Agente Secreto, o paradoxo do horror e do belo (por Lucas Zinet)

Há um paradoxo entre a beleza estética do filme, suas músicas, figurinos, gírias, cenários e a violência, a brutalidade, o racismo

atualizado

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Tânia Maria, 79 anos, atriz de O Agente Secreto
1 de 1 Tânia Maria, 79 anos, atriz de O Agente Secreto - Foto: Divulgação

O novo filme do diretor pernambucano Kléber Mendonça Filho tem alcançado recordes de público, elogios da crítica e premiações nacionais e internacionais. Trata-se, sem dúvida, de um grande sucesso.

O filme é muito bem-sucedido em articular elementos estéticos com interpretações sobre a sociedade brasileira. Em outras palavras, há uma simbiose entre aspectos, por assim dizer, formais e questões sociais e políticas brasileiras que o diretor busca destacar.

Essa opção por si só, não é exatamente novidade. É comum na filmografia brasileira que filmes de alguma forma ofereçam interpretações sobre o Brasil. Mais ou menos ambiciosas, mais particulares ou mais generalistas, visões de diretoras e diretores sobre a sociedade brasileira recorrentemente compõem os filmes nacionais.

O Agente secreto certamente faz parte dessa prateleira, mas alcança um lugar mais interessante que a maioria. Acerta mais que a média nos temas que atravessa e que escolhe como centrais. A ambição aqui não é “traduzir o Brasil”, o que, diga-se de passagem, seria chato e provavelmente mal-sucedido. Ao contrário, a opção de Mendonça Filho faz do filme não um panfleto, nem uma denúncia, mas uma história profunda que revela tensões, contradições, belezas e permanências da nossa história.

Há, por assim dizer, um paradoxo entre a beleza estética do filme, suas músicas, figurinos, gírias, cenários e a violência, a brutalidade, o racismo que a história conta.

Esse paradoxo não é uma escolha voltada apenas à narrativa do filme, ao contrário, compõe uma leitura do diretor sobre o Brasil que, diferente do que se afirma muitas vezes, não se divide em dois: o violento e o belo, o truculento e o comovente. Há um convívio intenso e complexo dessas características em toda expressão política e cultural relevante que fomos capazes de produzir. Há mesmo um convívio dessas características em cada um de nós forjados nesse país.

Inclusive, Thereza Vitória, interpretada por Isabel Zuaa, expressa que essa amálgama em constante mudança “não é para todo mundo”. A refugiada angolana não se queixa apenas das expressões mais cruas da violência brasileira, mas da própria brutalidade que a festa, que o carnaval também reproduz.

É uma instigante provocação a quem olha o Brasil exaltando o que gosta e rechaçando o que não lhe convém, criando muros que interessam muito pouco a quem quer entender o que marca a vida social brasileira.

Essa dinâmica se expressa também de forma instigante em outro personagem do filme. O chefe da polícia que mata militantes políticos e adversários de toda sorte (e esconde seus corpos), também curte carnaval, anda com a camisa meio aberta e usa purpurina. Esse mesmo personagem se diverte com as cicatrizes de um sobrevivente da 2º guerra (que precisa fingir que não é judeu), transformando seu corpo em uma espécie de ponto turístico dos seus asseclas.

Um corpo que carrega a história da violência e do absurdo da guerra se transforma em graça, deixando de ser só do sobrevivente para ser um pouco também do policial. Evidentemente não é o caso de pensar que a violência seja exclusividade brasileira, ao contrário, é a busca de como ela se apresenta e ganha forma no Brasil que merece atenção da cultura, da política, enfim, da sociedade brasileira. Escravização, colonização, violência de Estado, são três aspectos da nossa formação que parece fazer a violência e o corpo sobre o qual ela é operada, algo ordinário, que pode ser objeto até de diversão.

Em Bacurau, o diretor também descreve um processo semelhante de espetacularização da barbárie quando os assassinatos cometidos pelo personagem de Thomas Aquino são compilados e viram vídeo no Youtube sendo assistidos incessantemente pelos moradores da cidade, mesmo que o personagem tenha reações de incômodo com a “peça audiovisual”.

É claro que há tradições e hábitos da nossa cultura que são mais positivos para a diversidade e humanidade da sociedade brasileira como as festividades populares de forma geral, o equívoco talvez seja achar que elas são raio em céu azul, que são uma espécie de oásis da nossa formação, livre de contradições típicas da nossa história.

Talvez, assim como Chico Buarque em Paratodos, Kleber Mendonça esteja buscando apresentar uma terra (nossa terra) de “Inferno e maravilhas” que andam juntas, não separadas.

Ainda no que diz respeito às dinâmicas sociais brasileiras que fazem parte do filme, a forma que a ditadura é abordada também não é usual. Um professor universitário que entra em choque com um empresário com cargo e influência no Estado é uma perspectiva pouco relatada sobre a ditadura e revela tensões (e lutas) na sociedade brasileira que não ocorrem apenas no regime militar.

O conflito central da história é interessante justamente porque contando a história da ditadura, conta a história do Brasil e de suas engrenagens patrimonialistas. O patrimonialismo é uma dinâmica de interação entre a classe dominante brasileira e o Estado, trata-se de uma prática que tem mudanças relevantes na sua morfologia a depender do tempo e do regime político, mas tem uma permanência histórica profunda no país. O escândalo do Banco Master, os governadores e mesmo membros do Supremo Tribunal Federal estão aí para provar.

O modo como esse patrimonialismo funciona para coibir e mesmo anular a produção científica e tecnológica do país é bem demonstrado nos embates entre Armando (Wagner Moura) e Henrique Ghirotti (Luciano Chirolli).

Trata-se de uma elite econômica que sabota o desenvolvimento do país em benefício próprio e utiliza o Estado para isso. Um setor social que não tem qualquer compromisso com um projeto nacional, ao contrário, tem uma lógica de saque em relação ao país e se identifica com um certo imaginário cultural e social norte-americano (como em Bacurau) ou europeu (como em O Agente secreto).

Essa mesma raia do filme, das dinâmicas patrimonialistas, revela ainda como a morte no Brasil é instrumento da disputa econômica e política. Ghirotti ao tratar com assassino de aluguel sobre a morte de Armando, demonstra familiaridade, negocia e faz pedidos peculiares para o serviço. Um serviço que, diga-se de passagem, é feito a partir de uma corrente de exploração em que cada elo terceiriza o serviço de morte e lucra em cima da vida alheia.

Em Os asperos tempos, de Jorge Amado, um banqueiro que está migrando para o setor da mineração, diz: “esse país é uma fazenda, e eu sou o capataz”. Essa frase é elucidativa de como colonização, dependência e imperialismo estruturam uma dominação de classe violenta em que a elite econômica não tem compromisso com país (presta obediência e submissão às burguesias internacionais) e por isso sabota seus projetos e mata quem ameaça seus lucros.

A memória em O Agente Secreto talvez seja o aspecto que mais dialoga com os filmes anteriores de Kléber Mendonça. Todos, de alguma forma, são atravessados pela tensão entre manutenção ou apagamento das histórias.

Em Bacurau, a todo momento os moradores da vila convidam os visitantes a conhecer o museu da cidade. Todos os convites são recusados, e é pela memória de luta daquele lugar, pelo que ele teve de violência social, que aqueles moradores resistem ao ataque estrangeiro. O museu, que guardava histórias, era também o lugar que guardava armas e foi o ponto central da resistência do povo de Bacurau – e o ponto fraco daqueles que não quiseram saber como viveram os que ali fizeram sua vida.

O mesmo ocorre em Aquarius, a personagem de Sônia Braga só enfrenta de vez a empresa imobiliária depois que descobre na sua história e de seus donos, o golpe fatal que ela aplicaria. Mais que isso, a batalha pela preservação do seu apartamento é também pelas memórias que viveu ali, pelo passado que ela cultiva e não quer ver apagado. Não à toa, o filme começa com uma festa naquela mesma casa, uma forma do diretor mostrar pelo que Sônia Braga iria lutar dali em diante no filme.

Até mesmo em Som ao Redor a relação entre passado e presente é central. A violência cometida contra o pai do personagem de Irandhir Santos e Nivaldo Nascimento é a motivação central de todo enredo do filme. Os seguranças privados que em parte tensionam e em parte acomodam as relações de vizinhança buscam na verdade a vingança da brutalidade cometida contra o pai no interior do Pernambuco anos antes.

Aqui talvez haja o olhar particularmente melancólico de O Agente Secreto, a falta de informação e depois o desinteresse do filho de Armando sobre a história do pai pode sugerir uma certa bronca com um país “sem memória”, mas a impressão que tenho é outra. Nessa reação de Fernando, Kleber Mendonça indica que a morte é sim um instrumento efetivo de violência política e econômica, que dificulta a compreensão do passado e a história das pessoas.

A apatia com que o filho do Armando escuta a história do pai não é um distanciamento, é parte da violação que ele foi submetido. Já adulto, com a “vida feita” é quando ele escuta pela primeira vez parte significativa dos fatos que levaram a vida de seu pai ser ceifada, esse tempo, esse hiato tem seu preço e é isso que uma certa frieza do personagem revela.

A produção cultural em países do chamado Sul global tem uma marca profunda de engajamento social (e político em alguma medida). Trata-se de uma das características que definiu caminhos da música, da literatura, do cinema e do teatro feitos nessa parte do mundo. Não à toa, inclusive, encontra adversários (na atual conjuntura é a extrema direita que odeia os artistas de forma geral).

Isso, evidentemente, não livra as obras de suas próprias contradições e limites, mas é uma “tradição” que deve ser saudada e estimulada, ainda mais diante dos atuais desafios de compreensão da crise social e política que nos vemos atolados.

 

Lucas Zinet é doutorando em Direito pela USP e professor da Anhembi Morumbi.  Artigo transcrito do Le Monde Diplomatique Brasil – https://diplomatique.org.br/

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