Autocelebração do governo não combina com desafios (Leonardo Barreto)
Nessa altura do campeonato, o presidente Lula gostaria de estar vendo a isenção do IR ser aplaudida pelo público
atualizado
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Nessa altura do campeonato, o presidente Lula gostaria de estar vendo a isenção do IR ser aplaudida pelo público que ganhar entre 2 e 5 salários-mínimos, resolvendo de vez o seu problema de popularidade, e consolidando-se junto às classes populares com a demanda do fim da jornada 6 x 1.
No entanto, os resultados estão longe do esperado. Pesquisas sucessivas publicadas nas últimas duas semanas mostram que os indicadores de avaliação do governo não reagem e estão em um patamar perigosamente baixo, perto de 30%, o limite mínimo para dar sustentabilidade ao projeto de reeleição.
Em relação às medidas tomadas, sobre as quais se despejou uma grande quantidade de expectativas, pode se argumentar que externalidades ajudam a explicar as razões pelas quais não empolgaram a população.
Primeiro, o benefício do IR pode ser notado no primeiro mês, mas, rapidamente, entra no fluxo financeiro de uma família e perde importância. Além disso, pode ser uma medida pequena considerando o endividamento atual das famílias, com 30% enfrentando situação de inadimplência em algum nível porque, em grande medida, o nível proibitivo dos juros, o que impede as pessoas de se refinanciarem.
No caso da jornada 6×1, ideia abraçada com grande entusiasmo por Lula, há sinais de que ela não traz apenas bônus eleitoral. O próprio presidente já percebeu que a medida, se aplicada de forma linear, como defendeu o PT em um primeiro momento, pode prejudicar muito os pequenos negócios.
Nas próximas semanas, a tendência é de uma piora no contexto geral, considerando o choque de preço dos combustíveis no curto prazo (em razão da guerra do Irã) e a repercussão dos casos Master e do INSS.
Além disso, todo os escândalos e denúncias contaminam o ambiente de comunicação dessas medidas. Mensagens otimistas, divulgadas massivamente, entram nos intervalos de programas de notícias e de comentários repletos de problemas.
O clima de autocelebração planejado para este ano simplesmente não cabe mais, como evidencia o desastre do desfile do carnaval. Com o risco real é parecer descolado da realidade e do mal humor das mídias, Lula terá que rever, de novo, sua linha de comunicação sob o risco de parecer descolado da realidade.
Leonardo Barreto, doutor em Ciência Política pela Universidade de Brasília.


