A propaganda de guerra também é mortífera (Por Carmo Afonso)

Não confundir jornalismo com o trabalho de quem está condicionado e perdeu a coragem que é exigida a um  jornalista

atualizado

Compartilhar notícia

Ali Jadallah/Anadolu via Getty Images
Corpos de pessoas mortas em ataque aéreo ao Hospital Batista Al-Ahli, são levados ao Hospital Al-Shifa na cidade de Gaza
1 de 1 Corpos de pessoas mortas em ataque aéreo ao Hospital Batista Al-Ahli, são levados ao Hospital Al-Shifa na cidade de Gaza - Foto: Ali Jadallah/Anadolu via Getty Images

É fascinante a escalada da propaganda de guerra. A tragédia no Hospital Árabe Al-Ahli foi uma oportunidade de verificar isso mesmo. Israel acusa a Jihad Islâmica. Mas também existe a versão que aponta para um rocket disparado pelo Hamas. O número de vítimas mortais também varia muito: de 500 passou, em algumas notícias, para algumas dezenas. As provas abundam: vídeos que mais tarde foram apagados, porque tinham uma referência horária não correspondente à da explosão mostravam que tinha sido um rocket disparado a partir da Palestina. Mas também apareceu a gravação de uma conversa entre dois terroristas interceptada pelos competentes serviços de Israel. Os dois homens lamentavam-se do azar que aquilo tudo tinha sido. Alguém, a partir do cemitério, disparou mal um rocket. Era fogo amigo. Israel, que não conseguiu interceptar conversa alguma que fizesse prever os terríveis ataques de dia 7, agora mostra-se mais eficiente.

A pressa de Israel em apresentar provas de que não foi sua a autoria dos bombardeamentos é enorme. Investigações jornalísticas já vieram pôr em causa a veracidade dessas provas, nomeadamente a da gravação da conversa que uma estação de televisão considerou fake. Isto não é chocante, é até bastante habitual em tempos de guerra. O que Israel está a fazer tem um nome e organizações palestinianas tentam fazer o mesmo: propaganda.

Lança-se ruído relativamente a factos que ocorreram. E funciona. Nem sequer é preciso convencer as pessoas ou os órgãos de comunicação social de que aquilo que estão a dizer é verdade. A propaganda faz efeito mesmo que não convença as pessoas e é por isso que vale sempre a pena investir em propaganda.

Reparem, se Israel vem dizer que não foi o autor do bombardeamento ao hospital e que já descobriu que os autores são jihadistas, duas coisas acontecem: por um lado, a comunicação social fica obrigada a relatar a versão de Israel, como aconteceu. Nem poderiam fazer de outra maneira; por outro lado, existem milhares ou milhões de pessoas que, muito mais do querer saber o que aconteceu, querem defender que não foi Israel. Essas pessoas usam todas as notícias que, de alguma forma, vão nesse sentido e partilham e divulgam-nas como se se tratassem de relatórios periciais. Conteúdos propagandísticos são usados como se fossem pareceres técnicos ou resultados de investigações sérias. A propaganda acaba por condicionar a narrativa dos factos e até por substituí-la.

Diria que esta tendência sempre existiu em tempo de guerra e que não teria sido muito diferente na II Guerra Mundial, se houvesse Internet. Agora é avassalador. Não é só no lado de Israel. Várias organizações palestinianas trabalham intensivamente na revelação do que se passa na Faixa de Gaza e claro que é propagandístico o teor das suas partilhas.

O resultado desta profusão de propaganda é que quem quer informar-se não consegue. Lamentavelmente digo que esse grupo não será maioritário e que a maioria das pessoas tomou um lado nesta guerra e procura, sim, informação que valide essa escolha. Mas, mesmo que fossem meia dúzia, teriam direito à informação.

Apenas o jornalismo pode ter um papel aqui. É o jornalismo que pode investigar a verdade dos factos, é ele que tem a vocação natural de não temer revelá-la. Não confundir jornalismo com o trabalho inquinado de quem defende um dos lados e decidiu fechar os olhos ao que se passa no outro. Ver jornalistas a carregar sempre na mesma tecla é penoso. A realidade nunca é assim. Não confundir também com o trabalho de quem está condicionado e perdeu a coragem que é exigida a um jornalista ou a quem dirige um órgão de comunicação social.

Se o jornalismo não estiver disposto a salvar-nos desta cortina de fumo, estaremos perdidos. A desinformação será a regra. O tribalismo feroz a consequência. E esta percepção – de que não podemos confiar naquilo que lemos e vemos – é mortífera para a vida em democracia. Hoje em dia usa-se e abusa-se da tal “crise na democracia”. Tudo leva a ela e tudo é filho dela. Mas aqui abram uma exceção para a irritação que a designação previsivelmente vos provocará e levem isto a sério. Uma sociedade ansiosa, porque vivemos duas guerras no mundo ocidental, e alimentada a propaganda, não vai correr bem. Os ódios viscerais tomarão conta das pessoas, a irracionalidade está na fila para entrar em cena.

Estimamos mal os jornais e os jornalistas para a falta que fazem. Claro que há mau jornalismo. Mas também há más escolas e não podemos acabar com o ensino. Não é desculpa. A verdade é que estamos à mercê daquilo que o jornalismo for capaz de fazer por nós.

(Transcrito do PÚBLICO)

Quais assuntos você deseja receber?

Ícone de sino para notificações

Parece que seu browser não está permitindo notificações. Siga os passos a baixo para habilitá-las:

1.

Ícone de ajustes do navegador

Mais opções no Google Chrome

2.

Ícone de configurações

Configurações

3.

Configurações do site

4.

Ícone de sino para notificações

Notificações

5.

Ícone de alternância ligado para notificações

Os sites podem pedir para enviar notificações

metropoles.comBlog do Noblat

Você quer ficar por dentro da coluna Blog do Noblat e receber notificações em tempo real?