Abusos e insanidades (por Gaudêncio Torquato)

Bolsonaro ameaça com decreto para sabotar isolamento social e fala em guerra química da China

atualizado 09/05/2021 2:11

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A história da Humanidade é recheada de coisas e perfis extravagantes. O imperador Calígula nomeou senador seu cavalo de estimação. Diz-se que o sultão otomano Ibrahim I praticava arco e flecha nos servos de seu palácio e ainda mandava conselheiros à busca da mulher mais gorda para ser sua esposa.

O imperador romano Heliogábalo começou suas loucuras aos 17 anos. Com amantes de ambos os gêneros, usava mulheres nuas para carregá-lo enquanto estava em cima de uma carruagem, de onde as chicoteava. Certa ocasião, seus convidados foram amarrados a uma roda d’água, que girou lentamente e os afogou. O presidente do Turcomenistão, Turkmenbashi, dava seu nome aos dias da semana e, não satisfeito, construiu uma estátua dourada de 24 metros voltada para o sol.

Já o rei Sol, Luis XIV, desfilava no Palácio de Versalhes em um cavalo cravejado de diamantes. Seu compatriota, o rei francês Charles VI, imaginava ser feito de vidro. E Idi Amin Dada, o ditador de Uganda, garantia que conversava com Deus. Outros se consideravam deuses.

E por aí segue o desfile de excentricidades. Entre nós, o que mais se narra é sobre os escândalos da vida privada de um ou outro governante. Sabemos, por exemplo, que Pedro I dava vazão a mexericos. Disfarçado, saía à noite para a farra.

O fato é que, hoje, a estampa das coisas mirabolantes se volta para o cotidiano da política, principalmente na área do disse-que-disse, mentiras, versões e meias verdades. Flagremos a paisagem seca de Brasília. Na quarta-feira, o presidente Jair Bolsonaro chegou a insinuar que o vírus foi um instrumento da “guerra química” para propiciar a um país asiático crescimento econômico: “Qual o país que mais cresceu seu PIB? Não vou dizer para vocês. O que está acontecendo com o mundo todo, com sua gente e com o nosso Brasil?”

Desleixo, falta de sensibilidade, couraça de jacaré, diplomacia no lixo? Essas são expressões atiradas contra Sua Excelência, quando se sabe que a tese defendida por nosso mandatário é contestada por cientistas e pela própria OMS. O que o destampatório pode criar? Os chineses terão paciência para continuar aguentando os tiros do capitão?

Reaparece a recorrente hipótese: e se o presidente, defensor do tratamento precoce contra a Covid 9 à base de cloroquina, for também simpático ao conceito da “imunidade de rebanho”? Quanto mais cedo se chegar a essa imunidade, melhor seria para o governo, eis que as massas estariam naturalmente protegidas e os números de contaminação tenderiam a baixar. É triste ver que esse pensamento seja defendido por pessoas que enxergam os mais de 400 mil mortos como meros “CPFs cancelados”.

Se o presidente insiste em culpar a China nesse momento em que o principal parceiro comercial do Brasil é procurado por países que esperam por insumos e vacinas, é porque deve estar se lixando.

A linguagem presidencial, pelo visto, vai continuar a espalhar fagulhas. A fogueira está acesa. E ele, em vez de apagá-la com muita água, joga querosene. Resta pedir aos quadros do seu entorno que administrem o ímpeto presidencial. O decreto, que sinalizou, proibindo governadores e prefeitos de fechar serviços, é visto como descaso para com o próprio STF. Eles possuem esse direito.

O presidente garantiu que o decreto seria cumprido. E que ninguém ouse desobedecer. Alguma extravagância pela frente?

 

Gaudêncio Torquato é escritor, jornalista, professor titular da USP e consultor político