A chance de Belém (por Marcos Magalhães)

Não haverá soluções mágicas para as mudanças climáticas em Belém. Boas ideias e propostas, porém, poderão amadurecer

atualizado

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Ricardo Lima/Getty Images
Imagem colorida de Mercado Ver-o-Peso, em Belém (PA), onde jornalistas foram assaltados - Metrópoles
1 de 1 Imagem colorida de Mercado Ver-o-Peso, em Belém (PA), onde jornalistas foram assaltados - Metrópoles - Foto: Ricardo Lima/Getty Images

O clima sempre vem à memória de quem conta uma história sobre Belém. O calor, a chuva da tarde, a noite fresca nos bancos de uma grande praça centenária. Depois deste mês, vai ser a vez de Belém contar casos sobre o clima aos futuros viajantes.

A cidade, pelas vozes de seus habitantes, vai manter vivas na memória as palavras ditas e as não ditas durante a Conferência das Nações Unidas sobre o Clima. A COP-30 já vai ser história e, se tudo correr bem, vai também fazer História.

Tudo o que for decidido nessa cidade de gente orgulhosa da sua cultura vai afetar, de um jeito ou de outro, a vida de quem vive por ali e de quem mora muito longe.

Não vai ser fácil. Para começar pesam as ausências de países como os poderosos Estados Unidos, que buscam desacreditar as próprias evidências científicas por trás das advertências sobre a mudança climática.

Se tudo der errado, vai ser fácil lembrar dos ausentes e dos que, mesmo presentes, evitaram assumir compromissos dignos do nome em favor da saúde de nosso pequeno e frágil planeta.

De fato, Belém poderá se tornar, se nada for feito, uma das cidades mais quentes do mundo. E a chuva da tarde nem sempre estará ali para aliviar o dia.

Se alguma coisa der certo, o encontro poderá ser lembrado como aquele que evitou o pior cenário contido em relatórios científicos. E só isso já será suficiente para que Belém seja citada como a cidade onde, como diria Aílton Krenak, adotaram-se ideias para adiar o fim do mundo.

A oportunidade existe. A cidade está ali à disposição, mais preparada para atender a milhares de visitantes de todos os continentes.

Poderia estar melhor, é verdade. Poderia ter mais quartos de hotéis, árvores mais espalhadas pelas avenidas e uma qualidade de vida melhor para todos os seus moradores.

Mesmo assim, todos os que se deixarem contagiar pela energia local vão se lembrar depois de mais do que o calor e a chuva. Poderão recordar uma cultura rica que valoriza muito a densa presença da floresta que a envolve.

Pois que atravessem de barco os rios próximos e distantes, que tomem aviões os que puderem e percebam sob seus pés o enorme tapete verde da floresta. Assim levarão para casa uma lembrança mais viva da Amazônia.

Isso vale também para quem nasceu no Brasil e nunca incluiu a região em seus cuidadosos roteiros de viagem. Quem vê de perto a floresta, quem navega por seus rios e se deixa estacionar por alguns minutos nas praias brancas ao entardecer, esse alguém vai entender melhor do que se trata.

Há quase meio século, ali pelo fim do regime militar, muitos jornalistas da Europa e da América do Norte chegavam a Belém em busca de notícias sobre estranhos projetos que tinham as bençãos do governo federal sob a forma de incentivos fiscais.

Era um tempo em que se plantavam eucaliptos no Amapá, se derrubavam dezenas de milhares de hectares de florestas no sul do Pará para plantar pastagens e se usavam tóxicos agentes químicos para desfolhar árvores que teimavam em ocupar o caminho de linhas de transmissão de eletricidade produzida pela usina de Tucuruí.

As reportagens assinadas por todos esses jornalistas espalharam pelo mundo o temor de uma rápida destruição da floresta. Ajudaram, por outro lado, a criar uma consciência ambiental sobre os riscos contidos em equivocadas opções econômicas.

Os riscos ainda existem, agravados pela presença nas áreas de fronteira de facções criminosas dispostas a espalhar pela floresta o mesmo terror a que são submetidas populações mais pobres das periferias de cidades como o Rio de Janeiro.

Continuam em operação, também, grupos que se dedicam a derrubar enormes nacos de floresta para estabelecer ali atividades criminosas. Assim como garimpeiros ilegais que usam nos rios produtos como o mercúrio para mais facilmente obterem o ouro.

Mas há também boas notícias, dessas que podem ser celebradas com boa cerveja local ao fim de uma quente tarde amazônica. Os desmatamentos, por exemplo, caíram 11% nos últimos 12 meses, segundo dados divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Graças à queda do desmatamento na Amazônia e no Cerrado, também caíram 16,7% as emissões brasileiras de gases de efeito estufa – desses que tornam o clima um perigo sempre mais presente.

Mesmo assim, o Brasil não terá alcançado a sua própria meta de redução. A Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC, na sigla em inglês) foi de 1,44 gigatonelada – quando deveria ter ficado sob o teto de 1,32 gigatonelada.

Haverá também quem veja hipocrisia no governo brasileiro por defender a redução de emissões e de consumo de combustíveis fósseis, ao mesmo tempo que acaba de autorizar trabalhos de pesquisa da presença de petróleo na Margem Equatorial.

Mas é preciso admitir que o atual governo brasileiro tem adotado um olhar mais cuidadoso para a região – a começar pela própria escolha de Belém como sede da COP-30, apesar das carências locais de infraestrutura.

No oeste do Pará, onde esteve no início da semana para encontro com lideranças locais, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou a criação de uma universidade federal destinada às populações indígenas, com sede em Brasília e unidades de ensino distribuídas por toda a região.

Existe ainda um esforço para incluir na agenda econômica oficial incentivos à bioeconomia, concedidos a atividades que privilegiem o uso sustentável de produtos da floresta, a formação de mão-de-obra local e a geração de trabalho e renda para quem ajuda a manter a floresta em pé.

Uma das principais propostas do Brasil e de outros países tropicais na COP, sob o nome de Fundo Florestas Tropicais para Sempre, será justamente a de ajudar a quem ajuda a floresta, com investimentos de fundos soberanos e capital privado.

Não haverá soluções mágicas em Belém. Boas ideias e propostas, porém, poderão amadurecer ali e se espalhar por um planeta cada vez mais assombrado por radicalismos políticos e cada vez menos atento a pequenos soluços de sabedoria.

 

Marcos Magalhães. Jornalista especializado em temas globais, com mestrado em Relações Internacionais pela Universidade de Southampton (Inglaterra), apresentou na TV Senado o programa Cidadania Mundo. Iniciou a carreira em 1982, como repórter da revista Veja para a região amazônica. Em Brasília, a partir de 1985, trabalhou nas sucursais de Jornal do Brasil, IstoÉ, Gazeta Mercantil, Manchete e Estado de S. Paulo, antes de ingressar na Comunicação Social do Senado, onde permaneceu até o fim de 2018.

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