A sábia lição de Miles Davis (por Mariana Caminha)

Miles transformava incerteza em criação. A transição climática exige exatamente isso

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Miles Davis
1 de 1 Miles Davis - Foto: Reprodução

Você provavelmente nunca ouviu falar em “música de queijo”, mas era assim que a minha irmã se referia ao jazz, presença constante na casa dos meus pais. Música de queijo porque, todo fim de semana, ao som de Miles Davis, John Coltrane ou Bill Evans, meu pai se deliciava com pequenos cubos de queijo, tira-gosto obrigatório para acompanhar a cervejinha, o livro e a trilha sonora que parecia transformar a sala em um clube enfumaçado de Nova York.

Li no New York Times que Miles Davis completaria 100 anos hoje, dia 26 de maio. Miles foi o rei da improvisação. Do bebop ao fusion, passando pelo cool jazz até a experimentação elétrica, passou a vida inteira se reinventando. Como músico, entendia algo essencial: sobrevivência depende de adaptação. E vocês provavelmente já perceberam aonde quero chegar.

Miles transformava incerteza em criação. A transição climática exige exatamente isso.

A analogia entre música e florestas pode parecer improvável à primeira vista, mas a verdade é que instrumentos são, literalmente, paisagens transformadas em som. Grande parte dos instrumentos tradicionais nasce de ecossistemas: ébano, jacarandá, mogno, spruce, maple. Violinos, violões, pianos e até instrumentos de sopro carregam dentro de si pedaços inteiros de florestas.

O problema é que as mudanças climáticas e o desmatamento já ameaçam tradições centenárias de fabricação de instrumentos ao redor do mundo. Madeiras nobres estão cada vez mais raras, alterações de umidade afetam instrumentos orquestrais e luthiers começam a enfrentar dificuldades para encontrar materiais historicamente utilizados. Quando as florestas desaparecem, a música também muda.

O jazz, aprendi com meu pai, é um ecossistema. O silêncio importa tanto quanto o som. Nenhum instrumento domina para sempre. Improvisação não é desordem; é adaptação coletiva. A natureza funciona de forma parecida. Talvez parte do fracasso das discussões climáticas venha justamente do fato de ainda insistirmos em pensar o planeta como máquina, e não como sistema vivo.

Miles Davis entendia isso intuitivamente. Ao tocar trompete, transformava literalmente a atmosfera em arte. Ar, pulmão, respiração. Talvez poucos instrumentos nos lembrem de forma tão clara que a civilização depende da qualidade do próprio ar.

Em seu centenário, Miles Davis nos oferece algo que vai além da música. Sua obra permanece como metáfora poderosa para adaptação, improvisação e resiliência em tempos instáveis. O século XXI está apenas começando a aprender aquilo que Miles já sabia há décadas: sobreviver também é saber improvisar.

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