A trégua amarela (por Marcos Magalhães)

Há oito anos, por essa época, o amarelo da seleção brasileira já começava a ser sequestrado pelos admiradores de Jair Bolsonaro

atualizado

Compartilhar notícia

Chris Kleponis-Pool/Getty Images
imagem colorida de Jair Bolsonro com Donald Trump
1 de 1 imagem colorida de Jair Bolsonro com Donald Trump - Foto: Chris Kleponis-Pool/Getty Images

Deu uma ponta de saudade ver aquele mar de camisas amarelas nas cadeiras do Maracanã, antes do início do jogo de domingo. Saudade de um tempo, quando ainda havia arquibancadas, em que uma cor não seria capaz de dividir todo um país.

Pois no domingo estavam todos ali, de amarelo, para se despedir da seleção. Como se fosse uma onda de carinho a empurrar aqueles jogadores para o quase improvável sucesso nos campos da América do Norte.

Há oito anos, por essa época, o amarelo da seleção brasileira já começava a ser sequestrado pelos admiradores de Jair Bolsonaro. E as camisas da equipe nacional vestiam nove entre 10 eleitores do capitão tornado mito.

De lá para cá, o amarelo havia deixado de ser símbolo da união nacional. Ao contrário, era quase um uniforme do perfeito bolsonarista, aquele ser com ar superior que gostava de se exibir como bom patriota.

Nunca ficou bem claro por que ele seria um bom patriota. Mas a fama pegou. E os eleitores que não se haviam deixado contagiar pela alergia bolsonarista sentiam uma espécie de enjoo histórico ao ver nas ruas aquela mímica de fascismo.

Até há pouco, uma pessoa de esquerda precisava dizer uma ou duas palavras antes de vestir aquele uniforme bonito que nos levou a cinco vitórias na Copa do Mundo. Como se a explicar que se tratava só de futebol.

As câmeras de televisão não registraram nenhum entrevero na torcida no domingo. Com um pouco de otimismo, tudo pode mesmo ter sido harmônico entre os homens e mulheres de camisas amarelas. Mas a gente não sabe quanto tempo essa paz vai durar.

Quando for conhecido o novo campeão do mundo, as atenções do país vão se voltar de vez para as eleições de outubro. E mais uma vez os agora orgulhosos adeptos da direita radical farão do amarelo porta-voz de seu patriotismo.

Vai colar? No topo do altar dos ídolos dessa direita ressuscitada não está nenhum brasileiro, mas o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A quem a família Bolsonaro gosta de prestar continência e apoio incondicional.

Na língua da família, o conceito de patriotismo pode ser empregado para definir o sentimento que levou o senador Flávio Bolsonaro a pedir diretamente a Trump que classificasse como terroristas o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital.

O pedido foi prontamente atendido pelo ídolo americano, que apenas esqueceu de – pelo menos por cordialidade – informar o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, que o havia visitado apenas alguns dias antes.

O Bolsonaro filho celebrou a declaração de Trump como uma vitória política. E não viu no gesto americano nenhum risco à soberania brasileira. Ao contrário, seria um apoio do país mais poderoso do mundo à luta contra o crime.

Em seu Dicionário de Política (em adaptação livre), Norberto Bobbio classifica o terrorismo como estratégia usada por grupos ideologicamente homogêneos que atuam na clandestinidade e têm como objetivo disseminar o pânico pelo uso da violência.

As comunidades onde se instalam o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital certamente se sentem aterrorizadas pelos seus atos violentos. Mas o objetivo desses grupos é o de impor sua presença para ganhar dinheiro com o crime.

Não há ideologia ali. Nem o fanatismo que caracteriza muitos grupos terroristas. É difícil imaginar um criminoso brasileiro na cabine de comando de um avião sequestrado nos Estados Unidos em 9 de setembro de 2001.

Mesmo assim, o Brasil passou a entrar na mira das autoridades americanas. Segundo nota da embaixada dos Estados Unidos, divulgada na segunda-feira, as principais consequências serão financeiras e migratórias, como o congelamento de ativos de criminosos e o cancelamento de vistos.

Não se pode afastar, porém, o risco de infiltração de agentes no país. No limite, infiltração de tropas de elite similares às que sequestraram o então presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, capturado e levado preso aos Estados Unidos sob a acusação de narcoterrorismo.

O conceito de patriotismo dos bolsonaristas precisará se tornar bem mais elástico, para incluir essas novas possibilidades. Nada muito novo, porém, para quem já estendeu na avenida Paulista uma grande bandeira dos Estados Unidos na data de celebração da Independência do Brasil.

Quais assuntos você deseja receber?

Ícone de sino para notificações

Parece que seu browser não está permitindo notificações. Siga os passos a baixo para habilitá-las:

1.

Ícone de ajustes do navegador

Mais opções no Google Chrome

2.

Ícone de configurações

Configurações

3.

Configurações do site

4.

Ícone de sino para notificações

Notificações

5.

Ícone de alternância ligado para notificações

Os sites podem pedir para enviar notificações