A oligopolização da economia e da política (por Ricardo Guedes)

Estudo do Banco UBS mostra que 2.500 pessoas no mundo concentram em patrimônio, o equivalente a 12% do PIB mundial

atualizado

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Steve Raymer/Getty Images
Um trabalhador de paletó e gravata no distrito financeiro de Londres, frequentemente chamado de The City, lança um olhar de desdém para um morador de rua em frente à Royal Exchange, fundada em 1565 como centro comercial de Londres. Metrópoles
1 de 1 Um trabalhador de paletó e gravata no distrito financeiro de Londres, frequentemente chamado de The City, lança um olhar de desdém para um morador de rua em frente à Royal Exchange, fundada em 1565 como centro comercial de Londres. Metrópoles - Foto: Steve Raymer/Getty Images

Uma das poucas certezas que podemos ter, no momento, é que aquilo que o Europeu chamava de “o povo”, e aquilo que o Anglo Saxão chamava de “o cidadão”, dançaram. A Revolução Francesa, e a Constituição Americana do “We the People”, esvaíram em seus conteúdos e propósitos. Hoje, a economia está mais oligopolizada, e a política, por decorrência, também. Poucas pessoas mandam no “money” e no “politics”.

Na economia, os ideais de Adam Smith, de que o mercado traria a distribuição de renda e prosperidade para todos, falharam. Até 1980, o crescimento da economia capitalista foi redistributivo entre as classes sociais. De 1980 para cá, entretanto, a participação relativa no PIB mundial das classes médias e baixas diminuiu significativamente, conforme o “World Inequality Report”. Como exemplo, o americano que ganhava US$ 3 mil mês em 1960 ganha hoje US$ 3,1 mil mês corrigidos pela inflação, enquanto o PIB dos Estados Unidos cresceu de US$ 0,5 trilhão para US$ 29 trilhões, no mesmo período. Hoje, estudo do Banco UBS mostra que 2.500 pessoas no mundo concentram em patrimônio, o equivalente a 12% do PIB mundial.

Na política, a democracia e o “Contrato Social” de Rousseau também falharam, na representatividade e mediação dos interesses que iria gerar a redistribuição da renda. A expectativa era a de que os melhores valores da sociedade seriam eleitos, em prol das classes e grupos sociais, o que não ocorreu. Hoje, o grau de concentração política devido ao aparato de controle e repressão é tão grande, que todos os movimentos em prol da representatividade são facilmente controlados e reprimidos.

Por volta de 1848, com a edição do Manifesto Comunista, no adensamento da Revolução Industrial, os movimentos sociais eram mais difíceis de serem contidos. Já no Prefácio da edição do Manifesto Comunista de 1872, Marx e Engels afirmavam que “Embora os princípios gerais deste Manifesto conservam, ainda hoje, a sua plena correção, este programa está hoje, de certa forma, antiquado, devido ao imenso desenvolvimento da grande indústria, e à (derrota) da Comuna de Paris”. O próprio desenho da planta de Paris de 1853 a 1870, de Napoleão III, na concepção de uma rede simétrica e centralizada de largas avenidas, facilitava a rápida locomoção e intervenção em rebeliões populares. A Primeira Internacional de 1866 na Inglaterra seguiu a linha reivindicatória do sindicalismo, e a Segunda Internacional de 1889 em Paris veio a resultar na Social Democracia, nos termos de Kautsky, da negociação e alternância entre as classes com benefícios para a classe trabalhadora, em oposição às propostas de revolução de Rosa Luxemburgo. Os experimentos socialistas da União Soviética e de outros países falharam, com a negociação, ao invés da radicalização, como o único caminho a se seguir.

Mas o capital levou à exacerbada concentração de renda.

Hoje, os movimentos sociais “de baixo para cima” são rapidamente controlados, tal o grau de rapidez das decisões e da capacidade de repressão dos governos, na plenitude do controle. E diante das crescentes limitações ecológicas, o poder se exacerba.

No Brasil, nem se fala, na mais completa inversão da ordem democrática, no preceito do velho ditado de que “manda quem pode, obedece quem tem juízo”.

O controle é completo. A não ser que o sistema à frente se auto imploda, chegando à situação descrita no filme “The Omega Man”, de Boris Sagal com Charlton Heston, de 1971, onde hordas desfiguradas de humanos cercam a elite sobrevivente em ambiente de completa deterioração.

Estamos mal.

 

Ricardo Guedes é Ph.D. em Ciências Políticas pela Universidade de Chicago e Autor do livro “Economia, Guerra e Pandemia: a era da desesperança”  

 

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