Avalanche de incertezas americanas pode criar curto-circuito

Uma janela de imprevisibilidade que foi aberta pela classificação do CV e do PCC como organizações terroristas

atualizado

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Ricardo Stuckert/PR
Reunião entre o presidente Lula e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump
1 de 1 Reunião entre o presidente Lula e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump - Foto: Ricardo Stuckert/PR

Por Leonardo Barreto

Imagine que nos próximos meses, talvez antes das eleições, os EUA divulguem uma lista de pessoas e empresas ligadas ao CV e ao PCC que passarão a sofrer sanções do governo daquele país. E que nesta lista estejam figuras políticas, membros do Judiciário e empresas com presença importante no mercado. Como as instituições brasileiras reagiriam?

Essa provocação retórica serve para mostrar a janela de imprevisibilidade que foi aberta pela classificação do CV e do PCC como organizações terroristas pela administração Donald Trump. Isso não necessariamente é bom ou ruim. Mas significa que foi o universo político e empresarial brasileiros passaram a ficar sujeito a uma roda viva para a qual as instituições atuais provavelmente não estão preparadas.

Reportagens analisando países que possuem organizações criminosas que passaram a ser consideradas terroristas – México, Colômbia e Venezuela – listam eventos que sugerem o que pode ocorrer por aqui já no curto prazo.

1.    Sanções diretas e indiretas a setores do comércio e do empresariado caso realizem transações com pessoas ou entidades que possuam qualquer ligação — mesmo que não intencional ou oculta — com os grupos listados;

2.    Burocracia e encarecimento financeiro com o submetimento do sistema bancário nacional a regras internacionais de conformidade (compliance) e monitoramento de transações mais rigorosas, atrasando operações financeiras internacionais;

3.    Migração monetária e desdolarização a partir do aumento do risco de bloqueio de contas e ativos atrelados à moeda estrangeira hegemônica e agentes econômicos e o próprio mercado local passando a buscar alternativas financeiras fora da jurisdição e do alcance do dólar;

4.    Ameaça de intervenção externa proveniente da mudança de status jurídico de “crime comum” para “terrorismo”, o que permitiria ações unilaterais dentro do território da nação afetada;

5.    Desgaste em acordos internacionais com a imposição unilateral de uma agenda de segurança externa que ignorasse a soberania e as diretrizes do governo local bloqueando canais diplomáticos e de cooperação internacional;

6.    Endurecimento de mecanismos jurídicos com a facilitação de extradição de lideranças criminosas capturadas, permitindo a aplicação de penas internacionais substancialmente mais severas do que as previstas no código penal do país de origem;

7.    Aumento da polarização e da instabilidade política interna com a pressão externa sobre como combater o crime organizado tornando-se o tema central do debate doméstico, dividindo opiniões e polarizando processos eleitorais entre alas que defendem a soberania nacional e alas que apoiam uma abordagem de intervenção radical.

Pelo menos um desses efeitos – polarização – já se fez sentir no Brasil. É importante lembrar que no Equador e, mais recentemente, na Colômbia, essa agenda se tornou central nas eleições presidenciais. Também deve-se colocar no radar que o apontamento de autoridades brasileiras em listas estrangeiras levaria as instituições a um curto-circuito sem saber se as processariam ou se as protegeriam.

Não é trivial o grau de incerteza potencial que essa medida, que começou a valer a partir de hoje, criou no cenário macro brasileiro.

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