A economia descola da política no Brasil (por Ricardo Guedes)

Diante de tanta bagunça política no Brasil, era de se imaginar que a economia também estivesse saindo pelos ralos. Entretanto, surpresa!

atualizado

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Myke Sena/Especial Metrópoles
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O grau de dissenso entre os políticos hoje no Brasil chega a extremos que impossibilitam qualquer jogo cooperativo, para o bem público. O desserviço que Eduardo Bolsonaro tem prestado ao país, parece-me não ter paralelo em nossa história, a tal ponto que chegamos. O PT, que vinha mal das pernas, foi realçado à perspectiva de poder, com fortes chances de eleições para 2026. Será a eleição da menor rejeição; que se tenha, pelo menos, calma para se viver. As contas públicas, deixamos para depois.

Diante de tanta confusão, entretanto, a economia prospera. As tarifas de Trump de 50% sobre a exportação brasileira para os Estados Unidos foram oficializadas em 30 de julho. De 29 a 30 de julho, o IBOVESPA caiu de 133.990 para 133.071 pontos, 132.437 em 31 de julho, em uma variação de -1,16% em dois dias. De 31 de julho a 24 de setembro, entretanto, o IBOVESPA, em tendência crescente, chegou a 146.491 pontos, em uma variação total de 29 de julho a 24 de setembro de +9,33%.

Dos 13% de nossas exportações totais, a parte correspondente do que vai para os Estados Unidos, a taxação americana foi diminuída para 7% de nossas exportações, devido aos interesses dos Estados Unidos em produtos que são integrados na cadeia produtiva norte-americana. Mas o Brasil se moveu, naqueles raros momentos em que a política e o empresariado se abraçam. No total, nossas exportações aumentaram mais do que nossas importações neste período, devido aos mercados compradores da China, União Europeia, e Argentina. Nos Estados Unidos, sobem hoje os preços do café e da carne, para o descontentamento do consumidor americano.

Os Estados Unidos representavam 40% do PIB mundial em 1960, hoje em 26%. Os Estados Unidos são, sem dúvidas, o maior país do mundo, mas não imperam mais; os outros países cresceram, na expansão contínua do mercado internacional. Internamente, o Brasil tem uma das maiores cargas tributárias do mundo, chegando a 32,32% do PIB; mas parece que o empresariado brasileiro, já contabilizando os tributos como “custo fixo”, resolveram ir a frente, descolando da política.

Na Itália é assim, a política sempre vai mal, mas a economia vai bem. Enquanto Milão produz e ganha, Roma briga e perde. Aqui, parece estar ocorrendo o similar. Enquanto São Paulo produz e ganha, Brasília briga e perde. A elite econômica da Itália, entretanto, reinveste mais na economia do que a elite do Brasil. A taxa média mundial de reinvestimento na economia está hoje em 26% do PIB, Brasil 17%, Itália 22%; Estados Unidos 22%, União Europeia 21%; Rússia 26%; China 41%, Índia 33%, Coreia do Sul 32%. Comparativamente, a elite italiana mais investe, a elite brasileira mais se diverte.

Adicionalmente, é importante observar que Lula se projetou na ONU, seguido do afago de Trump a Lula, em demonstração de interesse pelo Brasil, uma vez que as sanções políticas e econômicas ao Brasil não funcionaram, e devido à importância estratégica do Brasil, com sua economia, commodities, recursos naturais, e como o único país do Ocidente a integrar o hardcore do BRICS.

Sabemos dos problemas estruturais que o déficit público acarreta no Brasil e da “crise contratada” para 2027, conforme indicado por Paulo Paiva; mas como o executivo e os políticos internamente não se entendem, deixamos as contas públicas para depois. Infelizmente.

A ver se essa nova boa tendência na economia vai em frente. Assim esperamos.

 

Ricardo Guedes é Ph.D. pela Universidade de Chicago

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