Antártica: lembranças entre o passado e o futuro (por Mariana Caminha)
A Antártica tem esse poder de nos lembrar da fragilidade da vida e da força do tempo
atualizado
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Ainda era criança quando meu pai, o jornalista Edmílson Caminha, visitou a Antártica pela primeira vez, em 1992. Foi então que me dei conta desse continente tão fascinante e misterioso, ao mesmo tempo encantador e inacessível para quase todos.
Em dezembro daquele ano, lá foi ele, a bordo de um Hércules C-130 da FAB, acompanhado de cientistas, biólogos, um alpinista e outros colegas de profissão.
De lá para cá, muita coisa mudou por lá. Os efeitos da mudança climática tornaram-se cada vez mais evidentes — e dramáticos.
Com o derretimento acelerado das plataformas de gelo, cresce a preocupação com a elevação repentina e incontrolável do nível do mar. Entre 1970 e 2020, as temperaturas médias de verão na Península Antártica aumentaram mais de 3 °C.
Lembro-me das fotos que meu pai trouxe: ele cercado por pinguins.
Hoje, muitas dessas colônias estão reduzidas — algumas já desapareceram por completo, tamanha a transformação do ecossistema local.
O derretimento do gelo voltou às manchetes este ano, mas por um motivo inesperado. Em janeiro, com o recuo da neve, foi encontrada a ossada de um homem britânico desaparecido desde 1959.
Dennis “Think” Bell tinha apenas 25 anos quando caiu em uma fenda, enquanto trabalhava para a organização que hoje conhecemos como British Antarctic Survey. A equipe que encontrou seus restos mortais revelou um detalhe impressionante: o local da descoberta não corresponde ao ponto onde ele desapareceu. As geleiras, em movimento constante sob a força da gravidade, deslocaram lentamente sua massa de gelo — e, com ela, os restos de Dennis.
A Antártica tem esse poder de nos lembrar da fragilidade da vida e da força do tempo. Entre as lembranças do meu pai em meio aos pinguins e a história de Dennis Bell, que só reapareceu mais de seis décadas depois, fica a certeza de que esse continente em constante movimento guarda segredos, memórias e advertências. E que olhar para ele é também vislumbrar o nosso próprio futuro, cada vez mais moldado pelas mudanças que já não podemos ignorar.


