A História de Amor de Miles Davis a Paris (por Flávio de Mattos)

Jazz

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Miles Davis
1 de 1 Miles Davis - Foto: Reprodução

Miles Davis tinha 22 anos, quando viajou a Paris, na primavera de 1949. Era a primeira vez que o jovem trompetista saía dos Estados Unidos, para tocar fora do país. Ele integrava o quarteto do pianista Tadd Dameron, alternando suas atuações com o saxofonista Charlie Parker. Logo que chegou encomendou dois ternos novos em um alfaiate e desfilava feito um dândi pela cidade.

“Aquela viagem mudou completamente minha visão de mundo”, conta Miles Davis em suas memórias. “Adorei estar em Paris e sentir-me livre, como nunca havia sido antes. Adorei a maneira como fui tratado. Pela primeira vez me senti respeitado como um ser humano, como pessoa, e não só como músico. Até a nossa música soava melhor naquele clima”.

Na verdade, Miles Davis foi tratado quase como um deus, em Paris. Estrela em ascensão na América, ele eletrizou as plateias francesas, ávidas por essa nova música, que começava a empolgar a Europa. Em sua primeira apresentação na Salle Pleyel, o poeta, compositor, cantor e trompetista Boris Vian se apresentou a ele. Vian o levou para conhecer seus amigos Jean-Paul Sartre e Pablo Picasso. E nos cafés de Saint-German de Prés, naqueles dias, a mesa mais especial era a que reunia esse pequeno grupo de gênios.

Em um dos ensaios na Salle Pleyel, Boris Vian apareceu com sua mulher Michelle Vian e uma amiga, a atriz e cantora Juliette Gréco, então com 21 anos. “Ela estava sentada em um canto, me olhando enquanto eu tocava. Eu não sabia que era uma cantora famosa, só vi aquela mulher linda, estilosa, com um ar independente, muito diferente das mulheres que eu conhecia”, lembra Miles Davis. “Eu me senti hipnotizado, quase como em transe. Nunca mais senti nada igual aquilo”.

Já Juliette Gréco conta que, de onde estava, via Miles Davis como a estátua de um deus egípcio. “O seu rosto era belíssimo, eu nunca tinha visto um homem tão belo. E nunca mais vi outro homem tão bonito como Miles”, relata a atriz em uma entrevista ao The Gardian, em 2006. “Miles era um espetáculo em si mesmo. Havia uma harmonia incomum entre aquele homem elegante, seu trompete e o som demolidor que ele fazia”.

A partir daquele dia, Miles Davis e Juliette Gréco estiveram todo o tempo juntos. Passeavam de mãos dadas à beira do Sena; sentavam nos cafés, com Sartre, Picasso e Boris Vian; e saíam à noite para ouvir música nos clubes de jazz. “Era abril em Paris e eu estava apaixonado”, confessou Miles em seu livro.

“Miles e eu vivemos uma grande história de amor, oxalá todo mundo pudesse viver uma história desse tipo alguma vez na vida”, conta, por seu lado, Juliette Gréco naquela entrevista.

Mas a turnê acabou e Miles devia voltar aos Estados Unidos. Além do mais, ele tinha ali uma esposa e dois filhos esperando. Juliette pediu que ele ficasse em Paris. Jean-Paul Sartre intercedeu dizendo que ele deveria casar-se com Gréco.

“Eu a amo demais e não quero que seja infeliz”, foi a resposta de Miles a Sartre, segundo conta Gréco. Ela explica que Miles Davis era consciente de que nos Estados Unidos a vida do casal seria impossível. Na América daquela época, era impensável um negro e uma branca andarem de mãos dadas no meio da rua, como em Paris. Em alguns estados americanos, inclusive, estava proibido por lei o que chamavam de “casamentos inter-raciais”. “Ele sabia que eu seria hostilizada e insultada todo o tempo”, explica a atriz.

E Miles Davis voltou muitas vezes a Paris nos anos seguintes. Juliette Gréco, que morreu em setembro do ano passado, aos 93 anos, revelou que ela e Miles nunca mais deixaram de se encontrar. Ele esteve em sua casa poucos meses antes de morrer, quando foi a Paris para um festival de jazz em sua homenagem, em julho de 1991. “Miles estava ali, no salão, olhando o jardim e rindo, com aquele seu jeito meio diabólico”, lembra Juliette Gréco sobre o último encontro dos dois.

No vídeo a seguir temos o último concerto de Miles Davis em Paris, no dia 10 de Julho de 1991. Miles Davis morreu em setembro daquele ano, aos 65 anos.

Flávio de Mattos é jornalista e escreve aqui sobre jazz a cada 15 dias. Dirigiu a Rádio Senado. Produz o programa Improviso – O Jazz do Brasil, que pode ser acessado no endereço: senado.leg.br/radio 

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