A relação entre poder de compra e reeleição (por Leonardo Barreto)
A grande ameaça da inflação do diesel
atualizado
Compartilhar notícia

Um estudo da Kinitro Capital repercutiu no mercado na semana passada. Buscando explicar por que, apesar de indicadores econômicos positivos, em especial emprego e renda, a popularidade do presidente Lula está aquém do que poderia.
A tese majoritária é que ganhos recentes ainda não permitiram ao brasileiro recuperar o padrão de renda que ele tinha antes da pandemia. A comparação que o eleitor faz, portanto, não é deste governo com a gestão passada, mas do seu padrão de vida atual com o que ele tinha antes da Covid 19.
Seguem os principais tópicos para entender essa agenda:
1. Eles criaram um Índice de Custo de Vida – Alimentos (ICV-Alimentos), inspirado no conceito de affordability (poder de compra) que mede quantas cestas básicas uma pessoa consegue comprar com o que resta de sua renda após pagar compromissos financeiros;
2. Diferente da inflação oficial, ele foca na capacidade de compra real e na liquidez necessária para a segurança alimentar;
3. Com isso, embora a economia cresça, o poder de compra do brasileiro médio ainda não retornou aos patamares pré-pandemia (2014 ou 2019;
4. Segundo o estudo, a base da pirâmide, que foi abastecida com programas sociais, não sente essa situação e, não por acaso, formam a base de sustentação do governo;
5. A classe C e o trabalhador formal, no entanto, estaria 20% abaixo do status que tinha antes da Covid;
6. O exemplo dado é o preço do arroz, que se consolidou um patamar de preço 50% superior ao de 2019, o que neutraliza a percepção de melhora;
7. Para manter o consumo, as famílias recorreram ao crédito emergencial (cartão rotativo e cheque especial), elevando o comprometimento de renda a níveis recordes;
8. Os mais afetados são a Classe C, os aposentados e os trabalhadores formais;
9. Os trabalhadores informais escapam dessa armadilha, mas tendo que trabalhar mais, cerca de 45 horas semanais para compensar o custo de vida;
10. Para terminar, os autores do estudo propõem um modelo explicativo no qual a capacidade de comprar a cesta básica é o fator que mais pesa na popularidade: para cada 1% de perda no poder de compra de alimentos, o governo sofreria uma queda de 0,40 pontos percentuais na sua avaliação líquida em um trimestre.
O modelo confirma que governos conseguem ganhos artificiais de popularidade em anos eleitorais devido à injeção de recursos na economia. Mas o desemprego baixo não gera capital político se o salário não cobrir os custos do supermercado. Além disso, o eleitor tende a punir a inflação de subsistência mais do que a inflação de serviços.
Se essa lógica estiver correta, o perigo mais imediato para a reeleição de Lula é a inflação do diesel, que já subiu 24% desde o início da guerra do Irã e pode contaminar o preço dos alimentos no supermercado. Isso agravaria uma sensação de aperto que, segundo o estudo, já existe.
Leonardo Barreto, doutor em Ciência Política pela Universidade de Brasília.


