A ilógica vitória da moderação em Portugal (Por David Pontes)

Num tempo em que a política é dominada pela divisão, o novo Presidente somou os votos de uma coligação estranha, mas natural

atualizado

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Foi uma grande vitória da moderação. Parece uma banalidade, sintonizada com o perfil do vencedor, mas é muito mais do que isso. Ao conseguir o maior número de votos de sempre de um candidato presidencial, a segunda maior percentagem, a capacidade agregadora de António José Seguro ganha uma legitimidade reforçada, no tamanho, mas também no significado.

Porque a vitória de Seguro foge às trincheiras. Num tempo em que a política é dominada pela divisão, o novo Presidente somou os votos de uma coligação estranha, mas natural. Do PCP ao CDS, a maioria dos portugueses mobilizaram-se em torno de um candidato que promete cumprir e defender a Constituição e que apresentou um programa de diálogo e estabilidade. É imenso, por estes dias, ainda mais de um candidato vindo de uma esquerda diminuída.

Fez esse caminho quase sozinho. Saído de uma reclusão de onze anos, foi ele que se impôs ao partido e ao país, fazendo ouvidos moucos às sereias que o foram tentando com as soluções táticas do momento. Não se desviou do perfil com que começou esse percurso, sem forçar possíveis aliados ou dramatizando o momento, o que lhe confere uma enorme liberdade de atuação.

Seguro teve mais do dobro dos votos de André Ventura, dois terços dos eleitores. O líder do Chega (extrema-direita) conseguiu aumentar a sua votação, mas para quem partiu com a ideia de liderar a direita, para quem se beneficiou da ausência de indicação de votos dos partidos desse espaço político, acabou por ficar aquém do pretendido, mas não muito. Não haja ilusões, Ventura continua em ascensão e se a esquerda ainda lambe as feridas das legislativas, a direita democrática deve olhar com muita atenção para as que sofreu nas presidenciais.

A vitória de Seguro é também contra a lógica da enxurrada mediática que, por estes dias, até levou o bom senso daqueles que acharam que seria natural adiar as eleições a pedido de um líder populista. Os níveis de abstenção, semelhantes aos da primeira volta (turno), mostraram como os portugueses ainda conseguem reagir à intempérie que ameaça a democracia.

Portugal acorda com um Presidente eleito que é novo em muitas dimensões. No Palácio de São Bento, contrariando os ventos do presente, vai morar um outro tempo para as decisões e para a palavra. Uma oportunidade que se abre para reconstruir uma cultura que privilegie o diálogo, a ponderação e a estabilidade, que foi o que os portugueses voltaram a sufragar. António José Seguro obteve essa vitória. O que se deseja é que consiga agora fazer reverter isso a favor de todos os portugueses.

 

(Transcrito do PÚBLICO)

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