As ondas de Beijing (por Marcos Magalhães)
Brasil precisa acompanhar de perto as grandes consequências globais da maior disputa geopolítica do século 21
atualizado
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Depois de uma discreta audiência há sete dias na Casa Branca com Donald Trump, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai assistir, de longe, ao encontro do líder americano com o presidente da China, Xi Jinping. E observar as ondas que se espalharão pelos cinco continentes após a reunião de cúpula.
A visita de Trump a partir desta quarta-feira – a primeira à capital chinesa de um presidente americano em quase uma década – será rara oportunidade de se realinhar o relacionamento bilateral.
A agenda inclui temas tão espinhosos como as divergências comerciais, a guerra no Irã e a sempre presente questão de Taiwan.
As duas atuais superpotências têm a seu favor, ao menos, um ambiente menos hostil do que o alimentado pelas duas nações mais poderosas do planeta na época da Guerra Fria. Um tempo no qual Washington e Moscou discutiam limites para seus arsenais nucleares e pouco tempo dedicavam a temas econômicos.
As armas não foram embora. A própria Rússia mantém viva sua imagem de potência militar na guerra contra a Ucrânia – que vê como um conflito contra a própria Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).
Mas Estados e China têm na economia a sua principal frente de batalha – ou, às vezes, de cooperação. Na comitiva da viagem a Beijing, não estarão generais estrelados, mas representantes de grandes corporações, como Boeing, Citigroup e Qualcomm.
Está claro o interesse de Trump de aumentar as exportações de aviões e suas peças para o grande mercado chinês, além de expandir a ação de empresas de tecnologia na grande nação asiática e, se possível, aumentar as exportações de soja para aquele sedento mercado.
No momento, as duas nações experimentam uma trégua comercial, desenhada a partir do último encontro bilateral na Coreia do Sul, no ano passado. Mas as batalhas verbais prosseguem.
Ao assumir seu segundo mandato, Trump impôs tarifas de 20% sobre produtos chineses. Depois, no “Liberation Day”, anunciou novas taxas de 34%. Os chineses responderam com cortes nas exportações agrícolas americanas. E os agricultores são parte da base de apoio da atual administração americana.
Pelo acordo de Seul, os dois líderes cederam. Os chineses voltaram a comprar soja americana. Os americanos derrubaram algumas restrições às vendas de semicondutores e parte de suas tarifas comerciais. Uma trégua.
As tarifas que haviam sido impostas por Washington doeram. Mas Beijing reagiu, buscou outros parceiros comerciais e conquistou, em 2025, o maior superavit comercial da história: US$ 1 trilhão. Por isso, chega em situação confortável à reunião de cúpula.
A essa vantagem comercial une-se outra estratégica: a China responde hoje por mais da metade do potencial de produção de minerais estratégicos e terras raras, necessárias à produção de armas, aviões militares e até celulares.
E aqui entram as ondas que sairão do encontro na China. Que efeitos as conversas bilaterais em Beijing distribuirão pelos mares a economias tão distantes como a do Brasil, no Atlântico Sul?
É bom lembrar que alguns dos temas mais sensíveis na relação entre as duas superpotências tem relação direta com interesses brasileiros.
O tema dos minerais estratégicos e das terras raras esteve presente no encontro de Trump com Lula, há apenas uma semana. Pois o Brasil é uma das raras opções das principais nações ocidentais para garantir o fornecimento de insumos estratégicos a suas indústrias de ponta.
Na melhor das hipóteses, para os Estados Unidos, Xi Jinping pode vir a liberar a exportação de seus minerais. Mas só o tempo dirá se a grande potência asiática aceitará se tornar fornecedora habitual e confiável ao mercado americano.
No Brasil, está em andamento novo marco regulatório para a exploração dessas jazidas, com prioridade ao beneficiamento local. O atual governo admite possibilidades de negócios com todos os países, desde que suas regras sejam respeitadas. Um aceno de estabilidade.
Se os Estados Unidos podem vir a comprar terras raras por aqui, por outro lado permanecem competidores do Brasil nas vendas de produtos agrícolas à China. E, nesse caso, somente o governo chinês vai determinar como pretende diversificar as compras e investir na sua segurança alimentar.
As relações econômicas entre as duas superpotências, portanto, terão efeitos por aqui, em mais de uma maneira. Do lado político e militar, o Brasil é mais um país que sofre as consequências da guerra no Irã, que dificultou as exportações pelo Estreito de Ormuz e levou ao aumento global nos preços de petróleo.
É possível que o conflito esteja no roteiro do encontro de Trump com Xi. Embora sem envolvimento direto no conflito, a China parece apostar em um fim rápido para o conflito. A ver se encontrará receptividade no outro lado da mesa.
Por fim, a China também vai procurar abrigo a seus argumentos nos ouvidos de Trump – desta vez sobre o tema de Taiwan. Xi Jinping parece disposto a deixar pelo menos encaminhada a questão da reunificação do país, com o retorno do que veem como ilha rebelde. A ver também se os americanos estarão abertos a conversar.
Aqui, no até agora tranquilo e pacífico Atlântico Sul, a paz sempre será convidada de honra. E o Brasil, em particular, precisa acompanhar de perto as grandes consequências globais da maior disputa geopolítica do século 21. Até porque pode manter as portas abertas em Washington e Beijing.


