alienar seu eleitorado mais fiel. Na prática, todos buscarão manter distância prudencial. A toxicidade política associada a Bolsonaro — ampliada pela prisão e pelo desgaste moral — torna arriscado a qualquer aspirante carregar integralmente seu legado. A tendência é que tentem herdar seu espólio eleitoral sem seus métodos e sem sua agenda radicalizada.

O processo que culminou na prisão revela não apenas a queda de um líder, mas o esgotamento de uma estratégia baseada na impulsividade, no confronto permanente e na ilusão de que a política se resolve com pressão externa ou gestos improvisados. O bolsonarismo paga o preço de seus próprios erros e, pela primeira vez desde 2018, parece deixar de ser o centro gravitacional da direita. Ela seguirá viva, mas talvez, sem Bolsonaro como estrela maior.

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Hubert Alquéres é presidente da Academia Paulista de Educação.

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