A nova economia do medo (por Roberto Caminha Filho)

Até as pracinhas que o Ronnie Von cantava, estão cheias de cercas…

atualizado

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Hugo Barreto / Metrópoles
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1 de 1 Arma - Metrópoles - Foto: Hugo Barreto / Metrópoles

Se o meu Brasil fosse uma empresa, o setor que mais cresce não seria o agronegócio, nem a indústria de chips, nem o turismo de novíssimos aposentados europeus, todos procurando o calor tropical do Nordeste do Brasil como a coisa mais linda e mais barata do mundo. O campeão absoluto seria outro: o mercado do medo. E não é força de expressão: é número, é tendência, é puro negócio — com margem maior que muita fintech por aí.

Violência sempre existiu, claro! Mas, ultimamente, ela virou ativo econômico. A sensação de insegurança virou produto vendável. Na prática, o medo ganhou CNPJ. O medo, hoje, tem como seu maior aliado, a tecnologia, fartamente usada nas grandes cidades e condomínios de luxo.

O Mestre Bob Fields já dizia, com a elegância ácida de um economista que enxergava, na frente dos outros mortais, o nosso incrivel e querido Brasil: “Onde o Estado falha, o mercado avança.”

Pois o mercado avançou, multiplicou e já está no lucro. Segurança privada cresce mais rápido que o PIB, mais rápido que a renda e, certamente, mais rápido que a paciência do contribuinte. Hoje o país instala câmeras, cercas elétricas, biometria, porteiros virtuais, blindados e, muito em breve, os já baratíssimos drones, para acompanhar o sagrado pipi do cachorro, no passeio noturno.

Viramos uma infernal, colorida e horrorosa colcha de caríssimas grades.
Condomínios parecem fortalezas medievais. Até as pracinhas que o Ronnie Von cantava, estão cheias de cercas. E o visitante precisa liberar RG, CPF e talvez até tipo sanguíneo para entrar.

A economia do medo tem três pilares muito eficientes:

1. Violência real   2. Violência imaginada   3. Lucro sobre ambas

É justamente nesse momento que surge o nosso doce problema:
quando o medo vira negócio, ninguém no mercado tem interesse em resolvê-lo totalmente. Aqui para nós e que ninguém nos ouça: pelo vil metal, o desinteresse passa a mandar nas nossas melhores iniciativas.

Mas há caminhos — e o exemplo mais comentado do mundo de hoje é o exportado, até como negócio, o de El Salvador.

Há poucos anos, o país era praticamente refém das gangues. Hoje, sob a presidência de Nayib Bukele, a taxa de homicídios despencou tanto que muitos acharam ser erro de planilha. E não foi milagre. Foi, apenas, uma sábia decisão política.

Mas é aqui que o meu querido Brasil com S, precisa respirar fundo e entender, muito bem entendidinho, a sua própria alma bondosa.
Bukele, talvez erre, quando amontoa presos em cercados, chamados de megacomplexos carcerários pelos maiores especialistas.

O Brasil, ao contrário, já possui cinco penitenciárias federais de segurança máxima, espalhadas, discretamente, pelo território nacional — e quase ninguém sabe como funcionam. São unidades modernas, controladas, de isolamento absoluto, que não permitem celulares, comando remoto de facções, vídeos ao vivo de dentro da cela nem qualquer glamour criminoso para redes sociais.

Acredito termos a infraestrutura que evitaria grande parte do péssimo e inescrupuloso espetáculo sobre o chamado crime organizado.  O problema não é de possuirmos a mega estrutura para a realização.
É uso. É vontade política. É coordenação.

E, principalmente, é uma diferença de identidade: A alma brasileira não comporta superencarceramento em massa, nem prisões-depósitos.  Nossa vocação é outra: é eficiência, não pelo cruel amontoamento.  É controle, não crueldade.

Se existe algo em que o Brasil poderia, sim, sair na frente de Bukele, é justamente aqui, neste pormenor, onde poderemos ser o diferencial: Utilizar plenamente o que já tem — e que funciona — sem precisar importar métodos incompatíveis com a nossa Constituição, cultura e sociedade.

O caminho é conhecido e possível: 1. Polícia treinada e bem paga  2. Justiça totalmente eficiente  3. Urbanismo inteligente  4. Educação transformadora e presente  5. Tecnologia pública disponível  6. Ação integrada entre os governos.

Enquanto isso não acontece, seguimos pagando a conta da câmera, da cerca, da blindagem e da sensação de insegurança.

É bom que comecemos esse trabalho, ainda ontem, pois, as “palavras verdadeiras” da autoridade alemã, durante a COP 30, na cidade de Belém, Estado do Pará, porta de entrada para o Brasil pela Amazônia, poderá trazer uma crescente diminuição ao nosso fluxo turístico para toda a nossa terra. E nós não precisamos disso.

A economia do medo cresce.  Mas não deveria ser eterna.  Não se combate violência com álibi.  Se combate com Estado — funcionando. Em triste e recente episódio, no lindíssimo e desamparado Rio de Janeiro, a população bondosa e gozadora desse Estado, ficou ao lado da ação policial do Governador, talvez por não suportar tantos desmandos nos locais mais esquecidos do Rio. Foi um episódio a ser muito estudado pelos experts em Segurança e Cidadania. Na COP, pelas palavras do alemão, o Brasil deve ser esquecido.

Roberto Caminha Filho, economista, ainda verá, no Brasil, um destino paradisíaco para turistas trazerem dólares para nós.

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