A universidade diante de um novo tempo (por Hubert Alquéres)
Crise na USP é expressão de tensões acumuladas em um sistema que precisa se reinventar diante das transformações do século XXI.
atualizado
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A recente ocupação da Reitoria da USP por estudantes trouxe novamente à superfície um debate que ultrapassa em muito os limites da universidade paulista. Mais do que um episódio localizado, ela expõe dilemas presentes no ensino superior no Brasil e em boa parte do mundo.
Durante décadas, as universidades operaram em ambiente relativamente estável. Formavam profissionais, produziam conhecimento e funcionavam como espaços privilegiados de mobilidade social, reflexão intelectual e formação das elites dirigentes. Esse papel continua fundamental. Mas o mundo mudou mais rapidamente do que muitas conseguiram acompanhar.
A reorganização das cadeias globais de produção, a revolução tecnológica impulsionada pela inteligência artificial, as novas disputas geopolíticas, a crise das democracias liberais, a aceleração dos fluxos de informação e as transformações do mercado de trabalho alteraram profundamente o lugar estratégico do conhecimento na economia e na política internacional.
Universidades deixaram de ser apenas instituições de ensino e pesquisa. Tornaram-se ativos fundamentais de inovação, competitividade econômica, soberania tecnológica e influência internacional. A ascensão chinesa talvez seja o exemplo mais eloquente dessa transformação. Nas últimas décadas, a China compreendeu que universidades fortes, pesquisa científica e capacidade tecnológica não eram apenas temas educacionais, mas instrumentos imprescindíveis de desenvolvimento, poder econômico e projeção geopolítica.
Ao mesmo tempo, as universidades do mundo ocidental passaram a enfrentar pressões crescentes relacionadas à inclusão social, financiamento, governança e qualidade acadêmica. Em vários países, o ambiente universitário transformou-se em espaço das disputas culturais e políticas contemporâneas. A polarização ideológica, as disputas identitárias e a crescente contestação das formas tradicionais de autoridade passaram a fazer parte da vida universitária.
Parte do desconforto atual da sociedade com as universidades decorre justamente da percepção de que muitas instituições se tornaram excessivamente burocratizadas, politizadas ou incapazes de responder com agilidade às mudanças que ocorrem no mundo. Em um ambiente internacional cada vez mais competitivo, universidades lentas, paralisadas por lógicas corporativas e pouco inovadoras tendem a perder relevância científica, econômica e social.
No Brasil, essas tensões aparecem de forma particularmente intensa. As universidades públicas continuam responsáveis pela maior parte da produção científica nacional e concentram boa parte da pesquisa de excelência do país. Mas convivem também com estruturas rígidas, dificuldades de gestão e crescente influência de agendas corporativas que frequentemente dificultam processos de modernização.
O sistema federal de ensino superior enfrenta problemas conhecidos: deterioração de infraestrutura, limitações orçamentárias, expansão acelerada sem correspondente fortalecimento institucional e dificuldades crescentes de sustentabilidade. Muitas universidades passaram a operar sob forte pressão financeira e administrativa, comprometendo sua capacidade de planejamento e inovação.
No setor privado, o quadro é igualmente heterogêneo. O Brasil possui instituições de excelência, algumas delas altamente inovadoras e academicamente consistentes. Mas convive também com expansão pouco criteriosa, proliferação de cursos e crescimento acelerado de modalidades de ensino a distância de baixa qualidade.
Mas talvez o maior problema seja outro: o Brasil ainda não definiu claramente qual universidade deseja construir para as próximas décadas.
Curiosamente, em um momento em que o país volta a discutir desenvolvimento econômico, produtividade, competitividade internacional e inserção global, o debate público ainda dedica pouca atenção ao papel estratégico das universidades. Em meio à polarização política permanente, temas decisivos como inovação, pesquisa científica, inteligência artificial, formação de capital humano e capacidade tecnológica continuam ocupando espaço secundário na agenda nacional.
A universidade contemporânea precisa combinar inclusão social, excelência acadêmica, capacidade de inovação e compromisso efetivo com os desafios concretos do país. Precisa formar profissionais para um mercado de trabalho em rápida transformação, mas também produzir conhecimento avançado, desenvolver tecnologia e contribuir para a formulação de respostas diante de problemas cada vez mais complexos.
Isso exige instituições menos burocráticas, mais flexíveis, abertas à cooperação internacional e capazes de dialogar simultaneamente com ciência, tecnologia, setor produtivo e políticas públicas. Exige também ambientes intelectualmente plurais, comprometidos com qualidade acadêmica e liberdade de pensamento, sem se deixarem capturar nem por agendas corporativas nem por formas simplificadoras de militância política. Sem isso, correm o risco de perder relevância justamente na economia do conhecimento que passa a definir o poder global.
A crise recente da USP deve ser lida nesse contexto mais amplo. Ela não representa apenas um conflito circunstancial entre estudantes e administração universitária. Funciona como expressão de tensões acumuladas em um sistema universitário que precisa se reinventar diante das transformações do século XXI.
O desafio brasileiro já não é apenas ampliar o acesso ao ensino superior. É construir universidades capazes de responder a um mundo no qual conhecimento, ciência e tecnologia passaram a definir riqueza, poder e influência internacional.
Universidades fortes deixaram de ser apenas instituições educacionais. Tornaram-se parte essencial da capacidade de futuro, inovação e soberania de um país.
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Hubert Alquéres é presidente da Academia Paulista de Educação


