As ilusões que não perdi. O bolsomaster em filme (por Pedro Costa)
Nunca tive a menor ilusão de que Flávio Bolsonaro pudesse ser um Bolsonaro diferente.
atualizado
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Ainda levará algum tempo para se entender a parte da rachadinha que coube ao bolsomaster, mas uma coisa é certa: de minha parte nunca tive a menor ilusão de que Flávio Bolsonaro pudesse ser um bolsonaro diferente. Desde que ouvi pela primeira vez falar no filho 01 entendi que seu pai já lhe tinha vendido a alma a Vautrin — para os que não são leitores de Balzac, o personagem que, ao longo de vários livros de A Comédia Humana, encarna o Diabo.
Inato ou adquirido pela (des)educação paterna, ele era desde cedo um desses personagens típicos do baixo-clero que assola os legislativos de todo o Brasil: seguidor fanático da lei de Gérson — coitado, o grande jogador deu nome a esta lei dizendo uma frase estúpida num comercial estúpido —, tirava vantagem em tudo, a começar no salário dos falsos funcionários, pastoreados pelo bandido confesso e impune que atende pelo nome de Fabrício Queirós. Como o pai, aprendera a negociar com as milícias e com os milicianos de todo naipe, executivos ou executores, como o Capitão Adriano (mãe e irmã nomeadas para seu gabinete), sócio nas rachadinhas, o Major Ronald — ambos líderes do “Escritório do Crime” — ou Ronnie Lessa — o assassino de Marielle Franco vizinho de Jair Bolsonaro. Como o pai, seus mais expressivos projetos de lei eram de homenagem a assassinos.
Inexpressivo na assembleia estadual — não dá para colocar em iniciais maiúsculas um valhacouto como esse — do Rio de Janeiro, inexpressivou-se com mais ênfase no Senado Federal, onde gosta de apresentar projetos punitivistas. Para compreender o que passa na cabeça do jovem senador (tá bom, tá bom, também eu sei que é …), cito alguns de seus projetos: o 2362/19 acabaria com a Reserva Legal estabelecida no Código Florestal; o 2393/19 acrescentaria aos “excludentes de ilicitude”, isto é, à licença para matar, a legítima defesa ao direito à segurança pública; o 4640/19 idem ao “suicídio por policial” (isso mesmo está escrito); o 3132/19 acabaria com os atenuantes aos crimes cometidos por menor de 21 anos…
Como seu pai, o 01 tem certa dificuldade de dizer lé com cré, mas nem por isso se notabilizou menos por sua atividade de bastidores: foi, durante o governo do pai, o grande acertador de nomeações e ajustes $$$. Entre suas obras-primas está a nomeação de Kassio com K para o Supremo Tribunal Federal — como se pode constatar, o K é brilhante. Pelo sim pelo não, conseguiu desfazer a investigação sobre as rachadinhas em seu gabinete no Rio, sendo de supor que, diante do sucesso, continuou rachando no Senado.
Mas interessante mesmo são suas ideias (?) como candidato a presidente da República. Ele diz que vai reduzir em 90% o número das estatais — viva a sabesp & cia — e torrar o patrimônio da União para fazer caixa — o moço é especialista em dinheiro em caixa, tanto assim que já comprou 57 imóveis em dinheiro vivo, dinheiro que certamente estava em caixa e provavelmente foi levado em caixa, como nos bons negócios da vida (há uma certa atrapalhada entre valor de compra e valor de mercado, mas quem liga para isso?). Ele promete uma redução de despesas considerável — o pai prometeu e acabou com a verba de ministérios dispensáveis como da educação, da saúde, do desenvolvimento social, do meio ambiente, para não falar no da cultura, que só serve para as falcatruas da “lei ruaneid” — e, também como o pai, as aumentaria sem nenhum escrúpulo, desde que para os negócios amigos; o modelo é o ditado pelo estadista africânder Elon Musk. Está certo de que encontrará, entre as hostes de farialimers, um novo posto Ipiranga; se não der, vai com o velho mesmo.
Não se diga que ele é ingrato, pois defende a anistia ampla, total e indenizada para o pai e seus companheiros de condenação — não sei se extensiva aos cúmplices não condenados. E já esclareceu: como sabe que é inconstitucional e que o Supremo a vetará, será preciso não aceitar isso e tomar as medidas — pedir ao irmão um cabo e um jipe para fechar a área do pênalti — para que sua decisão seja cumprida.
Não é o único rasgar da quatro-linhas que anuncia: também acabaria com a maioridade penal aos dezoito anos. Como o art. 288 da Constituição é cláusula pétrea, cabo e jipe. É um apelo à sede de linchamento de parte relevante da população — inclusive entre evangélicos e católicos, que dizem crer em Nosso Senhor Jesus Cristo, mas não nessa besteira de outra face.
Na linha das obsessões escatológicas de seu pai, promete também criar mais meio milhão de vagas nos presídios. Seu objetivo não é acabar com o “estado de coisas inconstitucional”, mas passar a terra do Trump: como nem todos sabem, os EUA têm 1800 mil presos, 542/100 mil habitantes; a China, 1700 mil, 119/100 mil; o Brasil, 900 mil, 416/100 mil; a Índia, 530 mil, 37/100 mil. Em números absolutos ainda faltará um pouco, mas se bolsonarizarmos por 20 anos chegaremos lá. Nos bukelerizaremos (El Salvador tem 1620/100 mil), como explicitou o 01 depois de visitar o pobre país em companhia do 02 bananinha.
É claro que não poderemos deixar de acrescentar à lista de crimes do Novo Bolsonaro — como sabem, é crime a incitação ao crime —, ao lado da proposta de abolição violenta do Estado de Direito que configuram suas declarações propondo o fechamento do STF, o pedido de bombardeio, por forças norte-americanas, de embarcações na Baía de Guanabara (outubro 2025) — art. 142, não da Constituição, do Código Penal Militar, com pena de reclusão de quinze a trinta anos.
Mas voltemos ao bolsomaster. Foram divulgadas mensagens do muito esperto ao chefe da quadrilha-que-está-com-dificuldade-de-acertar-a-delação. O que se sabe até agora: a) que o Vorcaro deu — não “emprestou” dinheiro — 61 milhões de uma promessa de 134, que não conseguiu cumprir pois foi encanado; b) que se fala de um filme brazuca-americano com orçamento muitas vezes maior que os mais caros filmes brasileiros; c) que é difícil de acreditar que o dinheiro dado tenha sido dado para o filme; d) que é difícil de acreditar que o dinheiro dado não tenha um qui-pro-quò, nos dois sentidos; e) que o ilustre ator-secretário-da-cultura, assumindo-se produtor do dito filme, disse que o filme recebeu/não-recebeu um tostão do Vorcaro; f) que o STF tenta citar o dito ator pela destinação de 2 milhões em emendas para a ong Instituto Conhecer Brasil, da produtora do dito filme; g) que a ICB contratou com a prefeitura de S. Paulo 108 milhões para instalar 5 mil pontos de wi-fi, assunto que está sob exame do Tribunal de Contas dos Municípios, com mais de 20 irregularidades; h) que o O2 mexeu/não-mexeu no dinheiro que foi para os EUA; i) que há um pouco de cláusulas de confidencialidade a mais para a produção de um filme, pois pela primeira vez os patrocinadores (privados?) de um filme (privado?) não querem aparecer; j) que o 01 negou, confirmou, não foi bem assim, acusou, rebolou e se enrolou mais que rebolador de bambolê.
Bem, nada de ilusões: os bolsonaristas, os farialimers (não sei se há distinção, mas vá que haja) et caterva virão com tudo contra o resto dos brasileiros — nós, pobres de nós — nós, que sabemos que Deus é brasileiro e ainda vai jogar outros bambolês nos pés deles.
Pedro Costa, arquiteto e escritor.


