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Bioeconomia: o pecado mora no Brasil (por Felipe Sampaio)

Bioeconomia engloba setores sofisticados, como alimentos, bebidas, bioplásticos, medicamentos, vacinas, insumos químicos e combustíveis

23/07/2026 10:18
Foto: Ag Pará
bioeconomia belém

A bioeconomia ainda nem estava na moda quando Marilyn Monroe respondeu à Life Magazine (1952) que a única coisa que vestia para dormir eram algumas gotas de Chanel Nº5. Enquanto cantava “Diamonds Are Girl´s Best Friends”, Marilyn não tinha ideia de que o seu perfume (preferido do jet set ao high Society) continha em sua fórmula o óleo do pau-rosa, uma árvore rara amazônica. Contudo, na bioeconomia, assim como no restante do mundo dos negócios, não há lugar para amadores. Por falta de regularidade na produção e entrega da essência de pau-rosa, Chanel parou de usá-la alguns anos depois.

Infelizmente, a Amazônia já protagonizara outro naufrágio no mercado de produtos extraídos da floresta – a borracha natural. Depois de fazer a fortuna de mercadores e o desenvolvimento de cidades, as mudas de seringueira foram pirateadas por ingleses para a Ásia. O investimento em técnicas de cultivo em grande escala resultou em vantagens para a borracha inglesa que ultrapassaram o extrativismo brasileiro.

Especialistas têm insistido no prognóstico de que o futuro da produção de bens, serviços, riqueza e renda está na tecnologia. Não estamos falando apenas das maravilhas digitais do Vale do Silício que povoam as mentes da juventude. Tecnologia será o fator decisivo de êxito, desde o agronegócio até a indústria espacial, seja na genética das sementes, seja nos sistemas de comunicação.

Nesse cenário, é frequente classificarmos o Brasil como potência bioeconômica (de novo, a ideia de país do futuro). Contudo, para que a profecia se realize, a bioeconomia carece de resposta a três perguntas iniciais: Quais empresas vão entrar nesse negócio (sem esquartejar a galinha dos ovos de ouro)? Que capacidade o Estado vai ter de criar as condições favoráveis? Em que etapa os trabalhadores e os pequenos empreendedores vão conseguir participar do jogo?

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A conversa sobre bioeconomia tende a navegar entre a abstração econômica e a utopia naturalista. O desafio será enorme para um país que optou pela desindustrialização em favor do neoextrativismo e ainda enfrenta dificuldades como a desigualdade social, a insegurança e outros passivos estruturais limitantes do desenvolvimento sustentável. E o simples fato de parte da Amazônia e suas riquezas naturais se encontrarem no território brasileiro não define o País com uma potência nesse ramo. Nem mesmo David Ricardo arriscaria encaixar tal hipótese como uma Vantagem Comparativa.

Bioeconomia não é apenas açaí e castanha do Pará. Engloba setores sofisticados, como alimentos, bebidas, bioplásticos, medicamentos, vacinas, insumos químicos, combustíveis, com repercussão em atividades como educação, seguros, fundos de investimentos, transportes, infraestrutura, IA, terras raras, entre tantos outros. Está na cara que a competitividade do Brasil nos ‘biomercados’ não será obtida por meio do barateamento de fatores baseado em desmatamento, invasão de terras indígenas, sonegação ou garimpo ilegal. Da mesma forma, não se pode continuar apostando no boom de commodities agrícolas e minerais ocorrido no final do século XX. Bioeconomia é sinônimo de diversificação produtiva, associada à utilização sustentável, científica, criativa e competitiva de recursos naturais.

Os determinantes do sucesso parecem permanecer os mesmos que valiam no tempo de “O Pecado Mora ao Lado”: investimento público, regras claras, Estado soberano, empresas dinâmicas, com pessoas saudáveis, seguras e qualificadas.

Felipe Sampaio: sócio da Terra Consultoria e Inovação; cofundador do Centro Soberania e Clima; com atuação em grandes empresas, organismos internacionais e terceiro setor; foi diretor de programa no Ministério do Empreendedorismo; ex-subsecretário de Segurança Urbana do Recife; chefiou a assessoria do Ministro da Defesa; dirigiu a área de estatísticas no Ministério da Justiça.