A insustentável leveza do carro elétrico (por Lucio Reiner)
Carro elétrico é apresentado como a pedra filosofal que vai redimir o mundo do aquecimento global e da poluição.
atualizado
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O carro elétrico é apresentado, ad nauseam, como a panaceia, a pedra filosofal que vai redimir o mundo do aquecimento global e da poluição. Vamos poder continuar consumindo, graças a que rodaremos com energia limpa, nada de contaminar, um futuro róseo nos aguarda. Basta trocar nossos atuais veículos à combustão por esses símbolos do progresso e da consciência ecológica que são os carros elétricos.
Existe um axioma pétreo: Cada vez que se anuncia uma solução fácil para um problema complexo essa solução é falsa. E não poderia ser diferente agora. Os fatos costumam atrapalhar os devaneios. Vamos examinar a realidade, não a fantasia marketeira. No Brasil existiam, em 2024, 72.000.000 de veículos. E, todo anos, esse número aumenta pela matrícula de veículos novos (1,9 milhão de veículos de passeio em 2024), aliado ao fato que a idade média dos carros no Brasil é de 11 anos o que, é bem verdade, corresponde à média europeia. Se essa imensa frota fosse 100% elétrica, qual seria a necessidade de expansão da produção e distribuição de energia necessárias para dar conta desse aumento de demanda?
E vamos desconsiderar o aumento do consumo de energia em geral que costuma crescer mais do que o PIB. Consideremos um prazo de 10 anos. O aumento seria de aproximadamente 35% da atual capacidade de geração (700TWh contra 245TWh, considerando um uso de 1.000km por mês). Então, seria necessário alocar 3,5% do PIB a cada ano para eletrificar nossa frota, um total estimado em R$1,8 bilhão anual. Fora isso, teríamos de instalar uma rede nacional de carregadores ao custo aproximado, aos preços atuais, de R$600 bilhões. E outros R$900 milhões para reforçar a rede de distribuição. Ao todo, ao cabo de 10 anos, por apenas R$19,5 bilhões atingiríamos o paraíso elétrico.
Vamos falar sério, o Brasil tem outras prioridades, como saneamento básico, infraestrutura, saúde, educação e um longo etc. E o custo seria bancado com dinheiro público, ou seja com o seu, o meu etc., para atender aos proprietários de carros. Alguns dirão que as PPPs resolveriam esse problema. É mera narrativa. Qual o empresário que vai investir bilhões a longo prazo sem saber da evolução do mercado, da velocidade de aumento da produção e da distribuição de energia? E qual seria o preço final dessa energia veicular para cobrir todos esses custos?
E não para por aí. Em um país continental como o nosso, a rede de carregadores teria de ter capilaridade e quantidade. Isso não ser faz nem em 10 anos. Também, qual seria a fonte de onde sairia esse considerável aumento de produção? Energia hidráulica, praticamente esgotada, energia eólica, escassez de locais apropriados, energia solar, só se diminuir a área cultivada. O que resta? A energia nuclear, que, na União Europeia, pasmem, acaba de ser considerada energia verde. Essa última não parece ser muito ecológica, digamos, invalidando o argumento da pretensa superioridade “moral” do carro elétrico.
E mais, a autonomia tão propagandeada de 500km, 600km, é uma falácia pois, em condições reais, atinge 400km, com sorte. Imagina uma viagem de Brasília a São Paulo. É bom não ter pressa, porque, se o carregador estiver disponível vão ser uns 45/50 minutos, isso, 2 vezes. Em relação ao veículo a combustão o trajeto duraria umas 2 horas mais. Convém ter presente, ademais, que o carro elétrico é um celular com rodas. E, como sabemos, a bateria de celular vai perdendo capacidade de carga, tanto é assim que, ao cabo de uns 3, 4 anos, ou trocamos de celular ou trocamos a bateria, que costuma ser mais cara que o valor do aparelho.
E não devemos esquecer o impressionante impacto ambiental decorrente tanto da extração do lítio como da reciclagem das baterias, o que anula a dita emissão zero de CO2. Para que serve o carro elétrico? No Brasil, apenas nas grandes cidades, onde contribuiria para a diminuição da poluição do ar e do barulho, e só. Atualmente não estamos fazendo um bom negócio. Exportamos proteína vegetal e animal para a China e importamos celulares, perdão SUVs, com rodas. E temos uma solução muito mais ecológica, nacional, com custos em Reais: O Etanol. A rede está instalada, a tecnologia já está presente, a produção pode aumentar. A contaminação é mínima pois a produção de etanol é carbono neutra.
É claro que existem interesses fortíssimos para nos vender essa narrativa. Um último lembrete: Se você comprou um carro elétrico, saiba que em 3, 4 anos terá de trocar a bateria e o custo dela é superior ao valor do carro. A locadora Hertz, que entende algo de carros, desde 2024 está vendendo sua frota elétrica. Fica a dica: Venda logo para diminuir o prejuízo!
Lúcio Reiner é bacharel em Relações Internacionais (ScPo Paris) Mestre em Relações Internacionais (UnB) Foi Chefe da Assessoria Internacional e Protocolo do Presidente da Câmara dos Deputados


