As serpentes de Havana (por Marcos Magalhães)

Pode ser que o futuro de Cuba passe por algum tipo de negociação com os Estados Unidos. Mas esse futuro não está claro

atualizado

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Divulgação/Partido Comunista de Cuba
Foto colorida de bandeiras de Cuba hasteadas
1 de 1 Foto colorida de bandeiras de Cuba hasteadas - Foto: Divulgação/Partido Comunista de Cuba

Em dias de tempestade, as águas revoltas do Mar do Caribe, assim como as ondas políticas que vêm do Norte, distribuem temores ao explodirem no Malecón, em Havana. Ambas mantêm nublado o cenário futuro de Cuba. Mas ainda se veem traços de beleza, quando o tempo se abre, junto àquele imenso azul marinho.

Um pouco dessa beleza foi captado pelas lentes das câmeras que gravaram as cenas do clipe Sueño con Serpientes, que acaba de ser lançado nas redes sociais.

Ali estão os carros antigos, o rosto de Che Guevara, os edifícios caindo aos pedaços e os sorrisos de dois velhos amigos: o cubano Silvio Rodríguez, 79 anos, e o brasileiro Chico Buarque, 80 anos.

Eles cantam a canção título do clipe, gravada pela primeira vez em 1975. E a publicam agora, quando se completam 40 anos do restabelecimento das relações diplomáticas entre Brasil e Cuba, interrompidas durante o regime militar brasileiro.

“Sonho com serpentes”, canta Chico no início do filme. Serpentes de mar longas, transparentes, que em suas barrigas levam “tudo que podem roubar do amor”.

“Creio que está louca”, responde Silvio. “Lhe dou a mastigar uma pomba e a enveneno com meu bem”.

As serpentes são traiçoeiras. “A mato e aparece uma maior”, cantam juntos os dois. “Com muito mais inferno em digestão”.

Elas também passam por metamorfoses. Às vezes podem deixar o mar e subir ao céu da ilha como águias, voando junto a enxames de drones enviados por vizinhos que há quase 70 anos buscam recolocar seus pés em solo caribenho.

O que os drones vindos do Norte podem ver já está também visível a todos: uma ilha linda, cujos habitantes têm cada vez mais dificuldades para se alimentar, se locomover, ou mesmo trabalhar. Gente que passa noites totalmente no escuro, depois da crise de energia que se seguiu à proibição da chegada de petróleo.

Os sorrisos de Chico e de Silvio, junto às imagens de pobreza e abandono, são os de dois amigos que ainda parecem acreditar. Cada um à sua maneira, eles apostavam, já há meio século, em uma América Latina menos desigual.

Silvio Rodríguez foi um dos maiores expoentes da Nova Trova Cubana, junto com Pablo Milanés. Era um movimento que apoiava, de forma crítica, a Revolução de 1959, que levou Fidel Castro ao poder.

Chico Buarque, por essa época, precisava passar por uma sala especial da Polícia Federal a cada vez que regressava ao Rio de Havana.

Aos olhos radicalizados da direita de hoje, seriam apenas mais dois comunistas a serem atacados nas redes sociais. E é verdade que, sim, o brasileiro que experimentava em casa um regime autoritário, prestava solidariedade a um regime que também perseguia seus dissidentes.

Quem viveu aquele momento sabe, porém, que algo mais havia em Cuba além de suas restrições à liberdade. Havia o apelo quase emocional de um país latino-americano que mantinha sua dignidade e não tinha crianças pobres pelas ruas.

As escolas e os hospitais de Cuba, assim como sua música e dança, serviam como bússolas a uma parcela da juventude brasileira que via o ocaso do regime militar e buscava uma transformação social capaz de livrar o Brasil da pobreza absoluta.

O sucesso de canções como Sueño con Serpientes vem dessa época. Uma época que antecede por poucos anos a queda do Muro de Berlim e o fim do socialismo na então União Soviética e no Leste da Europa.

Cuba, de certa forma, permaneceu na mesma rota. Assim como países distantes, como Vietnam e Coreia do Norte. Os asiáticos chegaram a um entendimento com os Estados Unidos, vencedores da Guerra Fria. Cuba não teve essa sorte.

De lá para cá, com mais erros do que acertos, procurou manter intacto o regime. Perdeu o apoio da então União Soviética. E poderia ter promovido aberturas política e econômica, mas não soube, não quis ou não foi capaz de buscá-las.

Os Estados Unidos – com a breve e rara exceção de Barack Obama – nunca foram muito gentis com o socialismo cubano. Sob Donald Trump, ampliaram o embargo econômico e proibiram a exportação de petróleo da Venezuela para Cuba.

Foi, talvez, o último movimento necessário para abalar de vez a estrutura de poder que se mantinha de pé desde 1959. Na segunda semana de maio, o diretor da CIA, John Ratcliffe, viajou a Havana para levar uma mensagem pessoal de Donald Trump.

Ao mesmo tempo, em Washington, o secretário de Estado Marco Rubio – ele mesmo filho de imigrantes cubanos – disse não ver possibilidade de mudança enquanto “essa gente” estivesse no poder na ilha de seus pais.

Mudança de regime? É possível. O próprio Trump já admitiu que, para ele, seria “uma honra tomar Cuba”, depois de superar o pântano da guerra no Irã.

É difícil que Washington decida enviar seus soldados para invadir tanto o Irã quanto Cuba. Há dúvidas se os soldados seriam bem-vindos. E uma quase certeza de que muitos norte-americanos morreriam longe de casa.

Pode ser que o futuro de Cuba passe por algum tipo de negociação com os Estados Unidos. Mas esse futuro, como nos dias de ressaca no Malecón, não está claro. Somente a paz, o respeito por sua gente e muitos novos investimentos poderão fazer da ilha um lugar melhor.

 

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