A censura mudou de lugar (por Hubert Alquéres)
Multiplicaram-se episódios de pressão pela retirada de livros de escolas e bibliotecas, campanhas para cancelar autores
atualizado
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Nesta semana, a escritora Ana Maria Machado participou da Feira do Livro que aconteceu no Pacaembú em São Paulo sob a direção de Paulo Werneck. Ao revisitar episódios de sua trajetória como jornalista e autora, trouxe uma reflexão que merece atenção para além do universo literário.
Ao recordar sua passagem pela Rádio Jornal do Brasil, durante os anos da ditadura militar, Ana Maria descreveu uma situação que hoje parece quase inconcebível para as gerações mais jovens: a presença permanente da censura prévia nas redações dos órgãos de imprensa. Reportagens eram examinadas antes de ir ao ar, assuntos eram vetados e autoridades governamentais definiam o que podia ou não chegar ao público.
Sua reação, porém, era curiosa. Em vez de orientar os jornalistas a evitar determinados temas, Ana Maria recomendava exatamente o contrário: que realizassem seu trabalho como se a censura não existisse. Que apurassem os fatos, entrevistassem as fontes e produzissem as melhores reportagens possíveis. Se depois o censor resolvesse cortar o material, essa seria uma responsabilidade do Estado, não do jornalista.
A diferença não é pequena. Quando profissionais da comunicação começam a antecipar aquilo que acreditam que será proibido, a censura deixa de ser apenas um mecanismo externo e passa a habitar a própria consciência dos indivíduos. O censor já não precisa estar presente. Ele foi internalizado.
A observação ajuda a compreender um fenômeno atual que raramente é tratado com a devida profundidade.
Costumamos associar a censura à sua forma clássica: um governo autoritário proibindo livros, interditando peças de teatro ou impedindo a circulação de jornais. Essa continua sendo uma ameaça real em muitas partes do mundo e não deve jamais ser subestimada.
Mas não é a única.
Ao longo dos últimos anos, multiplicaram-se episódios de pressão pela retirada de livros de escolas e bibliotecas, campanhas para cancelar autores, tentativas de silenciar opiniões divergentes e movimentos organizados para impedir o debate de temas considerados inconvenientes.
Durante o encontro, foi lembrado o caso recente de questionamentos e tentativa de retirada numa escola militar em Brasília do livro A Bolsa Amarela, de Lygia Bojunga, uma das obras mais importantes da literatura infantil brasileira. O episódio não decorreu de uma determinação governamental nem de um ato formal de censura estatal. Surgiu de pressões exercidas por segmentos da própria comunidade. Em grupos de mensagens, alguns pais passaram a defender sua retirada, atribuindo significados que ela jamais pretendeu carregar.
Foi nesse contexto que Ana Maria Machado formulou uma observação particularmente instigante. Segundo ela, a censura não desapareceu; mudou de lugar.
Se antes era predominantemente vertical, exercida de cima para baixo, pelo Estado sobre os cidadãos, hoje frequentemente assume uma forma horizontal. São grupos sociais, organizações, movimentos ou mesmo indivíduos que reivindicam para si o direito de decidir o que os outros podem ler, ouvir ou pensar.
A lógica permanece semelhante. Muda apenas o agente censor.
O fenômeno não se limita ao universo dos livros. Ele está presente nas redes sociais, nos ambientes profissionais, nas universidades e até mesmo nas relações pessoais. Em muitos casos, a preocupação já não é debater uma ideia, mas impedir que ela seja expressa.
Não por acaso, um dos romances mais instigantes de Ana Maria Machado, Infâmia, publicado em 2011, antecipou questões que se tornariam frequentes na década seguinte. Inspirado, entre outras referências, pelo caso da Escola Base — um dos episódios mais dramáticos da história recente brasileira, em que pessoas inocentes tiveram suas vidas destruídas por acusações precipitadas e pela repercussão irresponsável de parte da imprensa —, o livro aborda a destruição de reputações, os julgamentos imediatistas e a velocidade com que suspeitas podem se transformar em condenações sociais. Ao transformar esse episódio em literatura, Ana Maria chamou atenção para um fenômeno que se tornaria cada vez mais frequente: a facilidade com que acusações se convertem em sentenças e suspeitas em verdades incontestáveis.
Muito antes de a palavra “cancelamento” entrar no vocabulário cotidiano, a escritora já explorava literariamente seus mecanismos.
A história recente oferece inúmeros exemplos de pessoas condenadas pela opinião pública antes que os fatos fossem plenamente conhecidos. Em uma sociedade hiperconectada, a velocidade da acusação frequentemente supera a velocidade da apuração. A emoção costuma chegar antes da reflexão. O julgamento, e a condenação, precedem a análise.
O problema é que a democracia depende exatamente do contrário.
Depende da disposição de ouvir argumentos, examinar evidências, admitir dúvidas e conviver com opiniões que nem sempre agradam. A liberdade de expressão não existe para proteger consensos. Consensos dispensam proteção. Ela existe para proteger o dissenso.
Talvez por isso a reflexão proposta por Ana Maria Machado seja tão atual. O desafio contemporâneo já não consiste apenas em impedir que governos silenciem cidadãos. Consiste também em evitar que cidadãos silenciem outros cidadãos.
Uma sociedade verdadeiramente democrática não é aquela em que todos concordam. É aquela em que as divergências podem ser expressas sem que livros precisem ser retirados das estantes, autores sejam interditados ou opiniões sejam transformadas em motivo de exclusão.
Talvez a principal lição deixada pela escritora na Feira do Livro tenha sido esta: a censura mudou de lugar. Mas continua exigindo vigilância.
E talvez a melhor forma de enfrentá-la permaneça sendo a mesma defendida por Ana Maria Machado nos tempos da Rádio Jornal do Brasil: fazer o próprio trabalho com honestidade intelectual, dizer o que precisa ser dito e não permitir que o censor, seja ele estatal ou social, passe a habitar dentro de nós.
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Hubert Alquéres é presidente da Academia Paulista de Educação e vice-presidente da Câmara Brasileira do Livro.


