A propaganda de guerra também é mortífera (Por Carmo Afonso)
Não confundir jornalismo com o trabalho de quem está condicionado e perdeu a coragem que é exigida a um jornalista
atualizado
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É fascinante a escalada da propaganda de guerra. A tragédia no Hospital Árabe Al-Ahli foi uma oportunidade de verificar isso mesmo. Israel acusa a Jihad Islâmica. Mas também existe a versão que aponta para um rocket disparado pelo Hamas. O número de vítimas mortais também varia muito: de 500 passou, em algumas notícias, para algumas dezenas. As provas abundam: vídeos que mais tarde foram apagados, porque tinham uma referência horária não correspondente à da explosão mostravam que tinha sido um rocket disparado a partir da Palestina. Mas também apareceu a gravação de uma conversa entre dois terroristas interceptada pelos competentes serviços de Israel. Os dois homens lamentavam-se do azar que aquilo tudo tinha sido. Alguém, a partir do cemitério, disparou mal um rocket. Era fogo amigo. Israel, que não conseguiu interceptar conversa alguma que fizesse prever os terríveis ataques de dia 7, agora mostra-se mais eficiente.
A pressa de Israel em apresentar provas de que não foi sua a autoria dos bombardeamentos é enorme. Investigações jornalísticas já vieram pôr em causa a veracidade dessas provas, nomeadamente a da gravação da conversa que uma estação de televisão considerou fake. Isto não é chocante, é até bastante habitual em tempos de guerra. O que Israel está a fazer tem um nome e organizações palestinianas tentam fazer o mesmo: propaganda.
Lança-se ruído relativamente a factos que ocorreram. E funciona. Nem sequer é preciso convencer as pessoas ou os órgãos de comunicação social de que aquilo que estão a dizer é verdade. A propaganda faz efeito mesmo que não convença as pessoas e é por isso que vale sempre a pena investir em propaganda.
Reparem, se Israel vem dizer que não foi o autor do bombardeamento ao hospital e que já descobriu que os autores são jihadistas, duas coisas acontecem: por um lado, a comunicação social fica obrigada a relatar a versão de Israel, como aconteceu. Nem poderiam fazer de outra maneira; por outro lado, existem milhares ou milhões de pessoas que, muito mais do querer saber o que aconteceu, querem defender que não foi Israel. Essas pessoas usam todas as notícias que, de alguma forma, vão nesse sentido e partilham e divulgam-nas como se se tratassem de relatórios periciais. Conteúdos propagandísticos são usados como se fossem pareceres técnicos ou resultados de investigações sérias. A propaganda acaba por condicionar a narrativa dos factos e até por substituí-la.
Diria que esta tendência sempre existiu em tempo de guerra e que não teria sido muito diferente na II Guerra Mundial, se houvesse Internet. Agora é avassalador. Não é só no lado de Israel. Várias organizações palestinianas trabalham intensivamente na revelação do que se passa na Faixa de Gaza e claro que é propagandístico o teor das suas partilhas.
O resultado desta profusão de propaganda é que quem quer informar-se não consegue. Lamentavelmente digo que esse grupo não será maioritário e que a maioria das pessoas tomou um lado nesta guerra e procura, sim, informação que valide essa escolha. Mas, mesmo que fossem meia dúzia, teriam direito à informação.
Apenas o jornalismo pode ter um papel aqui. É o jornalismo que pode investigar a verdade dos factos, é ele que tem a vocação natural de não temer revelá-la. Não confundir jornalismo com o trabalho inquinado de quem defende um dos lados e decidiu fechar os olhos ao que se passa no outro. Ver jornalistas a carregar sempre na mesma tecla é penoso. A realidade nunca é assim. Não confundir também com o trabalho de quem está condicionado e perdeu a coragem que é exigida a um jornalista ou a quem dirige um órgão de comunicação social.
Se o jornalismo não estiver disposto a salvar-nos desta cortina de fumo, estaremos perdidos. A desinformação será a regra. O tribalismo feroz a consequência. E esta percepção – de que não podemos confiar naquilo que lemos e vemos – é mortífera para a vida em democracia. Hoje em dia usa-se e abusa-se da tal “crise na democracia”. Tudo leva a ela e tudo é filho dela. Mas aqui abram uma exceção para a irritação que a designação previsivelmente vos provocará e levem isto a sério. Uma sociedade ansiosa, porque vivemos duas guerras no mundo ocidental, e alimentada a propaganda, não vai correr bem. Os ódios viscerais tomarão conta das pessoas, a irracionalidade está na fila para entrar em cena.
Estimamos mal os jornais e os jornalistas para a falta que fazem. Claro que há mau jornalismo. Mas também há más escolas e não podemos acabar com o ensino. Não é desculpa. A verdade é que estamos à mercê daquilo que o jornalismo for capaz de fazer por nós.
(Transcrito do PÚBLICO)


