A Ucrânia perante escolhas impossíveis (por Tiago Luz Pedro)

O plano de paz para a Ucrânia tenta traduzir em papel a capitulação que Moscou não conseguiu impor no campo de batalha

atualizado

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Andrew Harnik/Getty Images
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1 de 1 Imagem colorida de Trump e Zelensky - Foto: Andrew Harnik/Getty Images

A divulgação do plano de paz para a Ucrânia negociado entre enviados de Donald Trump e Vladimir Putin devolveu à guerra que se arrasta há quase quatro anos uma sensação de urgência que não se sentia há meses. Não apenas porque o documento de 28 pontos coloca a Ucrânia perante escolhas existenciais — ou abdica de parte da sua soberania ou arrisca-se a perder o apoio do seu aliado decisivo, os Estados Unidos —, mas porque é uma solução imposta, construída nas costas de Kiev e das capitais europeias, que aproximaria o continente do risco estratégico que há anos procura evitar.

Volodymyr Zelensky reconheceu-o com a sinceridade crua que se reserva aos grandes momentos de viragem: a Ucrânia aproxima-se de “decisões muito difíceis”. O plano, ainda em negociação, parte do princípio de que Kiev renunciará à soberania na Crimeia e no Donbass e aceitará limitações profundas à dimensão do seu Exército. Mais do que concessões tácticas, são cedências estruturais, que obrigariam a reescrever a Constituição e a redefinir o futuro estratégico do país.

Não admira, por isso, que a primeira reação em Kiev tenha sido de choque. A divulgação do documento — elaborado discretamente entre Steve Witkoff e Kirill Dmitriev, figuras próximas de Trump e Putin — deixou o Governo ucraniano perante a constatação amarga de que a “paz possível”, tal como hoje é formulada em Washington, tem um custo que ultrapassa qualquer negociação realista.

Importa, porém, olhar para o plano com a prudência que o próprio Zelensky tem tentado manter. Há nele elementos que respondem a necessidades óbvias: a urgência de um cessar-fogo, o financiamento da reconstrução e a promessa de uma coordenação internacional para evitar novas ofensivas russas. Mas estes aspectos coexistem com cláusulas desequilibradas — desde logo, o reconhecimento implícito do direito de conquista — que dificilmente podem ser aceites por um país invadido que perdeu mais de 14 mil civis e que insiste, com razão, que “os territórios ocupados não estão à venda”.

É verdade que a Ucrânia, fragilizada no plano interno por casos graves de corrupção, enfrenta um inverno militar difícil e que os avanços recentes das tropas russas estreitam o tempo político de Kiev. Mas é precisamente por isso que o plano agora divulgado é tão perigoso: porque tenta capitalizar a fadiga do Ocidente e a crise interna ucraniana para forçar concessões que nenhuma democracia submetida à agressão deveria aceitar.

O desafio para Kiev — e para os seus aliados — é não confundir pressa com solução. A Ucrânia precisa de paz, mas precisa sobretudo de uma paz que não legitime o uso da força nem cristalize injustiças irreversíveis. Numa guerra que se tornou também um teste ao futuro da ordem europeia, a busca de compromisso não pode servir de disfarce para a capitulação.

(Transcrito do PÚBLICO)

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