A frieza perturbadora de um policial (por Tânia Fusco)
Temos que focar no nosso banal cotidiano de escapar dos cercos da polícia, do ladrão, da misoginia, dos preconceitos.
atualizado
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“Como um policial dispara nove vezes contra uma vítima em luta corporal e o caso é tratado como homicídio culposo? Qual o valor da vida em São Paulo, se uma fiança de 3 mil reais devolve às ruas um policial que atira na nuca de um cidadão inocente?”
O desabafo/cobrança é de Rosmary Javalberg, viúva do empresário Celso Bortoleto de Castro, morto por um policial, em dia de folga, durante uma tentativa de assalto, em São Paulo, no dia 28 de março. Detalhe: o morto era a vítima que lutava contra o assaltante. O policial, segundo tenente Ítalo Feitoza Hattori, chegou e atirou – nove vezes! – nas costas de Celso. Simples assim. Sem ordem de parada. Sem tentar entender quem era quem, qual a causa da briga. Relata a viúva.
“Como psicóloga, denuncio a frieza perturbadora deste oficial. Em nenhum momento, houve sinal de remorso, empatia ou socorro”.
Rosmary enterrou o marido. O policial está solto e trabalhando nas ruas. Pagou fiança de 3 mil reais. Morte por engano. Homicídio culposo. Foi a conclusão do inquérito.
Qual o valor da vida nos dias de hoje?
Em 2025, foram 672 mortes por policiais militares, em São Paulo. Aumento de 3% em relação a 2024. Números que crescem desde 2023.
Se somadas às mortes por policiais fora de serviço, em 2025, foram 776 os assassinatos pelas mãos das forças de segurança paulista. No mesmo período, 11 policiais morreram em serviço.
Verdade que o número de policiais é sempre infinitamente menor do que o de “bandidos”. No meio dos dois grupos, estamos nós, cidadãs e cidadãos. Sujeitos à fúria de ambos. Sem esquecer a selvageria da machosfera, que mata mulheres aos quilos, mais o renitente preconceito que assassina pretos, homossexuais, indígenas, pobres.
Há um cerco à vida. Sobreviver é tarefa diária.
Tempos pra lá de bicudos.
Sobre a nossa cabeça paira medo. Em 2024, 470 mil brasileiros e brasileiras foram afastados do trabalho devido a transtornos mentais. O maior número da década. Ansiedade e depressão lideram as causas das licenças. A população brasileira figura como das mais ansiosas e estressadas do mundo. Mais da metade dos brasileiros apontam a saúde mental como o maior problema de saúde pública do país.
O Ipsos Health Service Report, edição de 2025, registra que 52% dos entrevistados brasileiros apontam a saúde mental como sua maior preocupação. Em 2018, esse índice era de 18%.
Estamos tensos. Temos medo. De muita coisa. Violência à frente e pela frente.
Respira!
Esqueça os assassinos internos, a naturalização da violência – aqui e mundo afora.
Esqueça o Trump. Que diz e desdiz em tempo recorde. Ensinando que a palavra, ainda que de um Chefe de Estado, não vale porcaria nenhuma. A vida menos ainda, já que ele e outros – Netanyahu em fiel parceria – brincam de matar gentes, suas e dos outros, como se fossem soldadinhos de chumbo. Brinquedo. Distração de gente macabra. Ruim. Que, rindo na nossa cara, gasta e ganha montanhas de dinheiro em cada guerra montada. Vidas valem zero. Business, cara pálida.
Esqueça o Vorcaro, que amarrou no mesmo cerco juízes, políticos e polícia, gente alta, gente fina e outros nem tanto. Vale o velho bordão dos tempos de Chico Anísio*: Sou, mas quem não é?
Temos que focar no nosso banal cotidiano de escapar dos cercos da polícia, do ladrão, da misoginia, dos preconceitos. Da paúra de viver cercado. Mal cercado.
Respire!
Pra quem não lembra, não conheceu, Chico Anísio foi um grande humorista brasileiro. Dos maiores. Criador de 209 personagens, em 60 anos de carreira. Sou, mas quem não é? Era o bordão do personagem Tavares, malandro brasileiro, que assim justificava suas canalhices.


