A Petrobras multinacional (por André Gustavo Stumpf)

O país vende petróleo bruto e importa gasolina, diesel e outros produtos. Tudo em dólar. Mas, quanto mais exporta, mais reais ele recebe

atualizado

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Divulgação/Petrobras
Petrobras Biocombustíveis
1 de 1 Petrobras Biocombustíveis - Foto: Divulgação/Petrobras

Já houve um tempo no Brasil, nos anos 70, do século passado, em que o petróleo era produto escasso e caro, muito caro. Os principais países produtores, se reuniram numa associação (Opep) e decidiram aumentar o valor do barril de petróleo, que passou de US$ 2,90 para US$11,65 no espaço de três meses.

Esta decisão unilateral provocou o caos nas principais economias do mundo. Na Europa, os países entraram em recessão e os carros ficaram na garagem. Nos Estados Unidos também os automóveis ficaram recolhidos à sua insignificância. E a economia desabou.

No Brasil, o presidente Geisel tomou medidas drásticas. Determinou o fechamento, a partir de 18 horas, dos postos de combustíveis nas cidades. E ao longo das estradas das 22 horas até as 06.00 horas. Mais ainda: o governo instituiu o racionamento, que na prática, era um cartão que informava a quantidade de gasolina que o cidadão poderia utilizar durante o mês.

Sem apresentar a simoneta (homenagem irônica ao ministro Mário Henrique Simonsen, da Fazenda) ninguém conseguia abastecer o veículo.

Naquela época, como agora, as pessoas lamentavam a constante elevação do dólar. Era uma tragédia diária. O preço do barril de petróleo também era um pesadelo. Existia, naquele tempo, a chamada conta-petróleo, que relacionava os números da importação brasileira deste minério viscoso que movimenta a indústria em todo mundo.

A Petrobras produzia cerca de 500 mil barris/dia, mas o consumo nacional exigia mais 700 mil. A consequência óbvia era a obrigação de negociar, todos os dias, a importação do ouro negro.

O álcool anidro, agora chamado de etanol, foi elevado à categoria de combustível para veículos automotores. Surgiram os carros a álcool, alternativa brasileira, genuína, para substituir a gasolina. A novidade decorreu do trabalho do então Ministro da Indústria e Comércio, Severo Gomes, e do professor Ernesto Urbano Stumpf, que apesar do sobrenome não é meu parente, criador deste novo combustível.

Solução interessante que não alcançou o sucesso esperado pela pressão do lobby das petroleiras estrangeiras e dos agricultores que, em algumas ocasiões, preferem lucrar com o açúcar e não com o álcool.

Hoje os tempos são muito diferentes. O Brasil é autossuficiente em matéria de petróleo. Produz cerca de três milhões de barris /dia, consome menos do que isso. Exporta bastante, dia a dia, mês a mês. O brasileiro vive agora o que foi o sonho dourado de quem sofreu a crise dos anos setenta.

A disparada do dólar é muito favorável ao governo e aos brasileiros. A Petrobras exporta quase a metade do que produz. A capacidade de refino dentro do país é inferior à produção. Então o país vende petróleo bruto e importa gasolina, diesel e outros produtos. Tudo em dólar. Mas, quanto mais exporta, mais reais ele recebe.

O aumento do preço do barril de petróleo, que chegou a US$ 80 por unidade, é extremamente favorável aos brasileiros. O custo médio da extração do barril no pré-sal está em torno de US$ 6. A diferença entre o custo de produção e o preço de venda é expressiva e indica que a operação gera vultosos recursos para o país. A importação tem custos em dólar. Mas não chega perto da antiga conta-petróleo.

No entanto, o discurso oficial é que o aumento do dólar, consequência da instabilidade política, e a elevação do preço do barril de petróleo no mercado internacional estão provocando enormes problemas para a economia nacional. A inflação está à vista de todos. Alguma coisa está fora do lugar.

O Brasil de hoje produz mais petróleo do que alguns países árabes. Nem vale a pena comparar com a produção da Venezuela que já foi de quatro milhões de barris/dia e hoje anda pela casa de 500 mil. E o Brasil possui reservas internacionais em torno de 350 bilhões de dólares.

É verdade que o preço da moeda norte-americana influi na economia brasileira. Mas é também verdade que o lucro das transações com o exterior gera enorme fluxo de dólares para o país. Este dinheiro pode ser utilizado para subsidiar o preço interno do combustível. É razoável que a Petrobras contribua para aliviar o bolso do brasileiro com o vale gás. E com alguma ação para reduzir o preço dos combustíveis. Afinal de quem é o petróleo?

Ou pertence aos brasileiros ou é propriedade dos acionistas da Petrobras. Se a empresa se comportar como uma multinacional, deixará de cumprir sua função social. Neste caso, é melhor privatizá-la, abrir o mercado para nacionais ou estrangeiros e buscar o melhor preço para os consumidores. O governo precisa resolver o dilema existencial da petroleira brasileira.

 

André Gustavo Stumpf escreve no Capital Político. Formado em Direito pela Universidade de Brasília (UnB), onde lecionou Jornalismo por uma década. Foi repórter e chefe da sucursal de Brasília da Veja, nos anos setenta. Participou do grupo que criou a Isto É, da qual foi chefe da sucursal de Brasília. Trabalhou nos dois jornais de Brasília, foi diretor da TV Brasília e diretor de Jornalismo do Diário de Pernambuco, no Recife. Durante a Constituinte de 88, foi coordenador de política do Jornal do Brasil. Em 1984, em Washington, Estados Unidos, obteve o título de Master em Políticas Públicas (Master of International Public Policy) com especialização política na América Latina, da School of Advanced International Studies (SAIS). Atualmente escreve no Correio Braziliense. ⠀

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