A operação que dividiu o país e expôs o caos (por Tatiana Nascimento)

A operação no Rio escancarou não só a violência, mas a falência de políticas que enxergam vidas como números

atualizado

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Tercio Teixeira/Metrópoles
Mortos na operação no Complexo da Penha - Metrópoles
1 de 1 Mortos na operação no Complexo da Penha - Metrópoles - Foto: Tercio Teixeira/Metrópoles

“Bandido bom, é bandido morto.” Quantas vezes ouvi essa frase quando trabalhava como repórter no Rio de Janeiro. Uma frase infeliz, na minha humilde opinião. Depois da trágica operação policial realizada nos Complexos da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro, no último dia 28, a “polarização” do Brasil ficou ainda mais evidente. De um lado as pessoas que criticavam a ação da polícia; de outro, os que classificavam os policiais como heróis. Uma divisão que reflete a radicalidade política estabelecida no país, como se esquerda fosse sinônimo de Lula e direita, de Bolsonaro, como se as ideologias fossem restritas a apenas dois nomes.

Diante de dezenas de corpos estendidos no chão, a guerra estabelecida nas redes sociais era entre os que aplaudiam e os que condenavam a cena chocante que correu o mundo.

Eu não consigo comemorar, nem considerar sucesso, uma operação em que morrem quatro policiais e mais de 120 pessoas, mesmo que a maioria delas tivesse ligação com o crime. Ainda assim, aquela imagem não é motivo de aplauso, mas de tristeza.

Muitos disseram: “Ser bandido é uma escolha.” Sim, é uma escolha, mas nem sempre. É muito confortável afirmar isso quando se vive com oportunidades, perspectivas e acesso às condições básicas que todo ser humano precisa. Essa não é, infelizmente, a realidade da maioria dos moradores de favelas. Falta saneamento, saúde, escola, segurança, cuidado, falta a presença do Estado.

Diversos estudos sobre violência no Brasil apontam que, para muitos jovens, o crime surge como uma “oportunidade” ainda na infância. Uma criança de sete ou oito anos não escolhe o caminho do tráfico, ela pode ser conduzida pelas circunstâncias do meio em que se encontra. Grande parte das mulheres que vivem em favelas no Rio trabalha como empregada doméstica. Elas saem de casa nas primeiras horas da manhã e voltam à noite. Durante esse período, onde ficam os filhos? O certo seria que estivessem em creches ou escolas, mas onde e como estão as creches e as escolas nas favelas? Enquanto os governos exigirem o que não oferecem, os cem bandidos mortos hoje, se tornarão duzentos, trezentos amanhã. Isso resolve o problema? Por trás de cada corpo que o mundo viu estendido no chão, há uma história de descaso e desigualdade que começou antes do crime.

Por tudo isso, não consigo comemorar o resultado da operação do governo do Rio de Janeiro. Morreram policiais e “bandidos” pobres, os soldados pequenos que o tráfico de drogas alimenta. Os considerados “chefes” do crime organizado escaparam. Quem conhece a realidade carioca sabe: os maiores bandidos, aqueles que sustentam e promovem a entrada de drogas e armas nas favelas não vivem nessas comunidades. Os territórios são disputados por traficantes e milicianos – bandidos que já vestiram ou ainda vestem fardas – e o negócio lucrativo do crime permanece. Morrem os miseráveis; salvam-se os poderosos.

Morei 21 anos no Rio de Janeiro e, como repórter, sobrevoei a cidade ao vivo no Globocop durante a invasão das forças de segurança à Vila Cruzeiro e depois ao Complexo do Alemão, em 2010. Algo mudou de lá pra cá? Naquela época os bandidos fugiram e a polícia “ocupou” a área com apoio do Exército e da Marinha. Mas ocupação sem ação social não é solução, e a prova disso está no que vimos na última grande operação nessa mesma região.

Este artigo não pretende defender criminosos nem atacar a polícia. É evidente que, em um confronto entre um traficante armado e um policial, que sobreviva o policial, mas essa não é a questão. A crítica vem da ausência de políticas que não se resumam a tiros e mortes. Enquanto muitos se chocaram com as imagens dos corpos expostos lado a lado na favela, outros criticaram os moradores que retiraram as roupas camufladas de alguns desses mortos. Mas eu pergunto: quem retiraria aqueles corpos da mata? Coube aos próprios moradores a tarefa de procurar e arrastar os corpos de parentes, de filhos…

Não há paz possível diante de cenas como as que vimos. Pessoas tratadas como lixo, moradores que viram o lugar onde vivem transformado em cenário de morte e abandono. Imagine as crianças que presenciaram aquele horror. Onde está a esperança? Não, eu não entendo como alguém pode considerar essa operação um sucesso. Ali, além dos corpos, o que estava exposto era o nosso fracasso. A cidade mais famosa do Brasil, e uma das mais lindas do mundo, revelou o seu caos, uma sociedade falida, marcada pela desigualdade e pela falta de humanidade.

 

(Transcrito do PÚBLICO-Brasil)

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