As duas faces de Flávio (por Hubert Alquéres)
Em Dallas Flávio abandonou o figurino moderado e retomou o repertório clássico do bolsonarismo mais duro
atualizado
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Havia lógica, e até alguma sofisticação política, na estratégia de Flávio Bolsonaro de se apresentar como a face mais moderada do bolsonarismo. Num país que permanece dividido praticamente ao meio, como reiteram sucessivas pesquisas de opinião, o centro de gravidade da disputa eleitoral deslocou-se para os eleitores independentes. Esse contingente, menos ideológico e mais pragmático, tornou-se o fiel da balança. Não se trata de um público entusiasmado, mas de um eleitorado que decide com base em percepções de estabilidade, previsibilidade e rejeição ao radicalismo. Em 2018, migrou para Bolsonaro; em 2022, para Lula. Agora, observa atentamente os dois principais contendores.
Os sinais de crescimento de Flávio nas pesquisas, a ponto de alcançar Lula em cenários de empate técnico, indicavam que sua candidatura começava a romper a bolha tradicional do bolsonarismo. Estudos qualitativos já apontavam que ele era percebido como o mais moderado entre os membros de sua família, alguém mais aberto ao diálogo e à negociação. Consolidava-se, assim, a imagem de um “bolsonarismo repaginado”, menos estridente, mais palatável, capaz de dialogar com setores que rejeitam tanto o lulismo quanto os excessos retóricos do passado recente.
Essa construção, no entanto, sofreu um abalo relevante durante sua participação na Conferência da Ação Conservadora (CPAC), em Dallas. Diante de uma plateia ideologicamente alinhada, Flávio abandonou o figurino moderado e retomou o repertório clássico do bolsonarismo mais duro. Ressuscitou a narrativa de fraude nas eleições de 2022, atribuindo a vitória de Lula a uma suposta intervenção externa, por meio de “uma enxurrada de dinheiro da USAID”, no governo Biden. Lançou dúvidas sobre a lisura do sistema eleitoral brasileiro ao afirmar que “se os votos forem contados corretamente, nós ganharemos a eleição”, e apelou para que os Estados Unidos monitorem a liberdade de expressão no Brasil e pressionem nossas instituições.
O efeito dessas declarações não é neutro. Elas recolocam em circulação dúvidas sobre o compromisso do bolsonarismo com as regras do jogo democrático, especialmente quanto à aceitação de resultados eleitorais adversos. A memória dos acontecimentos de 8 de janeiro ainda está viva, assim como os ataques reiterados às urnas eletrônicas e ao sistema eleitoral, amplamente reconhecido como confiável. Soma-se a isso a ausência de evidências concretas de interferência externa nas eleições brasileiras ou de atuação parcial do Judiciário. Ao tensionar esse terreno, o discurso introduz incerteza onde antes havia uma tentativa de moderação.
Ao reativar uma agenda que muitos consideravam superada, Flávio fala diretamente ao núcleo mais fiel de seu campo político, mas reabre dúvidas junto ao eleitor que buscava conquistar. Há um segmento expressivo do eleitorado cansado do governo Lula, mas igualmente avesso a aventuras antidemocráticas. Parte desse grupo começava a considerar sua candidatura como alternativa viável. A oscilação de discurso, nesse contexto, tende a produzir retração ou deslocamento para candidaturas percebidas como mais previsíveis, como a de Ronaldo Caiado.
O episódio de Dallas também revelou a persistência de um traço ideológico profundo do bolsonarismo: a leitura da política como um embate existencial entre forças antagônicas, frequentemente traduzidas na dicotomia entre “globalismo” e “conservadorismo”. Nesse enquadramento, complexidades geopolíticas são reduzidas a uma narrativa simplificada de conflito civilizacional. Ao ecoar esse registro, Flávio se aproxima mais do discurso radical de nomes como Ernesto Araújo do que da imagem moderada que vinha construindo. A dúvida sobre qual é o Flávio verdadeiro passa a integrar o cálculo do eleitor.
Além disso, ao defender um alinhamento automático com os Estados Unidos, abriu flanco para críticas relevantes. Em vez de um pragmatismo diplomático, que historicamente orientou a política externa brasileira, sua fala sugeriu uma postura de adesão. A ideia de que o Brasil deveria escolher um lado na disputa entre Estados Unidos e China ignora a tradição de autonomia estratégica do país e seus interesses econômicos diversificados. Ao propor que o Brasil seja solução para a dependência americana de minerais críticos, o discurso resvala em um tipo de “americanismo servil”, em tensão com o nacionalismo frequentemente invocado pelo próprio bolsonarismo.
Esse ponto é sensível porque oferece contraste político ao adversário. Se, em determinados momentos, Lula foi criticado por um antiamericanismo considerado simplificador, a retórica de Flávio pode ser percebida como o extremo oposto: uma disposição a alinhar-se automaticamente a interesses externos, mesmo quando isso colide com prioridades nacionais. Episódios recentes, envolvendo articulações de aliados do bolsonarismo junto a autoridades americanas, reforçam essa percepção.
A consequência desse tipo de movimento é previsível: a reativação da bandeira da soberania nacional em favor do campo governista. Quando o debate se desloca para a defesa de interesses nacionais frente a pressões externas, Lula tende a se beneficiar, muitas vezes mais por contraste do que por virtude própria. Em política, frequentemente vence quem oferece menos risco percebido.
É possível argumentar que o discurso em Dallas foi direcionado a uma plateia específica, voltado à mobilização da base mais fiel. Mas esse é precisamente o risco de uma estratégia segmentada: o que se diz para um público não permanece restrito a ele. Em um ambiente de circulação instantânea de informação, toda fala é potencialmente geral. A dissonância entre registros, um moderado para fora, outro mais radical para dentro, tende a corroer credibilidade.
No fim das contas, o episódio explicita uma ambiguidade central da candidatura de Flávio Bolsonaro. Há, de um lado, o político que busca se apresentar como conciliador, capaz de dialogar com diferentes setores e reduzir tensões. De outro, emerge o herdeiro de uma tradição política marcada pelo confronto, pela desconfiança institucional e por uma visão binária do mundo.
A questão que se coloca ao eleitor não é apenas retórica. Em um cenário de disputa apertada, a consistência entre discurso e posicionamento deixa de ser detalhe e passa a ser critério de decisão.
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Hubert Alquéres é presidente da Academia Paulista de Educação.


