Às sombras de Lula e Jair (por Antônio Carlos de Medeiros)

Cuidado com o “wishful thinking”. As eleições estão em aberto.

atualizado

Compartilhar notícia

Fábio Vieira/Metrópoles
Lula e Bolsonaro, candidatos à presidência, em debate promovido pela TV Bandeirantes no segundo turno das eleições. Na foto, Bolsonaro aparece atrás de Lula ouvindo o ex-presidente falar e gesticular em resposta a pergunta - Metrópoles
1 de 1 Lula e Bolsonaro, candidatos à presidência, em debate promovido pela TV Bandeirantes no segundo turno das eleições. Na foto, Bolsonaro aparece atrás de Lula ouvindo o ex-presidente falar e gesticular em resposta a pergunta - Metrópoles - Foto: Fábio Vieira/Metrópoles

É puro “wishful thinking” cravar agora que as eleições presidenciais serão polarizadas entre Lula e Flávio Bolsonaro. E que não há espaço para a evolução de candidaturas situadas ao centro do espectro político. As chamadas candidaturas “nem-nem”, ou “independentes” (nem Lula nem Bolsonaro).

As pesquisas divulgadas recentemente mostram que as eleições estão em aberto. A Quaest mostrou que existem ainda 62% de indecisos. Mostrou também que 43% dos eleitores ainda podem mudar o voto (volatilidade). E que os independentes representam 32% do eleitorado.

Tem mais. Entre os independentes, a rejeição do presidente Lula é de 61% (dizem que não votariam nele), e 54% entre eles não votariam em Flávio. O nem-nem é significativo. Ainda entre os independentes: 71% deles dizem que Lula não deve continuar na presidência.

Qual é a novidade? A novidade é que os mitos estão com fadiga de material. Quem? Lula e Jair Bolsonaro.

A pesquisa Atlas/Bloomberg desta semana também corrobora a fadiga e o cansaço do eleitor com Lula e com o filho de Jair, Flavio Bolsonaro. 47,3% dos eleitores dizem ter medo do futuro com reeleição de Lula. E 45,4% declaram o mesmo com eventual eleição de Flavio Bolsonaro.

As pesquisas quantitativas permitem constatar este fenômeno. É o dado da rejeição, principalmente, aliado ao dado do medo do futuro com um ou com outro.

Ao lado das pesquisas qualitativas, as pesquisas apontam também para a clara percepção da mudança estrutural do espírito do tempo.

O espírito do tempo, isto é, o pensamento e olhar da sociedade, é o do caminho do tipo centro direita.

Pausa.

O PT foi a novidade histórica dos anos 1980 na política brasileira. O partido do “rechaço” ao autoritarismo dos militares e do olhar para a sociedade com a chamada “economia do afeto”-  com o combate à fome e as desigualdades sociais. O partido da pauta do trabalhador.

Foi gerado pela liderança de Lula. Gerou o mito Lula. O lulismo ficou maior que o petismo. Caminhou entre o rechaço oposicionista e o pragmatismo da luta pelo poder. O partido do poder. E do estatismo.

Jair Bolsonaro foi produto da novidade do espírito do tempo das manifestações de 2013. Soube ler ali que o Brasil tinha virado à direita, antes de virar. Com grande capacidade de operar politicamente no ambiente das redes sociais levou a direita a sair do armário. Seu partido político era (é) o ambiente das redes sociais, agora ao lado do PL.

2013 virou 2018. Com um trabalho eficaz de redes sociais, construído gradualmente desde 2013, Jair ganhou as eleições de 2018.

O mito se fortaleceu. E governou o Brasil na base das narrativas e do acordo com o Centrão.

Lula voltou em 2022. Ambos – Jair e Lula – entenderam que a polarização era o caminho para o domínio de ambos do tabuleiro político-eleitoral da política brasileira. Na base de narrativas, ocuparam a ribalta. Mito “versus” Mito.

Mas agora tem fato novo. Novo fenômeno estrutural de sociedade. Os dois mitos entraram em modo fadiga de material. Não conseguem mais o domínio das narrativas do novo espírito do tempo: a cosmovisão social-liberal os afasta da ribalta.

O que mostra isto nas pesquisas? A grande avenida aberta no centro do espectro político. Desta vez é diferente do que foi em 2014, em 2018 e 2022. Trata-se do “enxame dos ANTIS”. Anti Lula e Anti Bolsonaros.

Com a ascensão de uma convergência para a ampliação potencial do espaço do Centro. Não é apenas centro/centro. É também do centro esquerda à centro direita. A avenida ficou mais ampla.

Vem daí as surpresas das preferências já mostradas nas pesquisas. Nem bem entraram em campo, as candidaturas de Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) já mostraram viabilidade para enfrentar Lula ou Flavio em eventual segundo turno.

E tem mais. A mesma pesquisa Atlas/Bloomberg desta semana mostra a gradual ascensão da candidatura de Renan Santos. Ele entrou em campo há pouco tempo, assim como Zema e Caiado. Renan começou com 0,3% e já chegou a 6%. Ele também mira os eleitores nem-nem. E tem diálogo com os eleitores evangélicos. Não é pouco não, a esta altura do campeonato.

Não é pouco mesmo. Estas três candidaturas mudam o espaço político e o movimento do tabuleiro. É preciso compreender que a polarização fica nos extremos. Ela parece não poder absorver o grande centro ampliado, ou seja, os nem-nem.

Portanto, cuidado com o “wishful thinking”. As eleições estão em aberto.

Os mitos podem não ter força política para conter a reviravolta potencial dos “ANTIS”.

Lula está tentando sair do isolamento. Sofreu outro grande desgaste nesta semana, com a rejeição de Jorge Messias pelo Senado. Desgaste político e eleitoral.

Jair está afastado da ribalta. Flavio joga parado, ainda no vestiário para entrar em campo.

As sombras (Lula e Jair) perderam força. Flavio ainda está por apresentar identidade própria.

O dado central é a rejeição. Na linguagem de pesquisas: “piso alto, mas teto baixo”.

Além das pesquisas quantitativas, as qualitativas também mostram uma outra possibilidade político-eleitoral: pode vir aí uma terceira via no segundo turno das eleições presidenciais. A volatilidade do voto é grande: 43% ainda podem mudar.

Outro dia, ouvi de um arguto observador da cena política brasileira ao longo dos anos que precisamos superar o paradigma “mudancista” expresso na famosa frase “plus ça change, plus cést la même chose”.

É quando a conservação é capaz de dirigir e condicionar a mudança. A famosa “revolução passiva” de Gramsci.

 Antonio Carlos de Medeiros é Pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science.

Quais assuntos você deseja receber?

Ícone de sino para notificações

Parece que seu browser não está permitindo notificações. Siga os passos a baixo para habilitá-las:

1.

Ícone de ajustes do navegador

Mais opções no Google Chrome

2.

Ícone de configurações

Configurações

3.

Configurações do site

4.

Ícone de sino para notificações

Notificações

5.

Ícone de alternância ligado para notificações

Os sites podem pedir para enviar notificações

metropoles.comBlog do Noblat

Você quer ficar por dentro da coluna Blog do Noblat e receber notificações em tempo real?